martes, 18 de agosto de 2015

A importância estratégica de Roraima


Roraima é o estado mais setentrional do Brasil. Tem uma extensão de 224.000 quilômetros quadrados e uma população de pouco mais de 400.000 pessoas. É uma densidade baixíssima, menos de 2 habitantes por quilômetro quadrado. Praticamente está quase desabitado, excetuando a capital Boa Vista, onde se encontra 75 % da totalidade da população.
Roraima é riquíssimo em ouro e muitos outros minerais; considera-se que suas selvas estão entre as mais biodiversas do mundo, e é ademais uma das zonas do planeta onde se encontra em abundância (bilhões de toneladas) a substância mais valiosa de todas para o homem: a água.
Desde o tempo dos conquistadores espanhóis, Roraima atraiu dezenas de aventureiros que tinham por objetivo apropriar-se das enormes riquezas auríferas, mas as dificuldades oreográficas, ambientais e logísticas para conquistar e explorar esta porção da Amazônia foram tão grandes que quase todas as expedições organizadas fracassaram.
Os primeiros rumores sobre uma zona riquíssima em ouro e pedras preciosas, situada mais além das altas montanhas, chegaram ao governador da Ilha Margarita, na Venezuela, ao redor de 1570.
Os indígenas falavam de um grande lago chamado Manoa (em língua Arawak) ou Parime (em idioma Caribe). Ambas as palavras significavam grande lago, mas alguns investigadores sustentam que Manoa poderia significar porto de Noé, água de Noé ou simplesmente dilúvio.
Os autóctones contavam aos conquistadores que na zona do grande lago havia uma civilização desenvolvida que utilizava muito o ouro.
Os espanhóis pensaram de imediato no famoso mito do El Dorado, lenda que se originou na atual Colômbia, no lago de Guatavita.
O primeiro explorador que se adentrou na selva venezuelana em busca de Manoa foi o espanhol Antonio de Berrío em 1584. Explorou vários afluentes do Orinoco e do Caroní, mas não logrou atravessar as montanhas chamadas Pacaraima, mais além das quais se encontrava o lago, segundo os indígenas. Fez inclusive uma segunda expedição em 1591, mas não teve êxito.
O segundo aventureiro que se adentrou na selva do Caroní foi o inglês Walter Raleigh, mas também ele falhou no intento. No entanto, os dados que ele proporcionou serviram ao inglês Thomas Harriot para elaborar seu famoso mapa de 1599, no qual se ilustra o lago.
Alguns subalternos de Berrío e Raleigh, como Domingo de Vera e Pedro Maraver em 1593, e Laurence Keymis em 1596, chegaram de todo modo até o lugar onde hoje está situada a fronteira Venezuela-Brasil e ficaram atônitos ao ver que os indígenas utilizavam grandes quantidades de ouro para se adornarem, mas não puderam continuar por falta de homens e de meios.
A última expedição que se acercou à zona do suposto lago de Manoa foi a do inglês Thomas Roe, em 1611. O inglês decidiu que como era tão extremadamente difícil atravessar as montanhas de Pacaraima partindo da Venezuela, seria melhor percorrer o curso do Rio Amazonas transpondo os rios, nesse então totalmente inexplorados, que o conduziriam a Manoa. Narra-se que o aventureiro transpôs o Rio Negro e também uma parte do Rio Branco, mas teve que desistir depois, já que seus víveres haviam acabado e estava entrando em uma zona de autóctones perigosos.
Desta maneira, Roraima permaneceu inatingível por outro século mais: ninguém havia logrado descobrir seus segredos e explorar as margens do mítico lago de Manoa ou Parime. Sua existência mesma estava totalmente envolta no mistério e na lenda. Os mapas dos cartógrafos europeus dos séculos sucessivos seguiram mostrando o lago, mas ninguém havia comprovado em campo a verdadeira existência deste nem a de Manoa, a suposta civilização desenvolvida situada nas margens.
Foram depois os portugueses que, havendo colonizado grande parte da bacia amazônica, lograram adentrar no norte do Rio Branco (afluente do Rio Negro).
Com efeito, a partir de 1669, com a fundação do Forte de São José da Barra do Rio Negro (denominado depois Manaus), os portugueses começaram a colonizar a zona da confluência do Rio Negro com o Rio Amazonas. Alguns se dirigiram mais ao norte, no profundo da selva, tentando transpor os rios, como efetivamente fez Thomas Roe em 1611.
Os primeiros exploradores que atravessaram a cachoeira do Bem Querer, situada no curso médio do Rio Branco, foram Cristóvão Aires Botelho e Lourenço Belfort, em 1706. Depois, a partir de 1710, o aventureiro Francisco Ferreira junto a Lourenço Belfort e o padre carmelita Fray Jerônimo Coelho, exploraram o alto Rio Branco na tentativa de capturar indígenas para enviá-los depois como escravos a Belém do Pará.
Nenhum deles, no entanto, encontrou o grande lago de Manoa, com o qual haviam fantasiado os espanhóis durante séculos. Nenhuma pista do lago e tampouco da cidade de pedra que, segundo as lendas, haveria escondido antiquíssimos conhecimentos, ademais de imensos tesouros.
A partir de 1741, tanto os holandeses como os espanhóis começaram a fazer ousadas incursões no atual Roraima. O holandês Nicolau Horstman, entrando pelo atual Suriname, tratou de aprisionar indígenas para vendê-los depois como escravos. Por sua vez, os espanhóis, que não haviam abandonado nunca a ideia de encontrar o El Dorado, lograram, em 1771, entrar desde a Venezuela na bacia do alto Uraricoera (rio do velho veneno, braço inicial do Rio Branco). Fundaram posteriormente várias fortalezas como Santa Rosa, San Juan Batista de Cada Cada e Santa Bárbara, e concentraram seus esforços em buscar Manoa na bacia do Rio Rupununi.
Os portugueses não aceitaram presenças externas no que consideravam território sujeito a seu domínio e se enfrentaram duramente com os espanhóis.
Sucessivamente, em 1775, os lusitanos fundaram o Forte de São Joaquim, na confluência do Rio Tacutú com o Uraricoera. A meta era supervisar o vale, impedindo, desta maneira, incursões externas.
Mas já a lenda de Manoa havia se difundido pela Europa e também no século XIX outros aventureiros se deram a tarefa de tentar encontrar a mítica cidade de ouro.
Durante o fim do século XIX, o aventureiro brasileiro Major Dionísio Evangelista Cerqueira escreveu ao regressar de uma ousada expedição no alto Uraricoera:

O alto Uraricoera é tão remoto, misterioso e dominado por hordas de Maracanás, Crixanás e outras tribos da serra Parime, que permanecerá inacessível ao homem branco e envolto em mistério por muitos séculos mais.
Qualquer aventureiro que se arrisque a explorar estas inóspitas selvas impenetráveis pagará com a vida ou regressará sem haver logrado o objetivo de sua expedição.

Em 1835, o alemão Robert Schomburg, que viajava a serviço da coroa britânica, explorou o Rupununi, transpôs o Uraricoera até suas fontes e entrou na Venezuela. Depois regressou ao Brasil descendo pelo canal natural Casiquiare e entrando no Rio Negro. Teve contato com indígenas Macuxí, Wapixaná, Sapará, Wayumara e Yanomami.
O objetivo de Schomburg era preciso: devia inspecionar o terreno com o fim de captar quais eram as zonas mineiras e que tipo de minerais podiam se extrair.
No século XIX, algumas potências europeias e em particular a coroa britânica, haviam compreendido bem que Roraima era riquíssimo em ouro e em outros minerais estratégicos. Alguns missioneiros protestantes, entre os quais estava Thomas Yound, foram enviados à zona de Pirara, pertencente oficialmente ao Brasil. Schomburg havia feito mapas da zona e havia declarado que essa estava regida por tribos independentes, já que não havia sido colonizada pelo Brasil.
Assinalou uma nova fronteira que anexaria ao território da Guiana Inglesa uns 16.900 quilômetros quadrados (incluída a bacia do Rupununi).
Foi um caso diplomático cheio de controvérsia que durou muitos anos, até que a disputa do Pirara foi resolvida com uma arbitragem internacional cujo juiz foi o rei da Itália Victorio Emanuel III. A decisão, que favoreceu a coroa britânica, foi tomada em 1904. O Brasil não pôde fazer outra coisa que aceitar a perda de seu território, provavelmente também porque foi pressionado com o fracasso de acordos comerciais para a exportação de outras matérias-primas.
Os anglo-saxões continuaram se interessando por Roraima também no século XX, por exemplo, com a expedição do estadunidense Hamilton Rice, a primeira que utilizou meios modernos como o hidroavião (um Curtis Sea Gull) e o rádio.
A partir de 1980, Roraima foi invadido por milhares de garimpeiros (buscadores de ouro). A produção de ouro cresceu exponencialmente dos 161 kg. de 1985 a mais de 5 toneladas dos primeiros anos dos 90. No entanto, em Roraima não há somente ouro, senão que também há urânio, tório, cobalto molibdênio, diamantes, titânio e nióbio, sendo este último importante para as produções eletrônicas. A produção de diamantes cresceu de 7.000 a 100.000 quilates no período compreendido entre 1985 a 1991.
Não obstante, a presença dos garimpeiros nos vales ao oeste de Roraima trouxe muitos problemas na zona, tanto ambientais como sociais. Os garimpeiros são muito violentos e foi a população indígena (sobretudo os Yanomami) a que pagou caro, já que foi objeto de massacres e abusos, ademais de que lhes tiraram seu território vital. Assim mesmo, os garimpeiros contaminaram por anos os rios da região com mercúrio, usando técnicas arcaicas para sacar ouro do material obtido da escavação.
Também depois desses tristes fatos, o governo federal do Brasil criou áreas indígenas com o fim de preservar a cultura e o território dos autóctones. Hoje, em Roraima há 23 áreas indígenas com um total de 127.000 quilômetros quadrados. Por exemplo, a área indígena Yanomami, onde vivem só 15.000 nativos, tem uma extensão maior que a de Portugal (94.000 quilômetros quadrados).
Ultimamente, a demarcação da área indígena Raposa Serra do Sol (de 17.474 quilômetros quadrados) causou muitas polêmicas, posto que muitos brasileiros tiveram que abandonar suas propriedades, que foram confiscadas quando suas terras foram declaradas indígenas. Entretanto, o fato de que os nativos sejam pouquíssimos e que a maioria deles haja perdido, desde há muito tempo, sua cultura e sua língua original, não faz mais que causar perplexidade.
Alguns pesquisadores brasileiros pensam que há um projeto claro detrás das demarcações de imensas áreas indígenas. Segundo essas opiniões independentes, a causa indigenista e ambientalista seria um mero pretexto para controlar enormes zonas estratégicas que estão fechadas a qualquer jornalista ou simples curioso, para poder levar a cabo depois prospecções mineiras e biodiversas e controlar uma das regiões mais importantes do mundo desde o ponto de vista hídrico.
Vários brasileiros creem que, de fato, está sucedendo mais ou menos o que sucedeu no século XIX quando a coroa britânica e o Brasil disputaram a área do Pirara. Segundo esses últimos, nas áreas indígenas operariam várias ONGs estrangeiras que levariam a cabo estudos sobre a biodiversidade e sobre os recursos minerais a serviço de estados estrangeiros.
Ainda que certamente o positivo das grandes demarcações de terra indígena é a impossibilidade (ao menos oficial), de desflorestar, fica a dúvida de se os enormes recursos destas terras serão explorados para a vantagem de poucos ou se se porão à disposição de todos.
Durante os cinco séculos transcorridos desde a entrada oficial dos europeus na América, Roraima foi sempre um território pouco explorado e desconhecido. De Manoa se perderam os rastros, mas ultimamente o explorador chileno Roland Stevenson parece haver encontrado as antigas pistas do lago de Manoa, que agora está seco. Depois de fazer o estudo do território, com ajuda de alguns geólogos, Stevenson pôde verificar que em todas as colinas e montanhas que circundam a savana de Boa Vista, pode-se encontrar um sinal recorrente, situado a aproximadamente 120 metros sobre o nível do mar. É o sinal que indica o nível do antigo lago.
Os geólogos pertencentes à equipe de Stevenson, Federico e Salomão Cruz e Gert Woeltye deduziram, depois do estudo do solo e dos pólens das flores, que a savana era antigamente um enorme lago que tinha um diâmetro de 400 quilômetros e uma extensão aproximada de 80.000 quilômetros quadrados. Segundo esses pesquisadores, haveria começado a se secar ao redor do século XVI da era de Cristo.
Se o lago existia realmente nessa época, deve se considerar quiçá como verdadeiros os relatos dos autóctones que descreveram a cidade nas cercanias do espelho d´água?
Provavelmente, mais que uma cidade, Manoa era uma confederação de tribos, mas a última palavra sobre esta fascinante história ainda não foi pronunciada.

YURI LEVERATTO
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