martes, 17 de enero de 2017

A linha da fé


Não é uma novidade que existem pessoas que não acreditam em nada. Desde os anos imediatamente posteriores à vida terrena de Jesus Cristo, havia pessoas que não acreditavam que Ele era realmente o Filho de Deus. A nossa tarefa como cristãos não é a de forçar os outros a crer. Nós devemos somente dar testemunho, de diferentes modos, do Evangelho de Jesus Cristo. Nosso testemunho deve ser tranquilo, cortês, humilde, porém firme. Com nosso testemunho conseguiremos aproximar as pessoas de Jesus, e conseguiremos aproximá-las à “linha da fé”. O que não poderemos é fazer que uma pessoa creia. Isso é impossível por parte do homem. A verdadeira conversão, segundo as palavras de João (1, 12-13), vêm diretamente de Deus, ou seja, é obra do Espírito Santo:

Mas a todos os que a receberam, aos que creem no seu nome, lhes deu potestade de ser feitos filhos de Deus; os quais não são engendrados de sangue, nem de vontade de carne, nem de vontade de varão, senão de Deus.

No entanto, como acabou de escrever, nossa tarefa é testemunhar o Evangelho. Mas hoje tem gente que não quer escutar o Evangelho, porque tem preconceitos sobre Jesus ou sobre os primeiros cristãos e, portanto, fica na defensiva. Analisemos brevemente estes preconceitos e demostremos sua falta de fundamento.
Antes que nada, seguindo o liberalismo, muitas pessoas hoje acreditam que Jesus foi um grande “sábio”, uma pessoa de altíssimo valor moral que predicou o bem e que teve vários seguidores. Praticamente o reconhecem como uma pessoa iluminada, um grande filósofo ou “o maior sábio de todos os tempos”. Outros, seguindo esta linha, consideram que Jesus era um “predicador apocalíptico”. Esta interpretação é facilmente demolida não só pela Bíblia, mas, sobretudo, pela lógica. Primeiro que tudo, vejamos este ponto: se Jesus Cristo tivesse sido “somente” um “grande sábio”, não teria ressurgido dos mortos no terceiro dia. Então, nenhum dos seus seguidores teria divulgado sua Ressurreição, arriscando a vida tanto diante do poder sacerdotal judaico como do poder romano. O que teriam ganho os seguidores de Jesus divulgando uma mentira sabendo que divulgavam uma mentira? Nada.
Além disso, a mensagem central do Evangelho não é somente amor, mas também salvação. Das fontes bíblicas e históricas em nosso poder, se deduz que desde os anos imediatamente seguintes à vida terrena de Jesus, os Apóstolos e outros seguidores de Cristo predicaram que somente através do arrependimento dos próprios pecados e a fé de que Jesus morreu na cruz para perdoar todos os pecados se pode chegar ao Pai. Na prática, eles predicaram que somente através de Jesus se pode obter a vida eterna (Evangelho de João 14, 6). Além disso, os primeiros cristãos batizavam em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo (Evangelho de Mateus 28, 19), demostrando que acreditavam na Trindade e, portanto, que consideravam que Jesus Cristo é verdadeiro Deus e verdadeiro homem. A maioria dos primeiros cristãos foi ao martírio inclusive por não negar a Ressurreição de Jesus na carne e sua plena Divindade.
Todos os Apóstolos, exceto João, morreram mártires. E, além disso, Estevão, Paulo, Barnabé, São Tiago o Justo, Clemente de Roma, Inácio de Antioquia, Justino Mártir e outros também morreram no patíbulo, culpáveis de não ter negado a Divindade de Jesus Cristo.
Neste ponto alguém poderia objetar que a Ressurreição mesma não foi um evento real, mas que os Apóstolos se convenceram de ter voltado a ver a Jesus, seu mestre, e divulgaram sua Ressurreição. No meu artigo “Considerações sobre a Ressurreição de Jesus Cristo” (1) analisei várias hipóteses sobre a Ressurreição. Por exemplo, que o corpo de Jesus tenha sido tirado da tumba ou que os Apóstolos tenham tido alucinações coletivas.
Analisemos o primeiro ponto: primeiro que tudo, temos que lembrar que a lei judaica proibia expressamente abrir as sepulturas (se não fosse para depositar outros mortos), e castigava com a morte o furto de cadáveres; portanto, a hipótese de que algum dos seguidores de Jesus tenha realmente extraído o corpo é, desde um ponto de vista histórico, remota. Os Apóstolos mesmos não teriam ganho nada divulgando uma mentira que eles mesmos teriam inventado. Ao contrário, teriam se arriscado a morrer. Inclusive se um dos Apóstolos, por absurdo, tivesse extraído o corpo, a verdade teria vindo à luz, e ninguém teria divulgado uma mentira, pondo em risco sua vida. Está excluída a possibilidade de que os sacerdotes judeus ou os soldados romanos tenham extraído o corpo, justamente porque não tinham nenhum interesse em alimentar o mito de que Jesus teria ressurgido dos mortos.
Também a hipótese da alucinação coletiva deve ser descartada. Os estudiosos de fenômenos de alucinação afirmam que, normalmente, as alucinações se verificam através de um dos cinco sentidos. Portanto, podemos verificar alucinações visuais, olfativas, auditivas, táteis e, inclusive, gustativas. É raríssimo, no entanto, que o fenômeno de alucinação se manifeste de modo completo, ou seja, vendo, escutando e tocando “alguém ou alguma coisa”: Além disso, ainda mais difícil, é que uma alucinação se manifeste em várias pessoas ao mesmo tempo.
Porém, as aparições de Jesus não tiveram lugar num só evento. Houve várias e em diferentes lugares. Aliás, os Apóstolos, logo das aparições, não deram sinais de delírio ou loucura, salvo que viveram de forma dócil, calma e tranquila, divulgando, com firmeza, a Boa Nova.
Por outro lado, o fato de que nenhum tenha contradito aos demais é outro indício de que o que viram era verídico. Além disso, o fato de que os primeiros cristãos estivessem dispostos também a morrer e não renegar Jesus Cristo é uma ulterior prova da veracidade das aparições.  Nenhum deles teria morrido se não tivesse certeza de que quem apareceu depois da Ressurreição era justamente Jesus, em carne e osso, lembrando, obviamente, que esse evento tinha sido anunciado por Ele enquanto estava com vida. Além do que, há um fato por considerar: se a teoria das alucinações fosse verdadeira, deveria ser verdadeira também a teoria da extração do cadáver de Jesus da tumba. Nesse ponto, os céticos da Ressurreição devem conciliar vários fatos para negar que a Ressurreição sucedeu realmente: devem, de fato, assumir que o corpo de Jesus foi roubado (teoria que, como vimos, é, desde um ponto de vista histórico, remota) e que, ao mesmo tempo, todos os Apóstolos, além de Maria Madalena, os discípulos de Emaús, São Tiago o Justo e logo Paulo de Tarso tiveram alucinações em grupo por mais de uma vez. Considerando, de fato, que no Novo Testamento estão descritas ao menos doze aparições (2) diferentes, entre elas (excluindo o Apocalipse), resulta altamente improvável que tenham sido todas devido a alucinações, inclusive tendo em conta que, durante os anos que sucederam, nenhum dos Apóstolos deu sinais de esquizofrenia ou delírio.
Vemos, portanto, que a teoria de Jesus como um “grande sábio” cai justamente pelo comportamento dos Apóstolos. Se tivesse sido somente “um grande sábio”, nenhum deles teria divulgado sua Ressurreição na carne.
Analisemos agora a teoria de Jesus revolucionário, partidário antirromano que teria combatido as injustiças com o fim de liberar Israel do jugo dos romanos. Primeiro que tudo, podemos refutar esta teoria com a primeira argumentação: se Jesus tivesse sido só um partidário antirromano, ninguém teria divulgado sua Ressurreição. Porém há mais: se Jesus tivesse sido um partidário antirromano que queria gerar uma revolta para liberar Israel, seus seguidores, depois da sua morte, teriam difundido ideias revolucionárias e violentas, mas a história prova que eles divulgaram o Evangelho, ou seja, amor ante os inimigos e salvação para quem aceita o sacrifício de Jesus sobre a cruz.
O simples fato de que os Apóstolos morreram como mártires desmente a possibilidade de que Jesus fosse um revolucionário antirromano. O martírio, de fato, era um ato pacífico e não violento. Eles preferiam morrer a negar o nome de Jesus e sua Divindade.
Por outro lado, se tivessem tido como objetivo um complô antirromano, não teriam permitido serem mortos depois de torturas atrozes por não negar a Divindade de Cristo (como as infligidas, por exemplo, a Bartolomeu, que foi esfolado vivo); teriam sim negado, salvando suas vidas e divulgando suas ideias de outra maneira. A teoria de Jesus partidário antirromano cai então.
Analisemos agora, brevemente, a teoria islâmica sobre Jesus. Segundo o Alcorão, Jesus foi somente um profeta de Deus, mas não a encarnação de Deus. Além disso, não morreu na cruz (Alcorão 4, 157-158) e, portanto, não pode perdoar os pecados do mundo. Obviamente, para os islâmicos, Jesus não ressuscitou na carne.
A teoria islâmica sobre Jesus se refuta facilmente com as citações históricas sobre a morte de Jesus Cristo na cruz (ver nota 3 y 4); também e, sobretudo, com a lógica. Se, de fato, Jesus não tivesse morrido na cruz, não teria tampouco ressuscitado dentre os mortos. Ninguém teria então divulgado sua Ressurreição, arriscando a vida tanto frente ao poder sacerdotal judaico como frente ao poder romano.
Analisemos agora a última teoria sobre Jesus, ou seja, a do “Jesus gnóstico”. Primeiro que tudo, reconheçamos brevemente o que foi o gnosticismo cristão do segundo século de nossa era. A visão gnóstica de Basílides, Valentino e Marcião não foi uma fé original, mas uma adaptação de conceitos gnósticos aplicados ao Cristianismo, com forte oposição ao Antigo Testamento. Os gnósticos, vendo somente as negatividades do mundo terreno, ou seja, o mal, a dor e o sofrimento, atribuíram tudo a YHWH, que identificavam com o demiurgo mau.
Jesus, em contrapartida, não podia ser repudiado, porque sua mensagem era grandiosa e muitos estavam dispostos a morrer por Ele. Portanto, efetuaram um sincretismo, adaptando sua palavra à crença.
O “Jesus gnóstico”, portanto, já não era o descrito pelos Apóstolos, que foram quem viveram com o Salvador, era o inventado e idealizado pelos gnósticos. Aquele “Jesus gnóstico” não tinha sofrido na cruz, já que sua natureza puramente divina lhe impedia sofrer e, portanto, tampouco a Ressurreição tinha sentido, era uma alegoria. A importância da vinda de Jesus era só e somente sua ação de “ponte” que teria podido levar ao homem à verdadeira gnose e, portanto, a Deus. Resulta, desta maneira, um Jesus completamente falsificado que não corresponde aos textos neo-testamentários.
Os gnósticos atuais, em geral, reconhecem Jesus como uma pessoa iluminada que foi capaz de encarnar em si a “consciência de Cristo” (frequentemente utilizam o termo “consciência crística”, no perfeito estilo Nova Era), e o sinalizam como uma ponte para poder obter la salvação. Declaram, além disso, que aceitam a Bíblia como revelação de Deus, mas nenhum deles fala do pecado e da mensagem de salvação que Jesus Cristo deu. Repudiam a Graça que nos foi dada por Jesus Cristo com sua morte na cruz e, portanto, negam o conceito da “Morte vicária de Jesus Cristo”. Quando se observa que os Apóstolos predicaram o conceito de “morte vicária de Jesus Cristo” e o conceito de expiação dos pecados, mantêm-se que este pensamento foi de Paulo de Tarso, mas não dos Apóstolos. Esta tese é fácil de refutar. Primeiro que tudo, as citações sobre a “morte vicária de Jesus Cristo” são numerosas não somente nas cartas de Paulo, mas também nos Evangelhos e em outros livros neo-testamentários (5). Em segundo lugar, é errado dizer que Paulo de Tarso influenciou outros Apóstolos e Evangelistas. Antes que nada, segundo alguns estudiosos, tanto o Evangelho de Mateus como o Evangelho de Marcos foram escritos antes das epístolas de Paulo. Para o estudioso J. Carmignac, o Evangelho de Mateus foi escrito em 45 d.C., inicialmente em aramaico (6). Além do que segundo o estudioso O’Callaghan, um dos fragmentos dos Manuscritos do Mar Morto seria parte do Evangelho de Marcos e se remontaria a 50 d.C. (7). Além disso, si antes do Concílio de Jerusalém os Apóstolos tivessem se dado conta que Paulo de Tarso mantinha uma tese que não coincidia com a mensagem central de Jesus Cristo, o “kerygma” (ou melhor, Jesus Cristo nasceu de uma virgem, portanto é o Filho de Deus, morreu sobre a cruz para perdoar todos os pecados e ressurgiu no terceiro dia na carne), o teriam afastado e tornado incomunicável, não permitindo predicar a palavra do Senhor. Em terceiro lugar, as epístolas de Paulo foram dirigidas às comunidades cristãs dos tessalonicenses, os coríntios, os gálatas, os filipenses, os romanos, os efésios e os colossenses. Portanto, essas cartas, inicialmente, não chegaram às mãos de outros Evangelistas, que então não tinham podido copiar seu conteúdo. Em quarto lugar, temos que considerar que Paulo de Tarso não viajou ao Egito, nem a Bizâncio (Constantinopla), nem à Armênia, nem à Etiopia, nem à Pérsia e muito menos à Índia. No entanto, naqueles lugares se difundiu o “kerygma” desde o século I. Quem difundiu o “kerygma” naquele território onde Paulo de Tarso não viajou? Os Apóstolos naturalmente. Se Paulo de Tarso tivesse inventado algo, e se sua predicação não tivesse coincidido perfeitamente com o ensinamento de Jesus Cristo, teria resultado que nos lugares que citei seria difundido algo distinto, enquanto somente nas áreas visitadas por Paulo o “kerygma” teria sido difundido, mas, como sabemos, não foi assim: por exemplo, no Egito se difundiu o “kerygma” e o Cristianismo apostólico exatamente igual ao Cristianismo difundido por Paulo, e o primeiro que o difundiu foi o Evangelista Marcos. O mesmo para outros lugares que mencionei: André para Bizâncio, Judas Tadeu y Bartolomeu para Armênia, Tomás para Índia etc.
Além disso, Paulo de Tarso foi ao martírio para não negar o que tinha escrito e dito sobre Jesus Cristo. Naturalmente, as fontes históricas sobre o martírio de Paulo de Tarso são numerosas (7).
Fica então demostrado que a doutrina da “morte vicária de Jesus Cristo” é apostólica, ou seja, foi divulgada por todos os Apóstolos e não foi uma invenção de Paulo de Tarso.
Portanto, a visão gnóstica que não considera o Evangelho na sua totalidade, ou seja, descarta o pecado e a mensagem central da predicação de Jesus Cristo sobre a salvação, resulta ser uma fé falsificada, acomodada às exigências de uma tendência de moda, que mostra um Evangelho de amor, mas não de salvação. Descartam-se as partes do Evangelho que são mordazes e que ressaltam o arrependimento dos próprios pecados e a fé de que Jesus morreu para expiá-los em nosso lugar e se detém somente no amor, na compaixão e na misericórdia.
Vimos, então, que cada uma destas quatro teorias (a saber: Jesus como “grande sábio” ou “predicador apocalíptico”; “Jesus revolucionário antirromano”; “Jesus islâmico” e “Jesus gnóstico”) não têm um fundamento sólido nem desde o ponto de vista histórico, nem desde o ponto de vista lógico.

Yuri Leveratto

Traducido por Daniel Serafini

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