jueves, 22 de enero de 2015

O ouro de La Rinconada, o povo mais alto do mundo


Minha viagem a La Rinconada começou em Puno, a folclórica cidade do planalto andino situada a 3825 metros do nível do mar, nas margens do lago Titicaca, onde me encontrei com meu amigo, o arqueólogo Ricardo Conde Villavivencio.
Partimos às oito da manhã seguinte. Chegamos, em uma hora de viagem num pequeno ônibus, à cidade de Juliaca, de uns 250.000 habitantes. Juliaca tem crescido bastante ultimamente. É um centro comercial onde vende-se de tudo, em especial no grande mercado Tupac Amaru. Com um instável quadriciclo de pedal chegamos até o lugar de onde saem os ônibus para o povoado mineiro chamado La Rinconada.
Desde muito tempo, tinha curiosidade de conhecer como funciona uma mina de ouro e quais são os procedimentos para extrair-lo da rocha. Como La Rinconada não estava muito longe do itinerário que seguiríamos de qualquer maneira para nossa exploração arqueológica no vale do Rio Quiaca, decidimos passar ali dois dias, com o fim de conhecer uma realidade tão estranha e fascinante.
Já Juliaca, com seus 3850 metros de altura, é uma cidade particular. De dia faz mais frio que em Puno, cujo clima é atenuado pelo lago Titicaca, enquanto que de noite, o termômetro desce para -5 graus Celsius.
Os vendedores de milho torrado se amontoavam ao redor do ônibus que nos conduziria à serra, enquanto a gente tentava se acomodar, rodeados de gaiolas de galinhas e pacotes volumosos.
Às onze partimos e depois de uma hora e meia, deixamos para atrás o asfalto para pegar uma estrada sem asfalto e repleta de buracos e córregos transversais. O ônibus ia muito rápido e as vibrações eram tão fortes que os viajantes pulavam constantemente dos seus assentos e os pacotes, colocados nos portamalas superiores, caíam com frequência no chão. Em pouco tempo, o interior do ônibus ficou cheio de pó e a temperatura abaixou. O sol brilhava e lentamente ficava distante. O ar se esfriava e ficava cada vez mais escasso.
Fizemos uma breve parada no povoado de Putina para almoçar um prato feito de batata doce recheada, uma verdura típica do Perú. Logo, retornamos a partir. O ônibus cambaleava na pista empoeirada e, sinuosamente, subia ao longo da borda da montanha.
Era três da tarde quando já nos encontrávamos no planalto, a aproximadamente 4600 metros acima do nível do mar. A paisagem era lunar e à distância já se vislumbrava o Nevado Ananea de 5850 metros acima do nível do mar, cujo topo se destacava, sem sombra de dúvidas.
Em todos os arredores se podiam observar grandes buracos, como se a Terra fosse um enorme queijo gruyere. Dessas massas se extrai o mineral do qual se retira o ouro depois de um procedimento especial.
Um pouco depois nós paramos em Ananea, capital do município que compreende também La Rinconada. Ananea se encontra a aproximadamente 4800 metros acima do nível do mar. Se veêm imensos caminhões Caterpillar, escavadoras e perfuradoras, que servem para transportar grandes quantidades de mineral.
Depois de poucos minutos prosseguimos com a viagem. À direita observamos um lago, lamentavelmente contaminado. Alguns passageiros me comentaram que um tempo atrás suas águas eram limpas e com abundância de peixes. Agora, pelo contrário, o mercúrio e o antimônio, necessários para a extração do ouro, deixaram suas águas impotáveis.
Se se sobe, a visão se concentra na enorme geleira Ananea, preciosíssima fonte de água pura. Justamente abaixo da geleira está La Rinconada, a qual, estando situada a 5200 metros acima do nível do mar, é o povoado mais alto do mundo.
Pouco tempo depois, o ônibus chegou finalmente à esplanada principal. A primeira impressão de La Rinconada causa estranheza, pois parece que se está em um lugar fantasmagórico, irreal.
A dificuldade de respirar devido à altura e ao frio intenso me deu as boas-vindas a este povoado mineiro.
Surge a pergunta de por quê uma aldeia foi construída ao lado de uma geleira. A razão é simples: a maioria dos 27.000 habitantes eram pobres camponeses do planalto que se transferiram a La Rinconada com a ilusão de se enriquecer. Ocuparam um pedaço de montanha e ali construíram sua própria casa, feita de chapas de zinco, tijolos e totora.
Retiram o mineral de profundos túneis nas proximidades dos seus lares e depois o processam para extrair o ouro do mesmo. A maioria deles não está em dia com as permissões nem com os impostos peruanos e por isso, vendem o cobiçado metal a comerciantes informais que, por sua vez, o revendem nos mercados de Juliaca. 
Quase nenhum se enriquece, e os mineiros sobrevivem em um extranho universo paralelo e gélido. Na realidade, a temperatura, por causa da altitude elevada, cai para -23 graus Celsius de noite, enquanto que de dia não supera os 10 graus.
As condições de vida são espantosas, já que mesmo estando a menos de 600 metros em linha reta da enorme geleira, no povoado não tem água corrente. Para se lavar, utilizam recipientes de água gelada, a qual de noite fica congelada. A água provém de Ananea, porém não está canalizada em tubos, mas se vende em cubos. Alguns tentam acumular nos tetos das suas cabanas, porém o zinco de que estão fabricados a contaminam e quem bebe dessa água, evidentemente, se arrisca.
Também, incrivelmente, em La Rinconada não tem rede de esgoto. Existem banheiros públicos, que na realidade são "poços pretos", os quais devem ser esvaziados com frequência. Não se entende como é possível, para um povoado construído literalmente numa mina de ouro, não tem água corrente nem rede de esgoto, entretanto, me disseram que as pessoas de lá são individualistas, é dizer, cada um pensa em si mesmo e ninguém nunca se reuniu para formar um comitê que se dedique a melhorar o povoado.
Outro aspecto desconcertante da vida deste centro mineiro é a falta completa de algum tipo de calefação. Para dizer a verdade, também em Juliaca ou em Puno (cidades bem mais frias), nenhuma utiliza calefação central nem simples fogões a lenha. Para Ricardo e para mim, ao contrário, não foi difícil nos acomodar em um quarto de 2 x 1,5 metros. Para urinar se deve sair (muito ajuda o clásico penico de noite), porém, teoricamente, para outras necessidades, se tem que ir ao banheiro público, localizado na rua, a uns 200 metros do hotel.
Os problemas de viver em um povoado da mina de ouro mais alto do mundo não se acabaram: a maioria das pessoas construíram sua própria casa precariamente sem as fundações apropriadas e, por isso, o perigo de que se desmoronem ou deslizem é constante. No povoado não existe um serviço para descartar dos resíduos, porém, parece que ninguém se importa, já que perto da escola tem um grande despejo de lixo onde as crianças brincam com cachorros, lamas e alpacas.
A situação sanitária é precária, tendo em conta que muitos mineiros sofrem de cólicas, fortes dores de cabeça e náuseas por causa do mercúrio utilizado no processo de extração do ouro. Muitas crianças têm diarréia crônica por falta de água corrente e serviços de higiene básica.
Pela tarde, demos uma volta pelo povoado, tratando de encontrar uma forma de continuar a viagem. Na realidade, não tinha serviço público de transporte para viajar a nossa meta seguinte, ou até o vale de Quiaca, então tivemos que procurar uma passagem no meio de alguns caminhoneiros.
Andando pelo povoado, lá pelas 10 da noite, nos demos conta de que a maioria dos escuros antros iluminados por sombrias luzes vermelhas eram sórdidos prostíbulos onde frequentemente trabalham jovens menores de idade que são trazidas de várias cidades do Peru. Caminhar de noite em La Rinconada não é muito seguro porque existe pouco policiamento e muito alcoolismo. Existem constantes brigas que as vezes terminam em esfaqueamentos.
Ricardo e eu preferimos ficar em nossos respectivos "cubículos congelados", esperando dormir o mais rápido possível. Por azar, a falta de oxigênio, o frio de morrer e os constantes gritos dos vendedores de passagens de ônibus até Juliaca, não nos permitiram conciliar com o sono.
No dia seguinte, visitamos um dos laboratórios onde se obtém o precioso metal amarelo. Em La Rinconada existem várias cooperativas cujos sócios são os comerciantes das diferentes galerias subterrâneas. A vida de trabalho dos mineiros se rege sistema de semiescravidão, que consiste em trabalhar para os chefes por um número de dias, a troca de poder o fazer por sua conta própria um dia inteiro, conseguindo, desta maneira, ficar com o mineral extraído da montanha para processar-lo depois.
O mineral obtido depois de horas inteiras de pás e picaretas é submetido a um procedimento particular. Inicialmente, é esmagado em argamassas especiais para o separar das pedras. Em seguida se agrega o mercúrio, que se adere ao ouro formando uma amálgama. Aquecendo-a novamente, se obtém finalmente o ouro, uma vez que este se separa do mercúrio quando o submetem a elevadas temperaturas. Em geral, depois deste processo, se obtém um grama de ouro de aproximadamente 50 quilos de material.
Pela tarde, demos uma volta pelo mercado de La Rinconada, onde se vende carne de galinha, cerveja, batatas, quinoa, mas, também, camisetas, edredons, cobertores, botas e instrumentos para cavar: pás, picaretas, capacetes, cordas, luzes etc. Com frequência, estes negócios são propriedade dos mesmos vendedores que compram ouro a preços extremamente baixos, com o fim de lucrarem posteriormente das revendas nas cidades.
La Rinconada parece ser um círculo vicioso, onde ninguém consegue se enriquecer porém todos sobrevivem, um grotesco ciclo dantesco onde cada um sonha com sua El Dorado resplandescente, para depois encontrar, na verdade, com a dura realidade de uma vida de privações, na total carência de segurança de trabalho, social e saúde.

YURI LEVERATTO
Copyright 2009

Teyuna, a cidade perdida dos Tayrona


A "Sierra Nevada" de Santa Marta, na Colômbia, é um imenso sólido montanhoso com uma extensão de 17.000 quilômetros quadrados. Os topos mais altos da Sierra são o pico Colón e o pico Bolívar, os quais, com 5775 metros de altura, são as mais altas da Colômbia. São, ainda, os topos mais altos do mundo perto do mar, do qual separam no máximo 42 quilômetros.
Na Sierra Nevada de Santa Marta se apresentam todos os climas da Terra, excetuando o desértico.
A zona foi habitada desde épocas remotas, porém, a partir da era de Cristo, os Tayrona, um povoado de origem mesoamericana, que se expressavam em chibcha, se estabeleram ali.
Os Tayrona não conheciam a escrita, nem o uso da roda ou da utilização dos animais. Entretanto, tinham exercido a agricultura em larga escala, que permitia a obtenção de produção excedente.
Viviam em vários assentamentos: o mais conhecido hoje é conhecido pelo nome de Pueblito (povinho, em português), no parque Tayrona. Era um dos maiores, com aproximadamente 1000 cabanas. As cabanas de barro eram construídas em conjunto sobre bases circulares delimitadas por muros de contenção de pedra.
Outros assentamentos, hoje perdidos, eram Bonda, Pocigueica, Tayronaca e e Betoma, todos situados em locais afastados da costa. No interior da Sierra Nevada, a uma altura de aproximadamente 1200 metros acima do nível do mar, estava situada, ao contrário das demais, Teyuna, centro espiritual e comercial de importância primordial.
Para chegar a Teyuna é necessário caminhar pelas estreitas trilhas da Sierra Nevada.
A primeira parada da viagem ocorre em Mamey, um pequeno povoado de colonos ao qual se chega por uma estrada sem asfalto. De Mamey continua caminhando, escalando para cima e para baixo os caminhos da Sierra. Desde o primeiro dia de percurso via-se a exuberante vegetação, o bosque tropical e se tem contato com o povo dos Kogui, descendentes dos Tayrona. 
No segundo dia prossegue a viagem, entrando no vale do rio Buritaca. Se visita Mutanji, o país dos Kogui e pode ter contato com estes indígenas, que até hoje falam o chibcha e seguem as tradições ancestrais dos Tayrona.
No terceiro dia continua-se a viagem e depois de ter atravessado uma dezena de vezes o rio Buritaca, com a água à cintura, chega-se a um ponto onde se vê uma escada íngreme, construída pelos Tayrona. São aproximadamente 1200 degraus antes de chegar em Teyuna e poder vislumbrar os primeiros terraços delimitados por muros de contenção de pedra que serviam como suporte às cabanas.
Teyuna em língua chibcha significa origem dos povos da Terra, porém o nome popular deste importante depósito arqueológico é cidade perdida. Teyuna permaneceu, na realidade, abandonada e esquecida durante aproximadamente 375 anos, até a data do seu descobrimento em 1973. As vezes a chamam também de Buritaca 200, em referência ao número de lugares arqueológicos descobertos na área da Sierra Nevada de Santa Marta.
Depois das incursões dos espanhóis na zona costeira de Santa Marta, a partir de 1525, os Tayrona adentraram cada vez mais na Sierra Nevada e provavelmente se refugiaram em Teyuna em torno de 1540.
No vale do rio Buritaca, numa zona compreendida entre 500 e 2000 metros de altitude, foram encontrados 32 centros urbanos. Alguns contam com apenas 50 terraços, delimitados por muros de contenção. Outros, como Teyuna, contam com uns 140 aterros. Estes assentamentos são: Tigres, Alto de Mira, Frontera e Tankua.
Teyuna, cujas estruturas de pedra se encontram a uma altura compreendida entre 900 e 1200 metros acima do nível do mar, era o centro principal da totalidade do vale e cumpria um papel espiritual e comercial.
Provavelmente em cada terraço estavam construídas duas cabanas. Se pode estimar, assim, que a população total de Teyuna era composta de 1500 pessoas, por um total de 280 cabanas.
Os Tayrona decidiram, com o passar do tempo, modificar o terreno, íngreme e acidentado, para obter superfícies planas aptas para a construção de suas unidades residenciais.
Algumas paredes de Tayrona têm uma altura de até 9 metros e além de conter os terraços, servem para marcar os caminhos, canalizar os fluxos de água e evitar a erosão das montanhas. A forma dos terraços variam segundo a localização e provavelmente segundo o uso ao qual estavam destinados. Aqueles situados mais altos são ovais, enquanto que os outros são, na sua maioria, semicirculares ou circulares. Sua extensão varia de 50 até 880 metros quadrados.
Na Sierra Nevada o regime de chuvas é abundante: de 2000 à 4000mm anuais. Os arquitetos Tayrona se viram obrigados a aperfeiçoar as técnicas para controlar o fluxo de água. Foram construídos canais subterrâneos que funcionam até hoje. Igualmente, a superfície dos terraços tem um gradiente médio de 10% para o exterior. 
A economia dos Tayrona, baseada na agricultura, permitiu dar suporte à densa população da Sierra Nevada por aproximadamente 700 anos, em um período compreendido entre o século IX até o fim do século XVI da era de Cristo. Depois da análise e do estudo das tradições dos Kogui, descendentes dos Tayrona, se deduz que Teyuna foi abandonada em torno de 1600 e que permaneceu esquecida, exatamente, durante mais de três séculos. Provavelmente houve a difusão de epidemias que obrigaram os Tayrona a abandonarem sua cidade e se dispersarem em pequenos assentamentos ao longo do vale, de difícil acesso aos espanhóis.
Com o tempo, os nativos da Sierra Nevada deixaram de visitar Teyuna, embora nas tradições dos Kogui a exata localização da cidade estivesse cuidadosamente guardada.
Em torno de 1970, alguns camponeses que colonizaram a parte baixa da Sierra Nevada, até aproximadamente 700 metros acima do nível do mar, souberam das possibilidades de encontrar grandes tesouros. Em pouco tempo, alguns deles se organizaram e, sem nenhuma preparação arqueológica, se dedicaram ao saque das tumbas Tayrona, atividade ilegal chamada guaquería.
Os guaqueros entraram cada vez mais ao interior da Sierra até que, em 1973, um deles, Julio César Sepúlveda, chegou à cidade perdida e começou a saqueá-la. Quase contemporâneo, outro guaquero, Jorge Restrepo, chegou junto com seus homens a Teyuna e se dedicou aos saques. Os bandos se enfrentaram e os líderes morreram no sangrento combate. A história voltou a se repetir. Depois de quase 500 anos do desembarque dos primeiros europeus na América, a mania de se enriquecer com o ouro sepultado nas tumbas indígenas continuou fazendo vítimas.
Os saques persistiram. Em Santa Marta, em 1975, havia comerciantes sem escrúpulos que organizavam as expedições dos guaqueros para a Sierra Nevada. Aqueles forneciam os equipamentos necessários: mulas, armas, lâminas, alimentos e obtinham de retorno a obrigação dos guaqueros de vender só para eles as descobertas arqueológicas, muitas vezes de inestimável valor histórico e artístico.
As descobertas eram então revendidas no mercado internacional e perdidas para sempre.
Por sorte, este infame comércio foi interrompido em 1976, quando uma expedição científica organizada pelo Instituto Colombiano de Antropologia chegou até Teyuna e iniciou um processo de valorização, restauração e conservação das descobertas e dos terraços da cidade.
Cinco pessoas chegaram a Teyuna em 1976: os arqueólogos Gilberto Cadavid e Luisa Herrera de Turbay, o arquiteto e escritor Bernando Valderrama Andrade e os guias locais Francisco Rey e "O Negro" Rodríguez.
Após os seus trabalhos de escavação nos terraços de Teyuna, eles descobriram coisas muito importantes, como jóias de ouro e copos de cerâmica esculpidos. Foram encontrados também algumas espadas e alabardas espanholas, porém não está claro se alguns grupos de espanhóis chegaram a Teyuna ou se essas armas foram sepultadas nas tumbas como troféus de guerra.
Hoje Teyuna está aberta e disponível para todos. O governo colombiano protege este maravilhoso lugar de mais saques.

YURI LEVERATTO
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