sábado, 24 de octubre de 2015

A verdadeira identidade de Jesus Cristo


Poucas pessoas duvidam da existência histórica de Jesus Cristo. Muitas, no entanto, o definem como um “grande profeta de Deus”, um “homem sábio”, um “reformador do judaísmo” ou inclusive “o homem mais sábio que já existiu”. Algumas religiões, por outro lado, o consideram um “grande profeta”, um “enviado de Deus” ou um “mensageiro de Deus”.
Estas definições, no entanto, se contradizem com os livros do Novo Testamento, que são os textos mais antigos que descrevem a vida e obra de Jesus Cristo e seus seguidores, os Apóstolos, e que foram escritos antes de 100 d.C.
De modo que, para aprofundar no tema de sua verdadeira identidade, devemos estudar os textos do Novo Testamento, que foram escritos por quem conviveu com Jesus ou por quem recebeu um ensinamento direto dos Apóstolos.
Primeiramente, analisemos o Prólogo do Evangelho de João (1,1-5):

No princípio era o Verbo, e o Verbo estava com Deus, e o Verbo era Deus.
Ele estava no princípio com Deus.
Todas as coisas foram feitas por ele, e sem ele nada do que foi feito se fez.
Nele estava a vida, e a vida era a luz dos homens.
E a luz resplandece nas trevas, e as trevas não a compreenderam.

Nessas célebres passagens, Cristo é proclamado como Palavra de Deus (Verbo), Deus mesmo, Criador do mundo e princípio da vida. Analisemos também outra passagem do Prólogo (João 1, 14):

E o Verbo se fez carne, e habitou entre nós, e vimos a sua glória, como a glória do unigênito do Pai, cheio de graça e de verdade.

Esta passagem descreve que o Verbo se fez carne, ou seja, encarnou-se numa pessoa (Jesus). Além disso, explica que o filho é Unigênito, “único e sozinho” (ou seja, não houve outros e não haverá por fora dele). Já essas primeiras passagens do Evangelho de João expressam com força a plena identidade de Jesus Cristo. Ele é o Verbo, a Palavra de Deus, Deus mesmo.
Há outra passagem do prólogo do Evangelho de João muito importante para identificar plenamente Jesus Cristo (1,18):

Deus nunca foi visto por alguém. O Filho unigênito, que está no seio do Pai, esse o revelou.

Quando João escreve “A Deus ninguém viu jamais” refere-se a Deus Pai. Quando escreve “Unigênito Deus”, refere-se a Deus Filho, o qual “está no seio do Pai” e que revelou ao Pai. Portanto, João, nessa passagem, definindo “Unigênito Deus” ao Filho, revela-nos uma vez mais a verdadeira identidade de Jesus Cristo.
Agora, analisemos uma passagem sucessiva do Evangelho de João (1,29):

No dia seguinte João viu a Jesus, que vinha para ele, e disse: Eis o Cordeiro de Deus, que tira o pecado do mundo.

É João Batista quem fala: diz que Jesus é “o Cordeiro de Deus, que tira o pecado do mundo”. O que significa isto?
No Antigo Testamento, os sacrifícios animais se levavam a cabo para que Deus perdoasse os pecados. A perda de um animal do rebanho e a visão da morte de um animal, que é inocente por definição, já que não conhece o bem nem o mal, tinha o objetivo de redimir ao pecador.
Mas, o que é o pecado? O pecado é um ato carente de humildade. Um ato de arrogância, presunção, pedantismo. O pecado original foi cometido por Adão e Eva, os primeiros seres humanos, dotados de livre arbítrio. Eles quiseram substituir a Deus, derrubá-lo de seu trono. Pecaram de presunção, de pedantismo. O pecado original é o que fez necessário o sacrifício de Cristo na cruz.
Seu sofrimento e seu sangue, derramado em nosso lugar, torna-nos livres de pecado, se reconhecermos a Cristo e o aceitamos como nosso salvador. (Carta aos Romanos 3, 22).
O sacrifício do Filho de Deus é, por definição, o sacrifício final e perfeito, como se deduz desta passagem da Carta aos Hebreus (7,27):

que não tem necessidade, como aqueles sumos sacerdotes, de oferecer sacrifícios diariamente, primeiro pelos seus próprios pecados e depois pelos do povo; porque isto fez uma só vez para sempre, quando se ofereceu a si mesmo.

Cabe notar que João Batista disse: “Eis aqui o Cordeiro de Deus, que tira o pecado do mundo”, e não: “Eis aqui o Cordeiro de Deus, que tira o pecado de Israel”, indicando, assim, que Jesus veio para carregar sobre si todos os pecados do mundo, justamente todos, inclusive os de quem não era judeu. Sua missão não é, portanto, a de um “reformador do judaísmo”, como afirmam alguns escritores, senão que é universal, para todos os seres humanos.
Outra passagem importante para compreender esse conceito é de João (3, 16-21):

Porque Deus amou o mundo de tal maneira que deu o seu Filho unigênito, para que todo aquele que nele crê não pereça, mas tenha a vida eterna.
Porque Deus enviou o seu Filho ao mundo, não para que condenasse o mundo, mas para que o mundo fosse salvo por ele.
Quem crê nele não é condenado; mas quem não crê já está condenado, porquanto não crê no nome do unigênito Filho de Deus.
E a condenação é esta: Que a luz veio ao mundo, e os homens amaram mais as trevas do que a luz, porque as suas obras eram más.
Porque todo aquele que faz o mal odeia a luz, e não vem para a luz, para que as suas obras não sejam reprovadas.
Mas quem pratica a verdade vem para a luz, a fim de que as suas obras sejam manifestas, porque são feitas em Deus.

Também nessas passagens descreve-se Jesus como “o Salvador do mundo” e não “quem condena o mundo”. Salvador é aquele que com seu sacrifício “tira os pecados do mundo”. Quem crê nele já está salvo, no sentido de que aceita que Cristo recebeu sobre si mesmo seus pecados.
Com esse propósito vejamos estas passagens do Evangelho de Mateus (20, 27-28):

E o que quiser tornar-se entre vós o primeiro, se faça vosso escravo.
Assim como o Filho do Homem veio, não para ser servido, mas para servir e dar sua vida em resgate por uma multidão.

E (26, 26-28):

Durante a refeição, Jesus tomou o pão, benzeu-o, partiu-o e o deu aos discípulos, dizendo: Tomai e comei, isto é meu corpo.
Tomou depois o cálice, rendeu graças e deu-lho, dizendo: Bebei dele todos, porque isto é meu sangue, o sangue da Nova Aliança, derramado por muitos homens em remissão dos pecados.

Então, segundo a crença cristã, Deus não perdoa os pecados “desde o alto”, senão pagando o mesmo. Deus não delegou a uma “criatura” sua o sofrimento na cruz. Deus mesmo estava na cruz, dando o máximo exemplo de humildade, porque amava de tal forma ao homem que se sacrificou por ele, carregando sobre si mesmo todos os pecados do mundo e tornando-nos, dessa maneira, livres. Além disso, somente Deus, ser infinito, poderia pagar com seu sangue por todos os pecados do mundo.
De várias passagens dos Evangelhos se deduz que o Pai e o Filho são “da mesma substância”. É Jesus mesmo quem afirmou, dissipando qualquer dúvida sobre sua identidade e sua missão.
Eis aqui uma primeira passagem do Evangelho de Mateus (11, 27):

Todas as coisas me foram dadas por meu Pai; ninguém conhece o Filho, senão o Pai, e ninguém conhece o Pai, senão o Filho e aquele a quem o Filho quiser revelá-lo.

Continuemos com a análise do Evangelho de João. Na seguinte passagem (8, 18-19) está escrito:

Eu dou testemunho de mim mesmo; e meu Pai, que me enviou, o dá também.
Perguntaram-lhe: Onde está teu Pai? Respondeu Jesus: Não conheceis nem a mim nem a meu Pai; se me conhecêsseis, certamente conheceríeis também a meu Pai.

Frase significativa, porque indica que somente conhecendo e aceitando-lhe, pode-se aceitar o Pai.
Estamos submergindo no profundo Evangelho de João ao analisar as importantes passagens onde Cristo revelou sua plena identidade aos fariseus e aos religiosos no templo.
Na seguinte passagem de João (8, 23-24), Jesus, atribuindo-se a si mesmo o nome com o qual Deus revelou-se a Moisés (“Eu sou ”, em Êxodo 3,14) põe-se a par com Deus.

Ele lhes disse: Vós sois cá de baixo, eu sou lá de cima. Vós sois deste mundo, eu não sou deste mundo.
Por isso vos disse: morrereis no vosso pecado; porque, se não crerdes o que eu sou, morrereis no vosso pecado.

Ainda em João (8,53-58):

És acaso maior do que nosso pai Abraão? E, entretanto, ele morreu... e os profetas também. Quem pretendes ser?
Respondeu Jesus: Se me glorifico a mim mesmo, a minha glória não é nada; meu Pai é quem me glorifica, aquele que vós dizeis ser o vosso Deus e, contudo, não o conheceis. Eu, porém, o conheço e, se dissesse que não o conheço, seria mentiroso como vós. Mas conheço-o e guardo a sua palavra.
Abraão, vosso pai, exultou com o pensamento de ver o meu dia. Viu-o e ficou cheio de alegria.
Os judeus lhe disseram: Não tens ainda cinqüenta anos e viste Abraão!...
Respondeu-lhes Jesus: Em verdade, em verdade vos digo: antes que Abraão fosse, Eu Sou.

Também o décimo capítulo do Evangelho de João é particularmente significativo para conhecer a verdadeira identidade de Jesus Cristo. Vamos ler as seguintes passagens (10, 14-18):

Eu sou o bom pastor. Conheço as minhas ovelhas e as minhas ovelhas conhecem a mim, como meu Pai me conhece e eu conheço o Pai. Dou a minha vida pelas minhas ovelhas.
Tenho ainda outras ovelhas que não são deste aprisco. Preciso conduzi-las também, e ouvirão a minha voz e haverá um só rebanho e um só pastor.
O Pai me ama, porque dou a minha vida para a retomar.
Ninguém a tira de mim, mas eu a dou de mim mesmo e tenho o poder de a dar, como tenho o poder de a reassumir. Tal é a ordem que recebi de meu Pai.

Primeiro que tudo nessas passagens está escrito que Jesus conhece-nos, exatamente como o Pai o conhece e ele conhece ao Pai. Logo está escrito que Ele dá a vida por nós.
Nesta frase, então, Jesus antecipa o que será seu sacrifício e, além disso, antecipa sua Ressurreição: Ele dá sua vida e Ele a retoma, justamente porque Ele é o Senhor.
Além disso, também dessa frase deduzimos que Jesus veio por todos e não somente pelos judeus. (Também tenho outras ovelhas que não são deste curral; aquelas também devo trazer e ouvirão minha voz ; e haverá um rebanho, e um pastor).
Poucas passagens mais adiante, quando alguns judeus lhe pedem que revele sua verdadeira natureza, Jesus responde (João 10, 24-30):

Os judeus rodearam-no e perguntaram-lhe: Até quando nos deixarás na incerteza? Se tu és o Cristo, dize-nos claramente.
Jesus respondeu-lhes: Eu vo-lo digo, mas não credes. As obras que faço em nome de meu Pai, estas dão testemunho de mim.
Entretanto, não credes, porque não sois das minhas ovelhas.
As minhas ovelhas ouvem a minha voz, eu as conheço e elas me seguem.
Eu llhes dou a vida eterna; elas jamais hão de perecer, e ninguém as roubará de minha mão.
Meu Pai, que mas deu, é maior do que todos; e ninguém as pode arrebatar da mão de meu Pai.
Eu e o Pai somos um.

Com esta última frase, Jesus afirma estar em união com o Pai. No entanto, quando os judeus recolheram pedras para atirar nele, passou este diálogo (João 10, 32-38):

Disse-lhes Jesus: Tenho-vos mostrado muitas obras boas da parte de meu Pai. Por qual dessas obras me apedrejais?
Os judeus responderam-lhe: Não é por causa de alguma boa obra que te queremos apedrejar, mas por uma blasfêmia, porque, sendo homem, te fazes Deus.
Replicou-lhes Jesus: Não está escrito na vossa lei: Eu disse: Vós sois deuses (Sl 81,6)?
Se a lei chama deuses àqueles a quem a palavra de Deus foi dirigida (ora, a Escritura não pode ser desprezada), como acusais de blasfemo aquele a quem o Pai santificou e enviou ao mundo, porque eu disse: Sou o Filho de Deus?
Se eu não faço as obras de meu Pai, não me creiais.
Mas se as faço, e se não quiserdes crer em mim, crede nas minhas obras, para que saibais e reconheçais que o Pai está em mim e eu no Pai.

Os judeus tinham entendido que, com aquela afirmação, Jesus sustentava que era Deus, mas Jesus assim mesmo não negou. Ele remete ao Antigo Testamento: nas escrituras são chamados deuses e filhos do Altíssimo os juízes e os reis, porque são partícipes da prerrogativa divina de julgar aos homens (Sal. 82, 6-Sal. 2- Dt 1, 17; 19,17). Jesus agrega que quem é santificado e enviado pelo Pai tem direito a ser considerado em união com o Pai. Na última frase, além disso, confirma de novo que Ele e o Pai são uma só coisa.
Analisemos agora outra passagem do Evangelho de João (20,28): Respondeu Tomás e lhe disse: 

Meu Senhor e meu Deus”.

Nesse caso, Jesus não negou ser Deus, senão que respondeu em João (20,29): 

E lhe disse Jesus “Por que me tens visto, tens acreditado? Felizes os que não viram e, no entanto, acreditaram”.

A natureza divina de Jesus não se deduz somente do que disse, senão também, obviamente, do que fez. Os milagres, narrados nos quatro Evangelhos, mostram seu domínio total sobre as forças da natureza, os demônios, as doenças e a morte. Jesus Cristo ressuscita os mortos: a filha de Jairo (em Lucas 8,49-56), o filho da viúva de Naim (em Lucas 7, 11-17) e Lázaro (João, 11).
Eis aqui o célebre diálogo de Jesus com Marta antes da ressurreição de Lázaro (João 11, 23-27):

Disse-lhe Jesus: Teu irmão ressurgirá.
Respondeu-lhe Marta: Sei que há de ressurgir na ressurreição no último dia.
Disse-lhe Jesus: Eu sou a ressurreição e a vida. Aquele que crê em mim, ainda que esteja morto, viverá.
E todo aquele que vive e crê em mim, jamais morrerá. Crês nisto?
Respondeu ela: Sim, Senhor. Eu creio que tu és o Cristo, o Filho de Deus, aquele que devia vir ao mundo.

Com esta frase, Marta reconheceu a verdadeira identidade de Jesus Cristo.
Prosseguindo com a análise dos Evangelhos, particularmente do Evangelho de João, analisemos outra passagem fundamental para compreender a verdadeira identidade de Jesus Cristo (João, 12, 44, 45):

Entretanto, Jesus exclamou em voz alta: Aquele que crê em mim, crê não em mim, mas naquele que me enviou; e aquele que me vê, vê aquele que me enviou.

Nesta última passagem, Jesus afirma que é consubstancial ao Pai.
Ainda em João (14, 5-14):

Disse-lhe Tomé: Senhor, não sabemos para onde vais. Como podemos conhecer o caminho?
Jesus lhe respondeu: Eu sou o caminho, a verdade e a vida; ninguém vem ao Pai senão por mim.
Se me conhecêsseis, também certamente conheceríeis meu Pai; desde agora já o conheceis, pois o tendes visto.
Disse-lhe Filipe: Senhor, mostra-nos o Pai e isso nos basta.
Respondeu Jesus: Há tanto tempo que estou convosco e não me conheceste, Filipe! Aquele que me viu, viu também o Pai. Como, pois, dizes: Mostra-nos o Pai...
Não credes que estou no Pai, e que o Pai está em mim? As palavras que vos digo não as digo de mim mesmo; mas o Pai, que permanece em mim, é que realiza as suas próprias obras.
Crede-me: estou no Pai, e o Pai em mim. Crede-o ao menos por causa destas obras.
Em verdade, em verdade vos digo: aquele que crê em mim fará também as obras que eu faço, e fará ainda maiores do que estas, porque vou para junto do Pai.
E tudo o que pedirdes ao Pai em meu nome, vo-lo farei, para que o Pai seja glorificado no Filho.
Qualquer coisa que me pedirdes em meu nome, vo-lo farei.

Nessas passagens há dois conceitos significativos: primeiro que tudo, Jesus responde a Tomás dizendo: “Eu sou o caminho, a verdade e a vida; ninguém vai ao Pai senão por mim”. Logo responde a Felipe dizendo: “estou no Pai, e o Pai em mim”. Jesus afirma, então, que é a verdade, que está unido ao Pai e que é, portanto, da mesma “substância”.
Também em João (16, 27-28), temos algumas frases importantes:

Pois o mesmo Pai vos ama, porque vós me amastes e crestes que saí de Deus.
Saí do Pai e vim ao mundo. Agora deixo o mundo e volto para junto do Pai.

Saí de Deus”, frase que dá a ideia do Verbo gerado, mas não criado e finalmente encarnado em um homem: Jesus.
No capítulo 17 do Evangelho de João, há também afirmações muito importantes de Jesus, que está rezando ao Pai. Eis aqui uma primeira e significativa passagem (João 17, 3-5):

Ora, a vida eterna consiste em que conheçam a ti, um só Deus verdadeiro, e a Jesus Cristo que enviaste.
Eu te glorifiquei na terra. Terminei a obra que me deste para fazer.
Agora, pois, Pai, glorifica-me junto de ti, concedendo-me a glória que tive junto de ti, antes que o mundo fosse criado.

E ainda em João (17, 24):

Pai, quero que, onde eu estou, estejam comigo aqueles que me deste, para que vejam a minha glória que me concedeste, porque me amaste antes da criação do mundo.

Nestas duas passagens, deduzimos que Jesus estava com o Pai antes que o mundo fosse, antes da fundação do mundo, do universo. Estas duas passagens, indiretamente, confirmam a Divindade de Cristo.
Porém, o evento cardinal da missão de Jesus é a Ressurreição (Mateus, 28; Marcos 16; Lucas, 24; João, 20). Na Ressurreição, Jesus Cristo venceu a morte e demostrou seu poder sobre ela. Somente Deus mesmo, que criou o universo, tem o poder de vencer o pecado e a morte.
Eis aqui as famosas passagens da Carta aos Coríntios de Paulo (1, Coríntios, 15, 54-55):

Quando este corpo corruptível estiver revestido da incorruptibilidade, e quando este corpo mortal estiver revestido da imortalidade, então se cumprirá a palavra da Escritura:
A morte foi tragada pela vitória.
Onde está, ó morte, a tua vitória?
Onde está, ó morte, o teu aguilhão?

A Ressurreição é, ademais, a demonstração de que Deus aceitou o extremo sacrifício de Cristo feito por todos os seres humanos e certifica que quem crê em Jesus Cristo será ressuscitado na Vida Eterna.
Há, ainda, outras frases e comportamentos de Jesus que indicam sua natureza consubstancial ao Pai. No capítulo quinto do Evangelho de Mateus, falando da lei mosaica, ou seja, a lei dada por Deus, Jesus repetiu várias vezes: “haveis compreendido que foi dito… eu vos digo mais”. Jesus ensina, então, sobre os comportamentos corretos a assumir em caso de matrimônio, juramentos, amor ao próximo. Seis vezes repete a frase: “em lugar disso eu vos digo”.
Como poderia um simples profeta agregar ou modificar as leis dadas por Deus se não quem por sua natureza é consubstancial ao Pai? Os profetas diziam: “Assim fala o Senhor”, enquanto Jesus disse: “eu, em lugar disso, vos digo”.
Sabe-se que os judeus cumpriam a lei do descanso durante o sábado e, por isso, criticaram Jesus, por ter curado um paralítico nesse dia (João 5,1-10). Porém Jesus, demostrando estar acima da lei, disse (João 5, 17):
Mas ele lhes disse: Meu Pai continua agindo até agora, e eu ajo também.
Jesus coloca-se, então, acima da lei, por exemplo, quando disse:

Porque o Filho do Homem é senhor também do sábado. (Mateus, 12, 8).

São afirmações inauditas, que nunca saíram da boca de nenhum homem, e que provam a verdadeira natureza de Jesus Cristo, que é consubstancial ao Pai.
Outra frase importante com a qual Jesus declarou sua plena identidade é a seguinte, em resposta ao sumo-sacerdote, extraída do Evangelho de Marcos (14, 61-62):

Mas Jesus se calava e nada respondia. O sumo sacerdote tornou a perguntar-lhe: És tu o Cristo, o Filho de Deus bendito?
Jesus respondeu: Eu o sou. E vereis o Filho do Homem sentado à direita do poder de Deus, vindo sobre as nuvens do céu.

Nessa passagem, Jesus responde, claramente, usando as palavras da visão de Daniel (7, 13-14).
Vejamos, agora, uma passagem importante da Carta do apóstolo Paulo aos Filipenses (2, 3-11):

Nada façais por espírito de partido ou vanglória, mas que a humildade vos ensine a considerar os outros superiores a vós mesmos.
Cada qual tenha em vista não os seus próprios interesses, e sim os dos outros.
Dedicai-vos mutuamente a estima que se deve em Cristo Jesus.
Sendo ele de condição divina,
não se prevaleceu de sua igualdade com Deus,
mas aniquilou-se a si mesmo,
assumindo a condição de escravo e assemelhando-se aos homens.
E, sendo exteriormente reconhecido como homem,
humilhou-se ainda mais, tornando-se obediente
até a morte,
e morte de cruz.
Por isso Deus o exaltou soberanamente
e lhe outorgou o nome que está acima de todos os nomes,
para que ao nome de Jesus
se dobre todo joelho no céu,
na terra e nos infernos.
E toda língua confesse, para a glória de Deus Pai, que Jesus Cristo é Senhor.

Analisando este importante fragmento rítmico, vemos que na sexta passagem Paulo escreve: “Sendo ele de condição divina”. De modo que Paulo escreve, claramente, que Jesus é Deus por condição. Além disso, na décima primeira passagem escreve: “E toda língua confesse, para a glória de Deus Pai, que Jesus Cristo é Senhor”. Dessa maneira, retomando a sexto passagem, certifica a Divindade do Filho.
Analisemos agora uma importante passagem da Primeira Carta de João (1 João 5, 20):

Sabemos que o Filho de Deus veio e nos deu entendimento para conhecermos o Verdadeiro. E estamos no Verdadeiro, nós que estamos em seu Filho Jesus Cristo. Este é o verdadeiro Deus e a vida eterna.

Nessa passagem “o Verdadeiro” é Deus. João afirma que somente o Filho de Deus nos deu a inteligência para conhecer a Deus. Além disso, afirma permanecer no Verdadeiro, ou seja, em seu filho Jesus Cristo. Nessa última passagem, João escreve algo que não deveria dar lugar a dúvidas: “Este é o verdadeiro Deus e a vida eterna”, ou seja, Jesus Cristo é o verdadeiro Deus.
Por último, analisemos algumas passagens importantes das cartas de Paulo. O primeiro, extraído da Carta aos Colossenses (2, 8-9):

Estai de sobreaviso, para que ninguém vos engane com filosofias e vãos sofismas baseados nas tradições humanas, nos rudimentos do mundo, em vez de se apoiar em Cristo. Pois nele habita corporalmente toda a plenitude da divindade.

Paulo afirma que em Cristo temos "toda a plenitude da divindade", ou seja, a Essência Divina. Cristo é Deus. Ele, como pessoa, distingue-se do Pai pela relação que tem com o Pai, sendo ele o Filho Unigênito, porém uma só é a Essência. Toda a plenitude da divindade "habita corporalmente" nele, ou seja, não por meio de uma simples ação da divindade sobre um corpo humano, senão pela união hipostática das duas naturezas, a divina e a humana. Em Cristo há duas naturezas, que não estão misturadas, na única pessoa que é a divina. Em Deus existem três pessoas iguais e distintas em uma única Essência. Deus é Trindade.
Vejamos agora a seguinte passagem (1) da Primeira Carta a Timóteo (3,16):

Sim, é tão sublime - unanimemente o proclamamos - o mistério da bondade divina:
Deus foi manifestado na carne,
justificado no Espírito,
visto pelos anjos,
anunciado aos povos,
acreditado no mundo,
exaltado na glória!


Deus foi manifestado em carne”, é o Verbo (Evangelho de João, 1,14).
E agora analisemos uma última passagem, na Carta aos Romanos (9, 4-5)

Eles são os israelitas; a eles foram dadas a adoção, a glória, as alianças, a lei, o culto, as promesas e os patriarcas; deles descende Cristo, segundo a carne, o qual é, sobre todas as coisas, Deus bendito para sempre. Amém.

Também dessa passagem conclui-se que Paulo sustentou a plena Divindade do Filho.
Quem nega a Divindade de Cristo, a qual se deduz dos textos do Novo Testamento, e a qual não é um dogma agregado na época pós-constantiniana, encontra-se, então, ante um dilema de difícil solução. Eles dizem que Jesus Cristo foi um grande sábio, senão o maior de todos os sábios. Mas, como poderia ter sido o maior dos sábios se tivesse mentido? De modo que a verdadeira identidade de Jesus Cristo, consubstancial ao Pai e ao Espírito Santo, Deus mesmo e criador do mundo, resulta clara.
Naturalmente, na vida de Jesus Cristo há vários mistérios que quem acredita aceita por fé.
No entanto, fica ainda um feito fundamental: Deus, o criador do céu e da terra, teria podido muito bem julgar a todos desde o alto, sem vir até nós, sem humilhar-se encarnando em um ser humano. Porém Deus mesmo, infinitamente misericordioso e bom, quis enviar seu Filho para redimir do pecado e pagar por nós na cruz. Deus amava de tal forma o homem que se sacrificou por ele, pagando com o sofrimento na cruz e perdoando assim todos os pecados:

Com efeito, de tal modo Deus amou o mundo, que lhe deu seu Filho único, para que todo o que nele crer não pereça, mas tenha a vida eterna. (João 3, 16).

YURI LEVERATTO
Copyright 2015

(1) Textus Receptus, King James, Reina Valera.

martes, 6 de octubre de 2015

O híbrido constantiniano


Em Esmirna, ano 155 d.C., foi condenado a morte um ancião seguidor de Cristo, cujo nome era Policarpo. Foi acusado de não ter feito sacrifícios para o imperador romano Antonino Pio. 
O procônsul Stazio Quadrato olhou Policarpo na cadeia e disse-lhe que se jurasse pela divinidade de César seria liberado. Mas Policarpo negou-se a jurar pela divinidade de um simples homem, mesmo que fosse imperador. Então, Stazio Quadrato exortou-lhe a maldizer Jesus Cristo e a negar a Deus. Somente isto devia fazer e, se tivesse feito, teria sido liberado. Porém, Policarpo não podia renegar Cristo, sua fé era sólida como pedra e não temia a morte, já que dava mais importância à vida eterna que à vida terrena.
Quando Policarpo foi queimado vivo, a gente de Esmirna pensou que com sua morte apagaria para sempre essa “detestável superstição” chamada cristianismo. Mas nos anos seguintes, o cristianismo, em vez de desaparecer, cresceu cada vez mais: a comunidade aumentava e a palavra de Cristo difundiu-se por todo império.
Mas por quem estavam formadas as primeiras comunidades de cristãos?
Além de Policarpo de Esmirna, podemos começar lembrando Ignacio de Antioquia (35-107 d.C.), Justino Mártir (100-168 d.C.), Ireneo di Lyon (130-202 d.C.), Clemente de Alexandria (150-215 d.C.), Tertuliano (155-230), Orígenes (185-254), Cipriano (210-258) e Lactâncio (250-317). As principais características das comunidades cristãs difundidas pelo mundo antigo refletiam o ensino original dos Evangelhos; os cristãos primitivos, especialmente, viviam separados do “mundo”, ou seja, separados do que era mundano. Sua fé era tão forte que qualquer coisa que reclamasse a adoração da materialidade era para eles negativa e devia ser evitada. Não eram ascetas, como por exemplo, alguns religiosos hindus que praticam a mortificação da carne e a negação do desejo, senão que viviam em contextos não mundanos, não frívolos, austeros, sem ouropeis para ser mais claro.
A adoração do dinheiro, a busca do poder e da materialidade eram conceitos que não interessavam aos cristãos do primeiro, segundo e terceiro século; ao contrário, detinham-se no conceito de compartilhar e de amar incondicionalmente aos irmãos e também às pessoas externas às comunidades: os chamados não-cristãos. 
A tal propósito, uma frase de Justino Mártir (1):

Nós que dávamos valor a adquirir riqueza e posses mais que a qualquer coisa, agora levamos o que temos a um fundo comum e compartilhamos com qualquer um que necessite. Odiávamos e nos destruíamos entre nós mesmos e nos negávamos a associar-nos com povos de outras raças ou países. Agora, por Cristo, vivemos juntos com essas pessoas e oramos por nossos inimigos.

Outra característica dos primeiros cristãos era a fé incondicional em Deus. Eis aqui uma frase de Clemente de Alexandria (2):

Uma pessoa que não faz o que Deus lhe tenha ordenado demonstra que na realidade não acredita n’Ele.

A aceitação das perseguições e a resposta pacífica até elas foi o melhor exemplo da fé absoluta que os primeiros cristãos tinham depositado na figura de Jesus Cristo. A continuação, uma passagem escrita por Lactâncio (3):

Se todos nós temos nossa origem em um homem, a quem Deus criou, claramente, todos pertencemos a uma família. Portanto, deve-se considerar uma abominação odiar a outro ser humano, sem importar que tão culpado possa ser. Por esta razão, Deus tem decretado que não odiemos ninguém, mas que eliminemos o ódio. Desta maneira, podemos confortar a nossos inimigos recordando-lhes nossa relação mútua. Porque se nos foi dada a vida pelo mesmo Deus, que outra coisa somos senão irmãos? Como todos somos irmãos, Deus ensina-nos a nunca causarmos dano um ao outro, mas somente o bem, ajudando aqueles que estejam oprimidos e passando dificuldades e dando-lhes de comer ao faminto.

A fé absoluta dos primeiros cristãos nos ensinamentos de Jesus e dos apóstolos foi demonstrada, principalmente, nas perseguições. Ser cristão era ilegal no império romano, sobretudo porque os seguidores de Cristo negavam a divindade do imperador e não faziam os sacrifícios solicitados pela cultura do tempo. Os primeiros cristãos eram conscientes de que podiam ser enviados ao patíbulo sofrendo torturas atrozes, mas estavam convencidos de que Deus não os abandonaria.
Aqui temos uma passagem das Cartas de Inácio, um seguidor de João:

É necessário, portanto, não só ser chamado “cristão”, senão ser na realidade cristão… Se não estamos preparados para morrer da mesma maneira que Ele sofreu sua vida não está em nós (4).

E eis aqui outra passagem, escrita antes de ser levado ao patíbulo:

Que tragam o fogo e a cruz. Que venham as manadas de bestas selvagens Que se quebrem e desloquem meus ossos e se separem minhas extremidades. Que venha a mutilação de todo meu corpo. De fato, que venham todas as torturas diabólicas de Satanás. Só deixem-me alcançar a Jesus Cristo! Preferiria morrer por Jesus Cristo em vez de reinar sobre os confins da terra. (5).

Foi justamente a fortíssima fé que os primeiros cristãos tinham em Deus, testemunhada inclusive no sacrifício extremo (não é gratuito que “mártir” signifique testemunha em grego), que serviu de “volante de inércia” para novas conversões e para novos mártires. A fé em Jesus Cristo, apesar das perseguições, propagava-se de maneira evidente.
Dos escritos dos primeiros cristãos pode-se deduzir que realmente eles viviam “no mundo”, inclusive “não estando no mundo”. Não tinham hierarquias, mas cada congregação era independente uma das outras, de maneira que um ensinamento errado ou uma heresia não poderia espalhar-se por todas as igrejas.
Não adoravam a riqueza material, viviam em comunidades de fieis, compartilhando suas posses com os seguidores. Não buscavam o poder terreno, mas a salvação espiritual. Não aceitavam que existissem novas revelações ou novas crenças, senão que baseavam sua fé somente nos Evangelhos e nos outros escritos do Novo Testamento. Qualquer possível dogma adjunto era uma mudança de direção e, portanto, um erro.
No ano 303 d.C., teve lugar a última perseguição contra os cristãos, mandada por Diocleciano e Galério. Ordenou-se a destruição de igrejas e a queima das Sagradas Escrituras. Decretou-se o confisco dos bens dos cristãos e a prisão de muitos deles. 
Poucos anos depois, o império romano não tinha um único chefe supremo. Flávio Valério Severo governava a Itália e a África do Norte, enquanto Constantino governava Bretanha e Gália. Outros dois líderes militares governavam a parte oriental do império. Quando Severo foi derrotado por Majêncio, Constantino declarou-se “legítimo imperador” do Império Romano do Ocidente. Mas, faltava ainda vencer a Majêncio antes de poder entrar triunfalmente em Roma.
O historiador Eusébio (265-340) narra em “Vida de Constantino” (6):

Disse que a meia noite(…) viu com seus olhos o sinal de uma cruz de luz nos céus, sobreposta ao sol, com as palavras: com este sinal serás vencedor. (In hoc signo vinces).

A batalha foi ganha por Constantino, quem atribuiu ao “Deus dos cristãos”. Não sabemos se a causa deste fato Constantino converteu-se ao cristianismo. No entanto, fez de tudo para dar vantagem aos cristãos, favorecendo-lhes e, indiretamente, corrompendo-lhes (quem sabe sem querer). Vejamos por quê.
Com o Edito de Milão (313 d.C.), o imperador Constantino e Licínio (Augusto do Oriente) decretaram a liberdade de culto para qualquer religião de todo império.

Então nós, Constantino Augusto e Licínio Augusto, havendo-nos encontrado proficuamente em Milão e havendo discutido todos os argumentos relativos à pública utilidade e segurança, entre as disposições que víamos úteis a muitas pessoas ou entre as que considerávamos prioritárias, havíamos posto as relativas ao culto da divindade com o fim de que lhes seja consentido aos cristãos e a todos os outros a liberdade de seguir a religião que cada um professe, de maneira que a Divindade que esteja no céu, qualquer que seja, a nós e a todos nossos súditos nos dê paz e prosperidade.

Assim, Constantino decidiu que toda propriedade confiscada dos cristãos durante as perseguições de Diocleciano tinha que ser devolvida. Além disso, toda casa de oração que tinha sido queimada, devia ser reconstruída por conta do Estado.
O Edito de Milão não tinha transformado a religião cristã em religião do Estado, mas é inegável que, com o tempo, o imperador tinha adotado uma forte atitude positiva aos cristãos. Constantino ordenou a construção de novas e suntuosas igrejas para poder receber mais fieis.
Prontamente deu-se conta de que a maioria dos bispos cristãos estava vivendo na pobreza. Ofereceu-lhes, então salário e proteção e permitiu que as igrejas pudessem receber bens como herança. Concedeu à instituição uma espécie de tribunal episcopal (episcopalis audientia) aos quais os cristãos podiam recorrer para dirimir suas controvérsias. Além disso, eximiu de pagamento de impostos a todos os bispos e suas propriedades.
Incrivelmente, em poucos anos os cristãos passaram de ser uma minoria perseguida a ser os favoritos da corte. Que diferença a respeito de alguns anos antes!
Foi assim como, lentamente, o espírito conservador dos primeiros cristãos se encontrou fortemente ameaçado.
Durante o período dos primeiros cristãos, por exemplo, ninguém havia pensado em pagar salários aos bispos, mas quando Constantino o fez, eles aceitaram. Ninguém havia pensado que era justo estar isentos de impostos, mas quando Constantino os eximiu, eles aceitaram. Ninguém pensava que era justo viver em um palácio suntuoso, mas quando Fausta, a segunda mulher de Constantino, concedeu la Domus Faustae (na área do Palácio Laterano) a Milcíades, bispo de Roma, ele aceitou sem reservas.
Desta maneira, os cristãos começaram a pensar que a mudança não poderia ser sinônimo de um erro e poderia acarretar melhoras.
O que obteve o imperador com todos esses favores e privilégios?
No ano 314 d.C., quando houve uma polêmica entre donatistas e católicos, ele dirimiu-a e deu aos católicos a prioridade e o reconhecimento de ser a legítima corrente da cristandade.
Constantino já não era considerado uma “divindade” como os imperadores anteriores, mas como o bispo de Roma o reconhecia, obtinha o “direito divino”, o bem, “o direito de reinar outorgado por Deus”.
O cristianismo, por outro lado, estava corrompido, tinha se misturado com a política e com os negócios do mundo. Não estava formado por um conjunto de pessoas que praticavam o culto de maneira desapegada dos bens e das cargas materiais. Pela primeira vez na história, reconhecia-se aos cristãos com prestígio social, importância, honra. Quando o cristianismo começou a ser aceito e, além disso, aportava benefícios desde o ponto de vista social, milhares de pessoas converteram-se. E o Estado aprovava. Assim, os cristãos, vendo-se aceitos e logo privilegiados, na realidade se afastaram dos ensinamentos originais de Jesus Cristo e começaram, inclusive, a perseguir a quem criticava sua nova doutrina. Lentamente, de fato, se estava dando mais importância à teologia e à doutrina que à mudança radical e interior que tinha que gerar-se em um cristão para poder ter acesso ao Reino de Deus.
No ano de 325 d.C., deu-se uma forte disputa sobre a natureza do Filho de Deus e do Pai. Os dois principais demandantes desta polêmica foram Alexandre, bispo de Alexandria, e o presbítero Ário. Constantino, que era considerado como “bispo universal”, convocou um concílio em Nicéia com todos os bispos. Ário sustentava a ideia de que o Filho de Deus não tinha a mesma natureza de Deus Pai e que tinha que ser considerado, portanto, em um plano menor, entre os Anjos e o Pai justamente. Constantino, para dirimir a disputa, decidiu incluir o termo homoousion (da mesma substância) na doutrina (7), proclamando que o Pai e o Filho eram homoousion. Esta afirmação concorda plenamente com as crenças dos primeiros cristãos e se deduz de várias passagens dos Evangelhos (por exemplo: Prólogo do Evangelho de João, João, 10, 30 ou Mateus 28, 19).
No entanto, o que urge ressaltar aqui é que as disputas sobre a doutrina tinham assumido muito mais importância que a mudança interior predicada por Cristo e, além disso, as heresias deviam ser suprimidas com uma violência inaudita. Quem foi perseguido, refiro-me aos primeiros cristãos, converteram-se em perseguidores.
Ário foi enviado ao exílio em Ilíria, todos seus escritos foram queimados e sancionou-se que quem fosse descoberto seguindo seus ensinamentos, teria que ser indiciado. É verdade que Ário e seus seguidores eram heréticos, mas isso não justificava uma repressão tão brutal. Em que momento acabou o perdão cristão?
A igreja começou a estar organizada ao modo do império, no sentido que os bispos metropolitanos tinham autoridade sobre as igrejas de sua circunscrição. Foi assim como acabou a independência de toda congregação e havia risco, então, de que uma adição errada à doutrina pudesse difundir-se velozmente. Constantino, além disso, favoreceu um processo de sincretismo com algumas religiões pagãs, numa ótica de difusão e assimilação. Em Roma, alguns templos que haviam sido consagrados a Ísis foram readaptados e dedicados à Virgem Maria e em 336 d.C. decretou-se oficialmente a data de nascimento de Jesus para o dia 25 de dezembro, numa ótica de sincretismo com alguns cultos preexistentes.
Parecia que Constantino tinha conseguido cristalizar o ensinamento de Jesus no chamado Credo Niceno e que ninguém tinha podido colocar isso em discussão nunca mais. Mas não foi assim: nos anos sucessivos houve outros concílios onde se proclamaram outros dogmas rígidos e vinculantes que, no entanto, resultavam serem acréscimos aos Evangelhos e, portanto, fórmulas acessórias, não originais.
Alguns escritores, como o americano David Bercot, referem-se a esse período como ao híbrido constantiniano, durante o qual houve um distanciamento dos Evangelhos. Foi um retorno parcial ao Velho Testamento: por exemplo, enquanto Jesus havia predicado o desapego dos bens materiais, no Velho Testamento não havia proibição de acumular riquezas e assim foi durante o híbrido constantiniano.
Depois de 325 d.C., a Igreja, já hierarquizada, reconhecia o Estado e encontrava-se presa ao poder e à doutrina.
Os cristãos viveram assim por quase três séculos, em um regime que consistia em compartilhar, ter igualdade, fraternidade e perdoar. Por três séculos viveram “no mundo”, mas não eram “deste mundo”, no sentido que não adoravam a riqueza nem desejavam nada mundano e muito menos o poder.
Os cristãos do híbrido, por outro lado, desejaram corromper-se e, lentamente, afastaram-se dos verdadeiros ensinamentos de Jesus Cristo.

YURI LEVERATTO
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Bibliografia: 
Novo Testamento, Sociedades Bíblicas Unidas.
Que falem os primeiros cristãos, David Bercot.
A vida de Constantino, Eusebio de Cesarea.