viernes, 28 de noviembre de 2014

Expedição na selva de Rondônia: a Fortaleza do Rio Madeira


Vários escritores espanhóis dos séculos XVI e XVII descreveram sobre a expansão dos Incas em direção à Amazônia, para um poderoso reino ou talvez uma confederação de tribos denominadas “Paititi”. 
Esta terra lendária, cuja etnia dominante estava atrelada com os Moxos, situava-se ao nordeste do Rio Guaporé, atualmente território brasileiro.
O primeiro texto que descreve as conquistas de Pachacútec na selva baixa amazônica é “Relacion de los Quipucamayos a Vaca de Castro” (1544), em que se menciona a construção de duas fortalezas nas planícies amazônicas com o objetivo de delimitar e controlar os povos que viviam além da fronteira. 
O bispo espanhol de La Paz, Nicolás de Armentia (1845-1909) descreveu sobre a edificação de duas fortalezas em seu livro “Descrição do território das missões franciscanas de Apolobamba”. Registro aqui uma passagem:

… (O Inca) acabou de se comunicar com o Grande Senhor do Pititi e por intermédio dos presentes, e a mando do Inga que fizesse junto ao Rio de Paititi duas fortalezas em seu nome e em sua homenagem dando conta que havia chegado nesse local sua gente...

Quando Pachacútec morreu, como os povos da selava se negavam a pagar tributo a Cusco, o novo inca Túpac Yupanqui decidiu organizar uma expedição militar para dominar os povos amazônicos, de modo a ter acesso a seus recursos (coca, ouro, etc). O escritor espanhol Sarmiento de Gamboa transmitiu esta segunda campanha militar em sua obra Historias de los Incas (1572). A seguir, um fragmento do seu livro:

E pelo caminho que agora se chama Camata, (Túpac Inca Yupanqui) enviou a outro grande capitão chamado Apo Curimache, quem foi até onde nasce o sol e caminhou até o Rio que agora se tem outra vez notícia, chamado Paititi, onde estão os Moxos do Inca Topa.

No libro de Sarmiento Gamboa se especifica que o general Otorongo Achachi foi o responsável por custodiar as duas fortalezas que tinham sido erguidas por Pachacútec. 
Existe, ademais, outros documentos antigos (Felipe de Alcaua e Francisco Sánches Gregorio mas Cronicas de Lizarazu de 1635) que narram sobre a presença permanente de alguns descendentes da família real inca no Río Guaporé.
Depois dos estudos de vários arqueólogos, entre os quais o finlandês Parsinnen, identificou-se a primeira fortaleza incaica na selva baixa amazônica. Se trata da fortaleza Las Piedras, localizada perto das margens do Rio Beni, próximo à confluência deste rio com o Rio Madre de Dios, em território boliviano. No seu interior foram encontrados muitos restos de cerâmica de notória procedência inca. 
Realizado o descobrimento das “Las Piedras” permanecia então uma dúvida: onde estava a segunda fortaleza inca que é mencionada nas crônicas antigas? 
Em minha recente viagem ao Estado de Rondônia pude realizar duas expedições nas quais aprofundei sobre a possibilidade de que estas velhas crônicas estejam de acordo com a realidade arqueológica. 
Junto com alguns investigadores brasileiros avancei com a investigação da cidade perdida de Laberinto, lugar enigmático que pude ter sido utilizado por alguns descendentes da família real incaica com finalidade de realizar as cerimonias. 
Depois soube sobre a possibilidade de encontrar certas raras ruinas na selva situada na vertente norte do Rio Madeira, ainda no Estado de Rondônia. Portanto, decidi organizar a segundo expedição em terras brasileiras. 
Primeiro viajei a Abuná, um pequeno vilarejo localizado nas margens do Rio Madeira, onde tive contato com vários idosos que me confirmaram sobre a presença de ruinas pouco identificadas em um lugar localizado, aproximadamente, um dia de caminhada a beiras oposta do Rio. 
De imediato conheci um guia local, Francisco Chogo dos Santos, quem aceitou acompanhar-me junto com o ajudante Saviano Bebizao. 
Na manha seguinte chegamos às margens do Rio Madeira e, com a colaboração de um barqueiro, navegamos até um ponto situado além do rio, a mais ou menos uma hora de navegação de Abuná. Daquele ponto começamos a caminhar em direção nordeste, na selva adjacente al Rio Madeira. 
É uma zona de selva densa e inundada; com efeito, em muitos trechos a água alcançava até os joelhos. Depois de aproximadamente uma hora de caminhada, avançado a golpe de machados, nos encontramos em frente a um rio bastante fundo chamado Simauzinho. Sua travessia foi muito complicada não apenas pela profundidade, que alcançava um metro e sessenta centímetros, como também porque a agua era torva e o fundo lamacento. 
Eu o atravessei com a água a uma altura do peito, sustentando a minha mochila no ar, de modo a não molha-la, temendo um ataque de serpentes, jacarés e arraias de rios, numerosíssimas naquela região. 
Continuamos caminhando durante toda a jornada até que chegamos a um lugar onde havia vários gigantescos penhascos em pleno coração da selva. 
A impossibilidade de lograr nosso objetivo do dia nos convenceu sobre a necessidade de preparar um campo base para nos arredores daquelas falésias, principalmente, porque na região havia um arroio onde corria água fresca e pura.
Enquanto meus guias acendiam o fogo para cozinhar, procedi com a exploração da área, precavendo-me de estar caminhando nas chamadas terra preta amazônica, um solo rico em restos antrópicos tais como ossos triturados de animais de curral e pedaços de cerâmica utilitária, sinais de antiga presença humana ali.
Na manha seguinte prosseguimos avançando em direção a nossa meta: uma alta colina de origem vulcânica de uns 15 km do Rio Madeira. 
Em duas horas de caminhada chegamos às fraldas da alta colina rochosa. Dei-me conta de imediato de que me encontrava em um lugar particular, onde antigos povos viveram no passado, aproveitando a disposição elevadas da selva baixa amazônica. 
No cume das colinas pedregosas avistamos uma alta muralha de até um metro de espessura e, em alguns pontos, de até dois metros de altura. 
Depois de ter entrado na antiga construção pude me dar conta de seu tamanha e extensão. Trata-se de uma muralha defensiva que cerca toda a colina rochosa. Seu diâmetro é de aproximadamente 200 metros, enquanto sua longitude total, ou bem sua circunferência, chega a 600 metros. 
Do interior da obra se pode observar a selva baixa amazônica de uma posição elevada e privilegiada. Ademais, se pode marcar, uma parte afastada do Rio Madeira, localizado uns 12 km em linha reta.
Esta edificação, que denominei Fortaleza del Rio Madeira (alguns habitantes de Abuná a conhecem como Serra da Muralha, reconhecendo assim a colina, no seu lugar arqueológico), é, em minha opinião, pré-colombiana, por várias razões. 
Antes de tudo, válido especificar que os portugueses chegaram a estabelecerem-se no atual território do Rio Madeira, apenas por volta de 1750. Em 1776 iniciaram a construção da Fuente Príncipe da Beira, nas margens do Rio Guaporé. Se a fortaleza do Madeira tivesse sido construída pelos portugueses, o ato de fundação tinha sido registrado em alguma crônica do século XVIII, mas não existe nenhum sinal de tal documento. 
De outra parte, descarto que tenha sido edificada por espanhóis, já que encontraríamos o ato de fundação em algum informe do império espanhol. 
Além do mais, o tipo de construção não é europeu e os portugueses não tinham necessidade de cimentar uma fortaleza defensiva tão distante do Rio Madeira. 
Resta, portanto, a hipótese de que a fortaleza tenha sido construída por povos indígenas amazônicos. Nossa experiência, contudo, sinaliza que eles não costumavam edificar em pedras, salvo raras ocasiões. 
Portanto, a suspeita de que a Fortaleza do Madeira seja uma construção inca se reforça, também considerando as crônicas antigas que citei ao início do artigo. 
Se estudos arqueológicos vindouros comprovarem minha teoria, chegaríamos a conclusão de termos encontrado a segunda fortaleza construída por Pachacútec, uma prova de que a terra lendária do Paititi se localiza no atual território de Rondônia.
Em adição, a fortaleza do Madeira se estende em direção ao acidente a zona de influencia inca, que até hoje acreditava-se que chegava só até a fortaleza de Las Piedras, na atual cidade de Riberalta, em Bolívia. 
Depois de ter explorado a área, retornamos ao campo base. No dia seguinte caminhamos até o Rio Madeira, onde na primeira tarde nos encontramos com nosso barqueiro, quem estava nos esperando para nos levar de volta a Abuná.

YURI LEVERATTO 
Copyright 2012

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