martes, 6 de octubre de 2015

O híbrido constantiniano


Em Esmirna, ano 155 d.C., foi condenado a morte um ancião seguidor de Cristo, cujo nome era Policarpo. Foi acusado de não ter feito sacrifícios para o imperador romano Antonino Pio. 
O procônsul Stazio Quadrato olhou Policarpo na cadeia e disse-lhe que se jurasse pela divinidade de César seria liberado. Mas Policarpo negou-se a jurar pela divinidade de um simples homem, mesmo que fosse imperador. Então, Stazio Quadrato exortou-lhe a maldizer Jesus Cristo e a negar a Deus. Somente isto devia fazer e, se tivesse feito, teria sido liberado. Porém, Policarpo não podia renegar Cristo, sua fé era sólida como pedra e não temia a morte, já que dava mais importância à vida eterna que à vida terrena.
Quando Policarpo foi queimado vivo, a gente de Esmirna pensou que com sua morte apagaria para sempre essa “detestável superstição” chamada cristianismo. Mas nos anos seguintes, o cristianismo, em vez de desaparecer, cresceu cada vez mais: a comunidade aumentava e a palavra de Cristo difundiu-se por todo império.
Mas por quem estavam formadas as primeiras comunidades de cristãos?
Além de Policarpo de Esmirna, podemos começar lembrando Ignacio de Antioquia (35-107 d.C.), Justino Mártir (100-168 d.C.), Ireneo di Lyon (130-202 d.C.), Clemente de Alexandria (150-215 d.C.), Tertuliano (155-230), Orígenes (185-254), Cipriano (210-258) e Lactâncio (250-317). As principais características das comunidades cristãs difundidas pelo mundo antigo refletiam o ensino original dos Evangelhos; os cristãos primitivos, especialmente, viviam separados do “mundo”, ou seja, separados do que era mundano. Sua fé era tão forte que qualquer coisa que reclamasse a adoração da materialidade era para eles negativa e devia ser evitada. Não eram ascetas, como por exemplo, alguns religiosos hindus que praticam a mortificação da carne e a negação do desejo, senão que viviam em contextos não mundanos, não frívolos, austeros, sem ouropeis para ser mais claro.
A adoração do dinheiro, a busca do poder e da materialidade eram conceitos que não interessavam aos cristãos do primeiro, segundo e terceiro século; ao contrário, detinham-se no conceito de compartilhar e de amar incondicionalmente aos irmãos e também às pessoas externas às comunidades: os chamados não-cristãos. 
A tal propósito, uma frase de Justino Mártir (1):

Nós que dávamos valor a adquirir riqueza e posses mais que a qualquer coisa, agora levamos o que temos a um fundo comum e compartilhamos com qualquer um que necessite. Odiávamos e nos destruíamos entre nós mesmos e nos negávamos a associar-nos com povos de outras raças ou países. Agora, por Cristo, vivemos juntos com essas pessoas e oramos por nossos inimigos.

Outra característica dos primeiros cristãos era a fé incondicional em Deus. Eis aqui uma frase de Clemente de Alexandria (2):

Uma pessoa que não faz o que Deus lhe tenha ordenado demonstra que na realidade não acredita n’Ele.

A aceitação das perseguições e a resposta pacífica até elas foi o melhor exemplo da fé absoluta que os primeiros cristãos tinham depositado na figura de Jesus Cristo. A continuação, uma passagem escrita por Lactâncio (3):

Se todos nós temos nossa origem em um homem, a quem Deus criou, claramente, todos pertencemos a uma família. Portanto, deve-se considerar uma abominação odiar a outro ser humano, sem importar que tão culpado possa ser. Por esta razão, Deus tem decretado que não odiemos ninguém, mas que eliminemos o ódio. Desta maneira, podemos confortar a nossos inimigos recordando-lhes nossa relação mútua. Porque se nos foi dada a vida pelo mesmo Deus, que outra coisa somos senão irmãos? Como todos somos irmãos, Deus ensina-nos a nunca causarmos dano um ao outro, mas somente o bem, ajudando aqueles que estejam oprimidos e passando dificuldades e dando-lhes de comer ao faminto.

A fé absoluta dos primeiros cristãos nos ensinamentos de Jesus e dos apóstolos foi demonstrada, principalmente, nas perseguições. Ser cristão era ilegal no império romano, sobretudo porque os seguidores de Cristo negavam a divindade do imperador e não faziam os sacrifícios solicitados pela cultura do tempo. Os primeiros cristãos eram conscientes de que podiam ser enviados ao patíbulo sofrendo torturas atrozes, mas estavam convencidos de que Deus não os abandonaria.
Aqui temos uma passagem das Cartas de Inácio, um seguidor de João:

É necessário, portanto, não só ser chamado “cristão”, senão ser na realidade cristão… Se não estamos preparados para morrer da mesma maneira que Ele sofreu sua vida não está em nós (4).

E eis aqui outra passagem, escrita antes de ser levado ao patíbulo:

Que tragam o fogo e a cruz. Que venham as manadas de bestas selvagens Que se quebrem e desloquem meus ossos e se separem minhas extremidades. Que venha a mutilação de todo meu corpo. De fato, que venham todas as torturas diabólicas de Satanás. Só deixem-me alcançar a Jesus Cristo! Preferiria morrer por Jesus Cristo em vez de reinar sobre os confins da terra. (5).

Foi justamente a fortíssima fé que os primeiros cristãos tinham em Deus, testemunhada inclusive no sacrifício extremo (não é gratuito que “mártir” signifique testemunha em grego), que serviu de “volante de inércia” para novas conversões e para novos mártires. A fé em Jesus Cristo, apesar das perseguições, propagava-se de maneira evidente.
Dos escritos dos primeiros cristãos pode-se deduzir que realmente eles viviam “no mundo”, inclusive “não estando no mundo”. Não tinham hierarquias, mas cada congregação era independente uma das outras, de maneira que um ensinamento errado ou uma heresia não poderia espalhar-se por todas as igrejas.
Não adoravam a riqueza material, viviam em comunidades de fieis, compartilhando suas posses com os seguidores. Não buscavam o poder terreno, mas a salvação espiritual. Não aceitavam que existissem novas revelações ou novas crenças, senão que baseavam sua fé somente nos Evangelhos e nos outros escritos do Novo Testamento. Qualquer possível dogma adjunto era uma mudança de direção e, portanto, um erro.
No ano 303 d.C., teve lugar a última perseguição contra os cristãos, mandada por Diocleciano e Galério. Ordenou-se a destruição de igrejas e a queima das Sagradas Escrituras. Decretou-se o confisco dos bens dos cristãos e a prisão de muitos deles. 
Poucos anos depois, o império romano não tinha um único chefe supremo. Flávio Valério Severo governava a Itália e a África do Norte, enquanto Constantino governava Bretanha e Gália. Outros dois líderes militares governavam a parte oriental do império. Quando Severo foi derrotado por Majêncio, Constantino declarou-se “legítimo imperador” do Império Romano do Ocidente. Mas, faltava ainda vencer a Majêncio antes de poder entrar triunfalmente em Roma.
O historiador Eusébio (265-340) narra em “Vida de Constantino” (6):

Disse que a meia noite(…) viu com seus olhos o sinal de uma cruz de luz nos céus, sobreposta ao sol, com as palavras: com este sinal serás vencedor. (In hoc signo vinces).

A batalha foi ganha por Constantino, quem atribuiu ao “Deus dos cristãos”. Não sabemos se a causa deste fato Constantino converteu-se ao cristianismo. No entanto, fez de tudo para dar vantagem aos cristãos, favorecendo-lhes e, indiretamente, corrompendo-lhes (quem sabe sem querer). Vejamos por quê.
Com o Edito de Milão (313 d.C.), o imperador Constantino e Licínio (Augusto do Oriente) decretaram a liberdade de culto para qualquer religião de todo império.

Então nós, Constantino Augusto e Licínio Augusto, havendo-nos encontrado proficuamente em Milão e havendo discutido todos os argumentos relativos à pública utilidade e segurança, entre as disposições que víamos úteis a muitas pessoas ou entre as que considerávamos prioritárias, havíamos posto as relativas ao culto da divindade com o fim de que lhes seja consentido aos cristãos e a todos os outros a liberdade de seguir a religião que cada um professe, de maneira que a Divindade que esteja no céu, qualquer que seja, a nós e a todos nossos súditos nos dê paz e prosperidade.

Assim, Constantino decidiu que toda propriedade confiscada dos cristãos durante as perseguições de Diocleciano tinha que ser devolvida. Além disso, toda casa de oração que tinha sido queimada, devia ser reconstruída por conta do Estado.
O Edito de Milão não tinha transformado a religião cristã em religião do Estado, mas é inegável que, com o tempo, o imperador tinha adotado uma forte atitude positiva aos cristãos. Constantino ordenou a construção de novas e suntuosas igrejas para poder receber mais fieis.
Prontamente deu-se conta de que a maioria dos bispos cristãos estava vivendo na pobreza. Ofereceu-lhes, então salário e proteção e permitiu que as igrejas pudessem receber bens como herança. Concedeu à instituição uma espécie de tribunal episcopal (episcopalis audientia) aos quais os cristãos podiam recorrer para dirimir suas controvérsias. Além disso, eximiu de pagamento de impostos a todos os bispos e suas propriedades.
Incrivelmente, em poucos anos os cristãos passaram de ser uma minoria perseguida a ser os favoritos da corte. Que diferença a respeito de alguns anos antes!
Foi assim como, lentamente, o espírito conservador dos primeiros cristãos se encontrou fortemente ameaçado.
Durante o período dos primeiros cristãos, por exemplo, ninguém havia pensado em pagar salários aos bispos, mas quando Constantino o fez, eles aceitaram. Ninguém havia pensado que era justo estar isentos de impostos, mas quando Constantino os eximiu, eles aceitaram. Ninguém pensava que era justo viver em um palácio suntuoso, mas quando Fausta, a segunda mulher de Constantino, concedeu la Domus Faustae (na área do Palácio Laterano) a Milcíades, bispo de Roma, ele aceitou sem reservas.
Desta maneira, os cristãos começaram a pensar que a mudança não poderia ser sinônimo de um erro e poderia acarretar melhoras.
O que obteve o imperador com todos esses favores e privilégios?
No ano 314 d.C., quando houve uma polêmica entre donatistas e católicos, ele dirimiu-a e deu aos católicos a prioridade e o reconhecimento de ser a legítima corrente da cristandade.
Constantino já não era considerado uma “divindade” como os imperadores anteriores, mas como o bispo de Roma o reconhecia, obtinha o “direito divino”, o bem, “o direito de reinar outorgado por Deus”.
O cristianismo, por outro lado, estava corrompido, tinha se misturado com a política e com os negócios do mundo. Não estava formado por um conjunto de pessoas que praticavam o culto de maneira desapegada dos bens e das cargas materiais. Pela primeira vez na história, reconhecia-se aos cristãos com prestígio social, importância, honra. Quando o cristianismo começou a ser aceito e, além disso, aportava benefícios desde o ponto de vista social, milhares de pessoas converteram-se. E o Estado aprovava. Assim, os cristãos, vendo-se aceitos e logo privilegiados, na realidade se afastaram dos ensinamentos originais de Jesus Cristo e começaram, inclusive, a perseguir a quem criticava sua nova doutrina. Lentamente, de fato, se estava dando mais importância à teologia e à doutrina que à mudança radical e interior que tinha que gerar-se em um cristão para poder ter acesso ao Reino de Deus.
No ano de 325 d.C., deu-se uma forte disputa sobre a natureza do Filho de Deus e do Pai. Os dois principais demandantes desta polêmica foram Alexandre, bispo de Alexandria, e o presbítero Ário. Constantino, que era considerado como “bispo universal”, convocou um concílio em Nicéia com todos os bispos. Ário sustentava a ideia de que o Filho de Deus não tinha a mesma natureza de Deus Pai e que tinha que ser considerado, portanto, em um plano menor, entre os Anjos e o Pai justamente. Constantino, para dirimir a disputa, decidiu incluir o termo homoousion (da mesma substância) na doutrina (7), proclamando que o Pai e o Filho eram homoousion. Esta afirmação concorda plenamente com as crenças dos primeiros cristãos e se deduz de várias passagens dos Evangelhos (por exemplo: Prólogo do Evangelho de João, João, 10, 30 ou Mateus 28, 19).
No entanto, o que urge ressaltar aqui é que as disputas sobre a doutrina tinham assumido muito mais importância que a mudança interior predicada por Cristo e, além disso, as heresias deviam ser suprimidas com uma violência inaudita. Quem foi perseguido, refiro-me aos primeiros cristãos, converteram-se em perseguidores.
Ário foi enviado ao exílio em Ilíria, todos seus escritos foram queimados e sancionou-se que quem fosse descoberto seguindo seus ensinamentos, teria que ser indiciado. É verdade que Ário e seus seguidores eram heréticos, mas isso não justificava uma repressão tão brutal. Em que momento acabou o perdão cristão?
A igreja começou a estar organizada ao modo do império, no sentido que os bispos metropolitanos tinham autoridade sobre as igrejas de sua circunscrição. Foi assim como acabou a independência de toda congregação e havia risco, então, de que uma adição errada à doutrina pudesse difundir-se velozmente. Constantino, além disso, favoreceu um processo de sincretismo com algumas religiões pagãs, numa ótica de difusão e assimilação. Em Roma, alguns templos que haviam sido consagrados a Ísis foram readaptados e dedicados à Virgem Maria e em 336 d.C. decretou-se oficialmente a data de nascimento de Jesus para o dia 25 de dezembro, numa ótica de sincretismo com alguns cultos preexistentes.
Parecia que Constantino tinha conseguido cristalizar o ensinamento de Jesus no chamado Credo Niceno e que ninguém tinha podido colocar isso em discussão nunca mais. Mas não foi assim: nos anos sucessivos houve outros concílios onde se proclamaram outros dogmas rígidos e vinculantes que, no entanto, resultavam serem acréscimos aos Evangelhos e, portanto, fórmulas acessórias, não originais.
Alguns escritores, como o americano David Bercot, referem-se a esse período como ao híbrido constantiniano, durante o qual houve um distanciamento dos Evangelhos. Foi um retorno parcial ao Velho Testamento: por exemplo, enquanto Jesus havia predicado o desapego dos bens materiais, no Velho Testamento não havia proibição de acumular riquezas e assim foi durante o híbrido constantiniano.
Depois de 325 d.C., a Igreja, já hierarquizada, reconhecia o Estado e encontrava-se presa ao poder e à doutrina.
Os cristãos viveram assim por quase três séculos, em um regime que consistia em compartilhar, ter igualdade, fraternidade e perdoar. Por três séculos viveram “no mundo”, mas não eram “deste mundo”, no sentido que não adoravam a riqueza nem desejavam nada mundano e muito menos o poder.
Os cristãos do híbrido, por outro lado, desejaram corromper-se e, lentamente, afastaram-se dos verdadeiros ensinamentos de Jesus Cristo.

YURI LEVERATTO
Copyright 2015

Bibliografia: 
Novo Testamento, Sociedades Bíblicas Unidas.
Que falem os primeiros cristãos, David Bercot.
A vida de Constantino, Eusebio de Cesarea.

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