martes, 17 de noviembre de 2015

Cristo não é Hórus e o Cristianismo antigo é uma religião original


Há muitos anos está em curso um processo organizado que tem o fim de globalizar o planeta tanto de um ponto de vista cultural como econômico.
Quem persegue o objetivo de homogeneizar as culturas e as religiões tem interesse em uniformizar as diferentes crenças para torná-las similares, sincretizando-as. Frequentemente, se escuta dizer que “todas as religiões são iguais”, porque todas praticam o amor e a paz. Porém, é realmente assim?
Segundo esse projeto, financiado e favorecido, sobretudo, por correntes maçônicas, a religião cristã seria comparável a cultos solares preexistentes e, portanto, os Evangelhos não seriam originais, senão que se trataria de relatos alegóricos sem fundamento histórico. Neste artigo, proponho-me a demostrar que estas teses estão erradas e que o Cristianismo antigo é uma religião original.
Primeiramente é de fundamental importância distinguir entre o Cristianismo antigo e o Cristianismo pós-constantiniano.
Se houve uma solarização, ocorreu, então, no século IV, para sincretizar e obter a aceitação das massas, mas sem tem a ver com o Novo Testamento.
Vejamos por que: na mitologia egípcia, Osíris e Ísis casam-se. Osíris é morto por Seth (seu irmão malvado), que lhe despedaça o corpo. Ísis ressuscita Osíris e de sua união nasce Hórus, o Deus do Sol.
Frequentemente, quem sustenta a teoria do “mito de Jesus”, compara Ísis com Maria e Jesus com Hórus. Porém, em João 1, 1-5, está escrito que Jesus é o Verbo, criador do universo e, portanto, também do sol; enquanto Hórus é conhecido como Deus-Sol.
Há também em alguns escritos uma suposta relação de Osíris com Jesus, mas Jesus não foi esquartejado; segundo João, de fato, não se rompeu nenhum osso (João 19, 36) e não foi Maria (Ísis) quem o ressuscitou, senão que ele mesmo ressuscitou porque venceu a morte, sendo Deus (Lucas 24, 6).
Segundo alguns autores, como Acharia S., no Evangelho de Lucas haveria uma “solarização”. De modo evidentemente forçado, associa-se a João Batista com Seth (mito lunar) e Jesus com Hórus (mito solar). Vejamos a passagem do Evangelho de Lucas (1, 26-31) utilizado por esses escritores para seu raciocínio:
Aos seis meses, Deus mandou o anjo Gabriel a um povo da Galileia chamado Nazaré, para visitar uma mulher virgem chamada Maria, que estava comprometida para casar-se com um homem chamado José, descendente do Rei Davi. O anjo entrou no lugar onde ela estava e disse: - Saúdo a ti, favorecida de Deus! O Senhor está contigo. Maria surpreendeu-se dessas palavras e perguntava-se que significaria aquele saúdo. O anjo disse-lhe: - Maria, não tenhas medo, pois tu gozas do favor de Deus. Agora, ficarás grávida: terás um filho, e lhe porás o nome Jesus.
Dessa passagem e da passagem precedente deduzimos que Jesus foi concebido (pelo Espírito Santo) seis meses depois de João Batista.
Além disso, tais autores sustentam que João Batista (pôr-do-sol) nasceu no solstício de verão, seis meses antes do nascimento de Jesus, que é em 25 de dezembro, ou seja, o solstício de inverno. Fazendo um raciocínio errado, afirmam que tanto João Batista como Jesus são alegorias de Seth e Hórus respectivamente e que, portanto, não existiram na realidade, pois são somente avatares.
Pareceria um axioma perfeito, mas possui um profundo erro.
No Evangelho de Lucas não está escrito que Jesus nasceu em 25 de dezembro. E nem sequer nos outros escritos do Novo Testamento. De solarização, então, não há rastro nos Evangelhos.
A data de 25 de dezembro como oficial do nascimento de Jesus foi introduzida no ano 336 d.C., quando Constantino efetivou sua solarização, como se sabe, para atrair e reunir as massas.
Assim, demostra-se que a teoria de “João Batista/Seth/pôr-do-sol” e “Jesus/Hórus/sol nascente” existe somente na cabeça de tais escritores, enquanto que os Evangelhos refletem uma religião original que é justamente o Cristianismo antigo.
Em geral, esses supostos expertos históricos como Acharia S. baseiam suas teses sobre Hórus (o Deus do Sol) no “Livro dos Mortos”, um texto funerário egípcio escrito a partir de 1550 a.C. Na realidade, entretanto, no texto há pouca informação sobre Hórus. A maioria das fontes sobre Hórus é popular, procede, dessa forma, de provérbios não escritos que surgiram no transcurso de ao menos três milênios (de 3100 a.C. a 100 a.C.).
Segundo a tese dos que sustentam a teoria de Jesus-Hórus, Ísis era virgem como Maria e, portanto, a história dos Evangelhos seria uma cópia de um mito precedente.
Porém, o mito de Hórus conta que Osíris, o marido de Ísis, foi morto e esquartejado por Seth. Ísis encontrou todos os pedaços do corpo desmembrado de Osíris exceto o pênis, que foi jogado no rio Nilo. Com seus poderes, Ísis devolveu a Osíris a vida e recriou seu falo (de ouro ou madeira, simbolismo fálico), com o fim de conseguir engravidá-la e conceber a Hórus. Portanto, Ísis não era virgem e não é, dessa forma, igual a Maria.
O fato de que logo, em Roma, no século IV, alguns templos em honra a Ísis foram readaptados e dedicados à virgem, entra, portanto, na solarização e no processo de sincretismo operado por Constantino, mas não tem nada a ver com o Cristianismo antigo.
A terceira tese de quem apoia a teoria Jesus-Hórus é que Jesus foi batizado por João Batista exatamente como Hórus, que foi batizado por Anup, logo depois decapitado. Então, uma vez mais, os Evangelhos seriam cópias de mitos pré-existentes. Porém, na antiga mitologia egípcia, não existe nenhum Anup.
Esta história provém de falsificações banais de Gerald Massey, um autor do século XIX que não tem nenhum crédito entre os especialistas sérios de egiptologia. Essas teses foram logo retomadas por Acharia S. em seu livro “Cristo no Egito, a conexão Hórus-Jesus”. Nesse livro, Acharia S. faz um paralelo entre o deus egípcio Anúbis y “Anup o Batizador”. É possível que em algumas esculturas e pinturas egípcias tenha representação de rituais de lavagem, mas nem no Livro dos Mortos, nem nas esculturas, baixos-relevos ou pinturas, está Hórus batizado por Anúbis. Também a terceira tese, portanto, cai e a figura de João que batiza a Jesus no rio Jordão é um feito original que não provém de nenhum mito pré-existente.
A quarta tese dos defensores da teoria Jesus-Hórus é que Jesus foi tentado no deserto por Satanás, exatamente como Seth (deus do deserto) tentou matar Hórus.
Primeiro que tudo, Seth, na mitologia egípcia, não é certamente comparável a Satanás. “Tentar matar” ou “incitar a batalha” com Hórus não é a mesma cosa que “tentar”, como fez Satanás com Jesus nos Evangelhos.
A relação entre Hórus e Seth não é nunca igual à de Jesus e Satanás. Hórus e Seth estavam frequentemente em desacordo entre eles; sua sucessiva reconciliação permitiu ao faraó governar Egito. Jesus e Satanás, ao contrário, não se reconciliaram nunca.
A quinta tese dos defensores da teoria de Jesus-Hórus é que Osíris (cujo nome egípcio é Wsjr, cuja pronunciação é Ausar, Usir ou Asar), foi ressuscitado, exatamente como foi ressuscitado Lázaro por Jesus. Entretanto, não foi Hórus quem ressuscitou Osíris, foi Ísis, sua mulher.
Além disso, o nome Lázaro deriva do hebreu “Eleazar” que significa “Deus tem ajudado” e não tem nada a ver com o nome egípcio Wsjr, o qual os mais acreditados egiptólogos atribuem o significado de “o potente”.
A sexta tese dos divulgadores da teoria Jesus-Hórus é que Hórus tinha doze apóstolos, exatamente como Jesus.
Esta lenda provém, também, de Gerald Massey, quem diz que foram doze os apóstolos de Hórus. Na realidade, em algumas crenças populares fala-se dos quatro filhos de Hórus, semideuses, mas nunca de doze seguidores.
A sétima tese dos simpatizantes da teoria Jesus-Hórus é que Hórus foi crucificado antes de Jesus, então, a crucificação de Jesus seria um mito construído sobre um mito precedente.
Na realidade, Hórus é representado, às vezes, com os braços abertos, mas não “crucificado em uma cruz”. Não há nenhuma só fonte histórica que descreva um personagem real chamado Hórus que fosse crucificado e, além disso, não há nenhuma fonte histórica que comprove que no antigo Egito aconteceu uma crucificação. Pelo contrário, para a crucificação de Jesus as fontes históricas são várias, como descrevi em meu artigo “O Jesus histórico”.
A oitava tese dos defensores da teoria Jesus-Hórus é que Hórus ressuscitou depois de três dias, exatamente como Jesus.
Essa lenda provém do estudo aproximativo da Estrela de Metternich, conservada no Metropolitan Museum of Art de Nueva York. Esta Estrela não evoca de maneira alguma a morte sacrificial de Jesus. Hórus morreu menino, picado por um escorpião enviado por Seth, e logo foi ressuscitado pelo deus Thot; porém, nas crenças populares, não há rastro do renascimento no “terceiro dia”.
Além disso, Hórus não morre levando consigo os “pecados do mundo”, não morre para redimir a humanidade que, com o pecado original, havia excluído a si mesmo da salvação. Hórus não é o “Salvador do mundo”, senão que é, segundo as lendas, o Deus do Céu, do Sol e da Guerra.
A lista de falsos paralelos poderia continuar, mas nenhum deles está baseado em fontes históricas certas, pois a maioria das vezes as “fontes” são os livros de Gerald Massey (século XIX) ou de seus seguidores contemporâneos, como Acharia S.
Uma última teoria sustenta que, sendo a cruz um símbolo antiquíssimo, que se remontaria à civilização egípcia (ankh, chave da vida ou cruz ansata), a religião cristã seria, portanto, uma cópia de religiões antigas.
Também nesse ponto temos que lembrar que no Cristianismo antigo o símbolo mais utilizado era o peixe (Ἰχθύς, ichthýs) e não a cruz, cujo uso difundiu-se somente a partir do ano 313 d.C. com Constantino (in hoc signo vinces).
Os defensores da teoria de que o Cristianismo antigo é uma religião solar proveniente de cultos pré-existentes associam a Jesus também com outras figuras religiosas do passado como Mitra ou Krishna, mas também essas são simplificações banais que não tem fundamento histórico. Uma vez mais confundem (de boa fé?) o Cristianismo antigo com o Cristianismo pós-constantiniano.
De tudo que vimos, deduzimos que Jesus não é de nenhuma maneira Hórus e que os Evangelhos e os outros livros do Novo Testamento são originais e não estão baseados em cultos pré-existentes.
Segue-se com a ideia de que o Cristianismo antigo é uma religião absolutamente original.

YURI LEVERATTO
Copyright 2015

Bibliografía:
-Antiguo Testamento, Sociedad Bíblicas Unidas
-Nuevo Testamento, Sociedad Bíblicas Unidas
-Libro de los Muertos
-Acharya S. The Christ Conspiracy, the Greatest Story Ever Sold
-Acharia S Christ in Egypt: The Horus-Jesus Connection
-Unmasking the Pagan Christ por Stanley E. Porter y Stephen J. Bedard
-Hopfe, Lewis M.; Richardson, Henry Neil (9-1994). «Archaeological Indications on the Origins of Roman Mithraism». En Lewis M. Hopfe. Uncovering ancient stones: essays in memory of H. Neil Richardson. Eisenbrauns. pp. 147
-Gerald Massey, The natural genesis

lunes, 16 de noviembre de 2015

O Jesus histórico




Hoje em dia proliferam sites e vídeos na web e alguns escritos de duvidoso valor histórico que pretendem, descaradamente e com inusitada presunção, reescrever a historia de Jesus, personagem fundamental da civilização ocidental que, além disso, marcou a história da humanidade mais que qualquer outro, dando origem, inclusive a uma nova era.
Em alguns escritos propaga-se, inclusive, a teoria da inexistência histórica de Jesus (a chamada teoria do “mito de Jesus”); em outros, que o Jesus descrito pelos Evangelhos não existiu, senão que, por outro lado, existiu um “Jesus exaltado” ou um “Jesus zelote”, que teria por objetivo a independência do povo hebreu do jugo dos romanos.
É estranho que os autores desses escritos, ignorando o debate histórico sustentado ao longo de quase dois mil anos por muitos filósofos, pretendam apropriar-se de sua história, a maioria das vezes sem basear-se em estudos sérios, como se fosse uma nova verdade, obviamente irrefutável.
Aparte disso, não está claro por que estes supostos “expertos historiadores” se interessam em Jesus; se não existiu nunca, ou era somente um exaltado ou zelote, por que dedicam tanto tempo tentando desacreditar sua figura?
Os autores desses escritos não compreenderam, de fato, a mensagem de Jesus: uma ideia revolucionária, certamente não em sentido “militar” do termo, mas em um sentido interior e espiritual; uma mensagem que indica uma mudança de paradigma, uma ideia de paz, de respeito pelos demais e de amor, inclusive por quem se declara seu inimigo.
Segundo as extravagantes teorias dos detratores de Jesus, nunca confirmadas por fontes históricas, mas impulsionadas por um profundo ódio anticlerical (confundindo, por outro lado, com o anticlericalismo uma mensagem original de Cristo), os escritores dos evangelhos e os apóstolos divulgaram um Jesus que nunca existiu com fim de criar uma religião nova, absorvendo cultos preexistentes (ver Hórus, explicado mais adiante neste artigo), que minavam as bases do império romano.
Aos defensores desse extraordinário complô, recordo que os apóstolos morreram todos em cadafalsos (com exceção de João), por não renegar a Divindade de Jesus Cristo, na qual acreditavam firmemente. Os primeiros cristãos, por exemplo, Estevão, Paulo, Barnabé, Policarpo, Justino, Orígenes, Cipriano etc., morreram também em um cadafalso, culpados de não ter renegado a Divindade de Jesus Cristo.
Se o objetivo era um sinistro e torcido complô antirromano, não faz sentido matar depois de atrozes torturas (como as infligidas a Bartolomeu, por exemplo, que foi esfolado vivo), senão que nega, salva sua vida leva adiante suas ideias de outra maneira. Mas aqui, normalmente, os detratores de Jesus e de sua mensagem de amor inclusive chegam a manter que o martírio mesmo era utilizado pelos primeiros cristãos como uma forma de luta contra o império romano, de maneira que não compreendem seu verdadeiro significado.
Mas vamos começar em ordem: quais são as fontes históricas da vida de Jesus?
Primeiro que tudo, as cartas de Paulo, datadas pelos principais historiadores bíblicos entre 50 e 55 d.C., ou seja somente 20 ou 25 anos depois da morte de Jesus (1).
Logo, os evangelhos canônicos: o Evangelho de Marcos, o mais antigo dos quatro, foi escrito, segundo especialistas como Gerd Theissen, não mais do que 70 d.C. (2). Outros fazem remontar o Evangelho de Marcos inclusive a 64 d.C., data da morte de Pedro em Roma (3). Segundo o estudioso O’Callaghan, um dos fragmentos dos Manuscritos do Mar Morto seria parte do Evangelho de Marcos e remontaria inclusive a 50 d.C. (4). Para o Evangelho de Mateus e o Evangelho de Lucas, os historiadores mais reconhecidos indicam uma data ao redor de 70 d.C. (5). Para o Evangelho de João, por fim, os historiadores indicam uma data entre 90 e 100 d.C. (6)
Há outras cartas católicas, por exemplo, as de Pedro, que datam ao redor de 64 d.C., e as de João, cuja data está entre  90 e 100 d.C. (8).
Por outro lado, está o Evangelho de Tomás, texto apócrifo, mas considerado por alguns estudiosos como um texto de referência que poderia, inclusive, ser usado como fonte para os mesmos evangelhos canônicos (9). O debate dos historiadores sobre a datação do Evangelho de Tomás está aberto: segundo alguns especialistas, remontaria ao primeiro século (10), enquanto que segundo outros, teria sido escrito por volta de 140 d.C. (11)
No total, há dezenas de Evangelhos apócrifos e gnósticos escritos a partir do segundo século d.C. Ainda que a maioria deles possam ser utilizados como provas indiretas da existência histórica de Jesus, são considerados textos tardios e não fontes primárias. Estão, de outra parte, as fontes não cristãs sobre a existência histórica de Jesus.
Também aqui alguns detratores da figura histórica de Jesus afirmam que aparte de Tito Flávio Josefo, escritor romano de origem hebreia (37-100 d.C.), não há fontes fidedignas.
Uma primeira e importantíssima fonte não cristã é a de Cornélio Tácito, que escreve assim em seus anais (XV, 44):

“E assim Nero, para divertir esta voz e descarregar-se, deu por culpados dele, e começou a castigar com estranhos gêneros de tormentos a uns homens aborrecidos do vulgo por seus excessos, chamados comumente cristãos. O autor deste nome foi Cristo, o qual, imperando Tibério, havia sido condenado por ordem de Pôncio Pilatos”.

Tácito, portanto, confirma o que está escrito nos Evangelhos: Jesus Cristo viveu baixo o império de Tibério (que governou de 14 a 37 d.C.) e lhe foi imposto a condena máxima (crucificação) por Pôncio Pilatos.
Também Suetônio (que viveu de 70 a 126 d.C.), que escreveu para a corte do imperador Adriano, faz referência a Jesus em “Vidas dos doze Césares” (12) quando escreve:

Dado que os judeus constantemente fizeram distúrbios, instigados por Cresto, Claudio os expulsou de Roma.

A maioria dos estudiosos considera que o nome “Cresto” deve ser entendido como “Cristo” e consequentemente advoga que os distúrbios foram causados pela oposição que cresceu entre os judeus de Roma contra a pregação do Evangelho por Judeus–Cristãos.
Então vemos as cartas de Plínio o Jovem, governador de Bitínia, ao imperador Trajano, datadas em 112 d.C. Numa dessas cartas, Plínio o Jovem escreve à comunidade dos cristãos com fim de solicitar ao imperador o modo mais adequado para proceder legalmente contra quem se professasse cristão, culpado de não sacrificar aos pagãos. Aqui está a passagem da carta:

“Eles afirmavam que toda sua culpa ou erro havia consistido no costume de reunir-se um dia fixo antes de sair o sol e cantar a coros sucessivos um hino a Cristo como a um deus e em comprometer-se baixo juramento, já não perpetuar qualquer delito, a não cometer furtos, más ações ou adultérios, a não faltar a nada prometido, nem a negar-se a fazer um empréstimo do depósito. Terminados esses ritos, tem por costume separar-se e voltar-se a reunir para tomar alimento, por demais comum e inocente.” (13)

Justamente a passagem “a Cristo como a um Deus” indica que adoravam a uma pessoa que realmente existiu como se fossem um deus (14). Além disso, esta passagem nos descreve a comunidade dos cristãos, vistos não como perigosos zelotes ou violentos revolucionários, senão como pacíficos seguidores da mensagem de um homem.
Uma atenta leitura da passagem de Plínio o Jovem revela, além disso, que os primeiros cristãos seguiam à letra os ensinamentos de Jesus: “pronunciavam o voto solene” de seguir precisas normas morais e, portanto, agrega Plínio, reuniam-se para tomar alimento de tipo “comum e inocente”. Plínio não reconhece nenhuma culpa nestas congregações, mas justamente e porque tinham tantos prosélitos podiam demolir não só os fundamentos do império, mas toda a sociedade, dando início a uma nova era para a humanidade. Veremos mais adiante como Constantino conseguiu, com seu “híbrido”, corromper a igreja, criando um culto que lhe era favorável, enfraquecendo a mensagem de Jesus y transformando-a para seus fins de conquista y de poder.
Passemos agora a outra fonte não cristã sobre a existência histórica de Jesus: os escritos de Tito Flávio Josefo, um historiador judaico-romano nascido em 37 d.C. No seu livro “Antiguidades Judaicas” descreve várias vezes a atividade de Jesus ou de seus fiéis. Por exemplo, nesta passagem:

“Ananias era um saduceu sem alma. Convocou astutamente o Sinédrio no momento propício. O procurador Festo faleceu e seu sucessor, Albino, ainda não havia tomado posse. Fez com que o Sinédrio julgasse a Tiago, irmão de Jesus, e a alguns outros. Foram acusados de haver transgredido a lei e entregou-os para que fossem apedrejados”. (15)

Logo, nesta passagem, chamado Testimonium Flavianum, Tito Flávio Josefo descreve a Jesus de modo mais detalhado:

“Por este tempo apareceu Jesus, um homem sábio [se é que é correto chamá-lo homem, já que foi um fazedor de milagres impactantes, um mestre para os homens que recebem a verdade com gozo], e atraía até Ele muitos judeus [e a muitos gentis ademais. Era o Cristo]. E quando Pilatos, frente à denúncia daqueles que são os principais entre nós, o havia condenado à Cruz, aqueles que o haviam amado primeiro não lhe abandonaram [já que lhes apareceu vivo novamente no terceiro dia, tendo previsto isto e outras tantas maravilhas sobre Ele os santos profetas]. A tribo dos cristãos, chamados assim por Ele, não cessam de crescer até este dia”. (16)

Inclusive se esta passagem foi refutada por alguns detratores de Jesus, vários expertos a consideram autêntica (17).
O historiador judeu Sholmo Pines descobriu, no início dos anos 70 do século passado, a forma original do Testimonium Flavianum, contextualizada dentro do livro “História Universal” de Agápio de Hiérapolis (século X):

“Neste tempo existiu um homem de nome Jesus. Sua conduta era boa e era considerado virtuoso. Muitos judeus e gente de outras nações converteram-se em discípulos seus. Os convertidos em seus discípulos não lhe abandonaram. Relataram que ele havia aparecido três dias depois da sua crucificação e que estava vivo. Foi quem sabe o messias de quem os profetas haviam contado maravilhas”. (18)

Neste caso, Tito Flávio Josefo descreve a Jesus como um personagem que realmente existiu e descreve aos apóstolos como fiéis de um homem justo, sábio e virtuoso. Além disso, descreve a Ressurreição, afirmando que seus seguidores acreditavam nela e que Jesus era o Messias.

De todos estes testemunhos históricos, de escritores romanos ou judeus, resulta muito claro que Jesus foi descrito como “homem sábio”, que foi crucificado sob o poder de Pôncio Pilatos. É evidente que os escritores não cristãos não divulgaram a Divindade de Cristo justamente porque, não sendo cristãos, não acreditavam nele, mas o descrevem como uma pessoa que existiu realmente, um sábio, e afirmam que, depois da sua morte, seus seguidores puseram em prática sua mensagem e mesmo sob ameaça de morte não o renegavam, porque sua fé era fortíssima. É evidente que o Jesus bíblico, descrito no Novo Testamento, coincide com o Jesus histórico, descrito pelos historiadores não cristãos.
Permanecendo nas fontes não cristãs sobre Jesus, desde um ponto de vista histórico, não podemos deixar de citar o Talmud da Babilônia, uma coleção de escritos rabínicos judeus compilada a partir de 70 d.C. A continuação, uma passagem:

“Durante a vigília da festa de Páscoa, Yeshu, o Nazareno, foi pendurado. Durante os quarenta dias posteriores a sua execução, um pregador foi anunciando: “Yeshu, o Nazareno, está a ponto de ser apedrejado porque tem praticado a magia, tem seduzido e tem desencaminhado Israel”. (19)

Esta passagem não somente é uma prova da existência mesma de Jesus, senão que explica indiretamente, desde o ponto de vista dos judeus que não acreditavam nele, o motivo de sua crucificação (20). De fato, se sustenta que praticou a “magia” e que “desencaminhou Israel”. De uma parte, confirmam-se os milagres, considerados como “magia” de quem não acreditava; de outra parte, confirmam-se os Evangelhos, que descrevem porque Jesus foi enviado ao cadafalso, já que, desde o ponto de vista dos judeus não crentes, ele era um renegado, ou melhor, uma pessoa blasfema que não acreditava nas sagradas escrituras, pois as substituía.
Há, além disso, algumas fontes gregas do segundo século, como por exemplo a de Luciano de Samosata (120-180) em sua obra “Sobre a morte do Peregrino”:

“Como sabeis, os cristãos adoram a um homem deste tempo, que criou seus inovadores ritos e que foi por isso crucificado… Seu fundador deixou impresso neles a convicção de que todos são irmãos desde o momento em que se converteram e condenam aos deuses da Grécia, para adorar em troca ao sábio crucificado e viver segundo seus preceitos”. (21)

Inclusive se Luciano não menciona o nome de Jesus, é óbvio que se refere a ele. Interessante é ver que Luciano conta que desde o momento da conversão, os cristãos são todos “irmãos”.
Há, além disso, outras fontes não cristãs sobre a existência histórica de Jesus (Dion Cássio, os escritos do imperador Adriano, Marco Aurélio).
Os detratores de Jesus, então, continuaram sua cega obra de costumeiro descrédito, afirmando que os Evangelhos, sejam canônicos, apócrifos ou gnósticos, descrevem um Jesus que não corresponde ao verdadeiro Jesus, que segundo eles foi um exaltado, um zelote, um líder militar que tinha por objetivo a independência de Palestina dos romanos.
Segundo esta tese, portanto, os evangelistas atuaram de má fé, pondo-se de acordo para divulgar um falso Jesus nunca existido, para “fundar uma nova religião com objetivos ocultos”.
A estas acusações banais e infundadas eu respondo desta maneira: até que se prove o contrário, a História está feito pelas fontes, que deveriam ser fidedignas e, sobretudo, estar de acordo entre elas. Neste caso, as fontes cristãs são numerosas e não estão em desacordo entre elas, o que faz com que a perversa lógica do complô termina por cair.
No que diz respeito às fontes não cristãs: se tivéssemos somente uma
fonte não cristã que nos descrevesse a Jesus de acordo com o Jesus dos
Evangelhos, poderíamos pensar que esta fonte é de má fé, ou
demasiado filocristã.
Mas inclusive as fontes não cristãs que descrevem Jesus como um homem sábio que logo foi crucificado, em sintonia com os Evangelhos são numerosas, e até quando não tenha fontes fidedignas opostas e contrárias a hipótese de Jesus exaltado ou zelote é historicamente inaceitável.
Além disso, se a pessoa em questão houvesse sido um exaltado, não teria tido os seguidores que teve e não teriam escrito as fontes primárias sobre ele. Quem seguiria a um exaltado? Quem sabe uma pessoa, dois, mas não dezenas ou centos.
Se, por outro lado, tivesse sido um zelote ou inclusive um impostor zelote, não se explicam vários acontecimentos: primeiro, por que um historiador como Tito Flávio Josefo não o descreveu como um zelote? Segundo, por que no Talmud Babilônico, em vez de descrever Jesus como um renegado (visão dos judeus que não acreditavam nele, que coincide com os Evangelhos), não foi descrito como um zelote, ou seja, como um inspirador ou líder militar? Terceiro: a lógica diz que se Jesus tivesse sido um zelote, seus apóstolos não teriam divulgado sua palavra, difundindo uma mensagem de paz como de fato fizeram, senão que teriam divulgado uma mensagem de ódio e de resposta armada ao jugo de Roma.
Façamos agora um salto até o ano de 313 d.C.
Em geral, os detratores do cristianismo sustentam que Constantino e os padres da Igreja efetuaram um sincretismo com cultos pagãos preexistentes para fazer aceitar às massas da nova religião. Tudo isso, de fato, tem fundamentos históricos, como também manifestado com o artigo “O híbrido constantiniano”.
É óbvio que o imperador utilizou o cristianismo como um instrumento para consolidar seu reino. Deu-se conta de que esta nova religião gostava das massas e em vez de continuar combatendo-a, incorporou ao Estado, corrompendo seus princípios fundamentais e desnaturalizando seus valores. Os cristãos, vendo-se aceitos e logo privilegiados, na realidade afastaram-se dos ensinamentos originais de Jesus e começaram, inclusive, a perseguir a quem criticava sua doutrina.
Mas o que tem a ver tudo isso com a mensagem original de Jesus contido no Novo Testamento, que é um conjunto de obras escritas no século I?
Agora, quem denigre a imagem de Jesus sustenta que sua figura foi voluntariamente (seguindo de novo a lógica do complô) criada sobre o modelo de mitos preexistentes, por exemplo, o de Hórus. Mas Hórus não tem nada a ver com Jesus.
Vejamos por que: na mitologia egípcia, Osíris e Ísis casam. No entanto, Osíris é morto por Seth (seu irmão malvado), que o esquarteja. Ísis ressuscita Osíris e de sua união nasce Hórus, o deus do sol. Em geral, os defensores do mito de Jesus comparam a Ísis com Maria e a Jesus com Hórus. Esquecem que se houve um sincretismo, foi efetuado justamente a partir de 313 d.C., mas não está presente nos Evangelhos. De fato, em João 1:1-5 está escrito que Jesus é o Verbo, criador então do Universo, e que, portanto, também do sol, enquanto Hórus é o deus-Sol.
Há também em alguns escritos uma suposta conexão de Osíris com Jesus, mas Jesus não foi esquartejado; segundo João, de fato não lhe quebraram nenhum osso (João 19:36) e não foi Maria (Ísis) quem o ressuscitou, mas ele mesmo ressuscitou porque venceu a morte, sendo Deus (Lucas 24:6).
Além disso, como pode estes supostos “expertos historiadores” comparar um mito egípcio que se remonta a 3100 a.C., do qual não existem fontes históricas para consulta, com a vida de Jesus, sobre a qual há inumeráveis fontes históricas?
Em todo caso, os símbolos solares foram introduzidos depois de 313 d.C. e respondem, portanto, a uma lógica de assimilação e sincretismo, mas não têm nada a ver com a mensagem original do Novo Testamento. Segundo a tradição, Hórus nasceu na noite de 25 de dezembro, Dia do Sol nas culturas tradicionais. Esta data, indicada como o nascimento de Jesus, somente a partir do século III, não está citada no Novo Testamento, e foi oficialmente agregada no ano 336 d.C. (22). Portanto, também aqui o culto de Hórus, o do Sol Invictus, é algo acessório, mas não tem nada a ver com a mensagem original de Jesus contido no Novo Testamento.
Quem, por outro lado, associa o mito de Mitra ao culto de Jesus, afirmando que ambos nasceram de uma virgem, buscam desacreditar de um modo especial o Evangelho de Lucas, como se fosse precisamente “uma cópia de um culto precedente”. A eles recordo que, segundo a Mitologia, deus Mitra não nasceu de uma virgem, mas de uma pedra e, inclusive, nasceu já adulto (23). Daí então que a existência histórica de Jesus e a invalidez da teoria do “mito de Jesus” sejam feitos amplamente demonstrados por fontes históricas consultáveis, reconhecidas por especialistas sérios e imparciais.
Outra coisa, naturalmente, é acreditar na Divindade de Jesus. Crer é um ato pessoal, íntimo e, obviamente, com este artigo não pretendo evangelizar que está lendo este artigo. O recorrido espiritual do leitor ou do suposto denegridor de Jesus, se existe, é algo pessoal e interior.
Além disso, quero estender uma mão aos difamadores ou detratores de Jesus, certamente não para convertê-los, insisto, mas para que se acerquem a esta figura histórica imensa de maneira submissa, humilde, buscando entendê-la, sem divulgar ácidas sentenças.

YURI LEVERATTO
Copyright 2015

Bibliografia:

(1) Vidal Garcìa (2007). Pablo. De Tarso a Roma
(2)Opere di Gerd_Theissen,
(3) Mary Healy,Peter Williamson, The Gospel of Mark
(4) http://www.statveritas.com.ar/Varios/JLoring-01.htm
(5) De C. Allison Jr., "Matthew", in Muddiman e Barton, "The Gospels - The Oxford Bible Commentary", 2010.
(6) The Gospel according to John, The Cambrige Bible Commentary, Cabridge University Press, 1965.
(7) Wayne A. Grudem, The First Epistle of Peter: an introduction and commentary, 1999.
(8)  Bruno Maggioni, Introduzione all'Opera giovannea, in La Bibbia, Edizioni San Paolo, 2009
(9) GerdTheissen e Annette Merz, The Historical Jesus: A Comprehensive Guide Minneapolis, 1998
(10) Marvin Meyer, Albert Schweitzer and the Image of Jesus in the Gospel of Thomas
(11) Arland J. Hultgren, The Parables of Jesus: A Commentary, Wm. B. Eerdmans Publishing, 2002, p. 432.
(12) Svetonio (Vite dei dodici Cesari)
(13) Plinio, Epistole X, 96
(14) M. Harris, "References to Jesus in Early Classical Authors
(15) Antichità Giudaiche XX, 200
(16) Antichità Giudaiche XVIII, 63-64
(17) Estudiosos como Ètienne Nodet e Serge Badet
(18) SHLOMO PINES - AN ARABIC VERSION OF THE TESTIMONIUM FLAVIANUM AND ITS IMPLICATIONS - THE ISRAEL ACADEMY OF SCIENCES AND HUMANITIES - JERUSALEM 1971.
(19) Talmud Babilonese, trad. di I. Epstein, vol. III, 43a/281; cfr. Sanhedrin B, 43b
(20) O termo "pendurado" refere-se à crucificação. Por isso, em Gálatas 3, 13 pode-se ler que Cristo foi "pendurado" e em Atos dos Apóstolos 10, 39 que foi "pendurado em uma cruz"; em Lucas 23, 39, este termo é usado também para os criminosos que foram crucificados com Jesus.
(21) Luciano, De morte Peregrini., 11-13, trad. di H.W. Fowler
(22) Joseph F. Kelly: "in 336 the local church at Rome proclaimed December 25 as the dies natalis Christi". Lo stesso autore precisa che "the document containing the affirmation of December 25 as the 'dies Natalis Christi' in 336 is called "The Cronograph of 354" (Cfr. Joseph F. Kelly, "The Origins of Christmas", p. 64).
(23) Vermaseren, M. J. "The miraculous Birth of Mithras". In LàszlòGerevich. StudiaArchaeologica. Brill. pp. 93–109. Retrieved 10-04-2011.