lunes, 14 de diciembre de 2015

O Cristianismo antigo: a idade patrística pré-nicena

 

O Cristianismo antigo começou com a Ressurreição de Jesus e difundiu-se de Jerusalém por todo o mundo antigo através da ação infatigável dos Apóstolos e dos demais seguidores de Cristo. Os documentos mais significativos que se descreve a idade apostólica, ou melhor, o período da Ressurreição até a morte de João, são os Atos dos Apóstolos, as Cartas de Paulo e as outras obras que formam o Novo Testamento. No entanto, existem outros documentos, como a primeira carta de Clemente de Roma, onde se descrevem alguns fatos da idade apostólica, por exemplo, o martírio de Pedro e a infatigável obra de evangelização de Paulo (1).
Durante o primeiro século d.C., os cristãos foram perseguidos duramente, já que não reconheciam a “divindade” do imperador e predicavam o Evangelho de Cristo, afirmando que somente a fé nele e o arrependimento dos próprios pecados levariam à salvação e, portanto, à vida eterna. Tudo isso estava em forte contradição com a religião e com a cultura romana, que via o ser humano como um simples animal desenvolvido e não como um ser sagrado, situado no centro do projeto divino.
As perseguições contra os cristãos começaram sob o mando do imperador Nero. O imperador Vespasiano, depois das guerras judaicas, ordenou buscar a todos os descendentes da estirpe de Davi. Logo, Domiciano voltou a perseguir os cristãos com inaudita ferocidade.
Depois da morte de João, o apóstolo de Jesus Cristo que viveu mais tempo, passado aproximadamente o ano 100 d.C. em Éfeso, não havia ninguém que tivesse conhecido o Salvador do mundo.
O Cristianismo, no entanto, a pesar das terríveis perseguições romanas, sobreviveu, inclusive difundiu-se “como fogo em bosque seco”.
Como foi possível?
Quem foram os sucessores dos Apóstolos e qual era seu estilo de vida?
Por que conseguiram aceitar a nova fé em Deus as massas de pessoas que até poucos anos reconheciam como divino o imperador ou adoravam ídolos?
Primeiro que tudo, temos que considerar que as igrejas cristãs que surgiram no século I e que logo se desenvolveram no século seguinte, não estavam organizadas em um modo hierárquico; na prática, não havia um “Papa” ou chefe da cristandade. Contrariamente ao que se possa pensar, o sucessor de Pedro, que se chamava Lino, não era o chefe da Igreja cristã, já que era somente o chefe da Igreja cristã de Roma.
Cada cidade tinha seu bispo: Alexandria do Egito, Éfeso, Antioquia, Jerusalem, Olimpo, Filipos, Corinto, Cartago etc.
A independência de cada congregação das demais tornava, então, impossível que qualquer ensinamento errôneo, ou seja, diferente da palavra do Senhor, e que qualquer novo dogma se estendesse a outras comunidades. Além disso, os bispos não tinham sido educados fora das comunidades onde professavam, pois tinham crescido dentro delas, eram conhecidos por todos e a todos deviam responder por suas ações.
Como a crença cristã exige mudanças radicais não somente em palavras, mas também em atos, os bispos que predicavam essa mudança de paradigma deviam demostrar com os atos que eles estavam dispostos antes que ninguém a deixar tudo por Jesus Cristo. Não somente deviam demostrar que viviam de forma irrepreensível e aprazível, como deviam abandonar suas propriedades materiais para doá-las à comunidade, compartindo os bens, tendo que estar dispostos a antepor a Cristo inclusive a suas vidas.
E foi isso que fizeram: de fato, a maioria dos bispos e dos sábios cristãos que viveram depois da morte de João, na chamada “idade patrística”, morreram martirizados, dando um testemunho extremo (mártir significa testemunho em grego) de Jesus Cristo. Refiro-me, por exemplo, a Clemente de Roma (morto no ano 100 d.C.), Inácio de Antioquía (35-107 d.C.), Policarpo de Esmirna (69-155 d.C.), Justino Mártir (100-168 d.C.), Ireneo de Lyon (130-202 d.C.), Hipólito de Roma (170-235 d.C.), Orígenes (185-254 d.C.), Cipriano (210-258 d.C.), Metódio de Olimpia (250-311 d.C.).
Sua principal força, então, foi a fé inquebrantável em Cristo e a demonstração com o martírio.
Sobre o processo de nominação de um novo bispo, analisemos um escrito de Cipriano (2):

Deve ser escolhido em presença da gente e deve demostrar que é digno e apropriado mediante juízo e testemunho público (…). Para uma ordenação apropriada, todos os supervisores vizinhos da mesma província devem reunir-se com a congregação. O supervisor deve ser escolhido em presença da congregação, já que eles conhecem sua vida e costumes.

E sobre a integridade e moralidade dos cristãos, leiamos una parte de um escrito de Inácio (3):

É necessário, portanto, não só ser chamado “cristão”, mas ser na realidade cristão (…). Se não estamos preparados para morrer da mesma maneira que Ele sofreu, sua vida não está em nós.

Outra característica dos primeiros cristãos era a chamada separação do mundo.
Vejamos a tal propósito as célebres passagens do Evangelho de João (15, 18-19):

Se o mundo os odeia, saibam que odiaram a mim antes que vocês. Se vocês fossem do mundo, o mundo amaria o que é seu; mas como não são do mundo, já que Eu os escolhi entre o mundo, o mundo os odeia.
De fato, os primeiros cristãos demostraram não estar interessados nas tentações do mundo. Não estavam interessados no dinheiro, nem no poder. Viviam no mundo e, no entanto, não faziam parte dele. Foi somente a partir do chamado híbrido constantiniano que as coisas mudaram. Nos 280 anos que vão justamente da Ressurreição ao edito de Milão, os cristãos viveram em contextos nem frívolos, nem mundanos, senão mais bem austeros. Não é que não foram felizes, que fique claro, já que sua alegria provinha da fé e não certamente das posses materiais ou do poder terreno. Vejamos a tal propósito, dois escritos de Hermas, irmão de Pio, bispo de Roma:

(4):
De fato, estes são os que têm fé, mas também têm as riquezas deste mundo. Quando vem a prova, negam ao Senhor devido a suas riquezas e negócios… Por conseguinte, aqueles que são ricos neste mundo não podem ser úteis ao Senhor a menos que se reduzam primeiro suas riquezas. Em seu caso, aprendam primeiro isto. Quando vocês eram ricos eram inúteis. Mas, agora, são úteis e aptos para a vida.

(5):
Abstenham-se de tanto negócio e evitem o pecado. Aqueles que estão ocupados com tantos negócios cometem também muitos pecados e seus assuntos de negócios fazem que se distraiam, em vez de servir ao Senhor.

Precisamente a separação dos prazeres mundanos, ou seja, do aparentar, do mostrar-se, do culto da posse, não fizeram mais que reforçar sua atitude em ajudar e amar ao seu próximo, fosse cristão ou não cristão.
Vejamos a tal propósito uma citação de Justino Mártir (6):

Nós, que dávamos valor a adquirir riqueza e posses mais que a qualquer outra coisa; agora levamos o que temos a um fundo comum e o compartilhamos com qualquer que o necessite. Odiávamos e nos destruíamos entre nós mesmos e nos negávamos a associar-nos com povos de outras raças ou países. Agora por Cristo, vivemos junto a essas pessoas e oramos por nossos inimigos.

Eis aqui como Clemente de Alexandria descrevia o bom cristão (7):

Empobrece-se a si mesmo por causa do amor de modo que está seguro que nunca passará por cima de um irmão necessitado, em especial se sabe que pode suportar a pobreza melhor que ele. Da mesma maneira considera a dor de outro como sua própria dor. E se sofre alguma dificuldade, não se queixe.

Dessas e outras citações dos textos patrióticos resulta, portanto, que os cristãos do segundo e do terceiro século dedicavam-se realmente ao próximo, não somente ao próximo cristão, que fique claro. Outra de suas características era o fato de que não costumavam levar a juízo um “irmão” seu, senão que tentavam dirimir as controvérsias de modo tranquilo, com diálogo e compreensão.
Seu espirito ultraconservador levava-os, além disso, a considerar que não devia ter nenhuma nova revelação depois dos textos do Novo Testamento. Qualquer possível mudança ou acréscimo aos textos sagrados era, portanto, vista como um grave erro.
Como podiam viver os primeiros cristãos dentro de sociedades, a romana e a grega, profundamente corruptas, tanto desde um ponto de vista moral como dos costumes sexuais?
Os cristãos encontravam-se, literalmente, nadando contra a corrente.
Primeiro que tudo, o fato mesmo de não fazer os sacrifícios rituais aos deuses pagãos ou de não queimar incenso em honra ao “gênio” do imperador, que era reconhecido como o “deus” protetor dos romanos, era já por si só uma situação que os expunha à morte. De fato, muitas perseguições contra os cristãos tiveram origem justamente no obstinado repúdio dos cristãos a submeter-se a rituais que, para eles, não tinham sentido.
Os primeiros cristãos estavam, no entanto, também em contraste com a cultura da época e não somente com a religião grega ou romana. Tomemos por exemplo o caso do aborto: na Roma imperial, era una prática comum e tolerada. A vida humana, de fato, não era considerada sagrada, não se via como o projeto de Deus que devia ser preservado a qualquer preço.
O ser humano era considerado somente um animal que tinha desenvolvido qualidades intelectuais particulares, mas não era visto num plano superior ao dos outros seres vivos. Portanto, o feto podia ser destruído sem problemas, exatamente como alguns escravos que eram arremessados na areia à mercê de bestas ferozes, somente por diversão das massas.
Os primeiros cristãos opunham-se tenazmente a tudo isso. A tal propósito, vejamos um escrito de Tertuliano (8):

No nosso caso, já que o assassinato está absolutamente proibido em qualquer de suas formas, nem sequer poderíamos destruir o feto no útero (…) deter um nascimento é simplesmente uma forma mais rápida de matar. Não importa se quitamos uma vida que nasce ou se destruímos uma vida que ainda não nasceu.

Os primeiros cristãos estavam, obviamente, contra a instituição da escravidão, já que no ensinamento de Cristo, todos os homens são livres e nenhum deve prevalecer ou dominar o outro.
Eis aqui uma citação de Lactâncio, que sanciona este conceito (9):

Ante os olhos de Deus, ninguém é escravo, ninguém é amo. Já que todos têm o mesmo Pai, somos por igual seus filhos. Ninguém é pobre ante os olhos de Deus exceto o que carece de justiça. Ninguém é rico exceto o que está cheio de virtudes.

Vejamos agora quais eram as crenças dos primeiros cristãos em relação ao batismo. Pensavam que o batismo purificaria os pecados de uma pessoa? Pensavam, quem sabe, que sem batismo uma criança seria condenada? Absolutamente. Para os primeiros cristãos, o batismo não era considerado um ritual mágico que podia salvar uma pessoa, a menos que estivesse acompanhado da fé em Jesus Cristo e do verdadeiro arrependimento dos próprios pecados. Em prática, o batismo atuado sem fé, não tinha nenhum valor. Portanto, sustentavam que as crianças não batizadas que morriam na infância podiam salvar-se, diferente do dogmático Agostinho de Hipona (354-430 d.C.).
Vejamos, com esse propósito, uma passagem de Justino Mártir, em sua obra “Diálogo com Trifão” (10):

Não há outra forma (de obter as promessas de Deus) que esta: conhecer a Cristo, ser banhado na fonte da que falava Isaías para a remissão dos pecados e, por último, viver uma vida sem pecado.

Que sustentavam os primeiros cristãos a propósito da salvação?
Segundo a maioria dos historiadores, entre os quais o estadunidense David Bercot, durante o cristianismo antigo, o bem, tanto na era apostólica como na era patrística, acreditava-se que a fé em Deus era absolutamente essencial para a salvação e que sem a graça de Deus, nenhum podia salvar-se.
No entanto, no curso dos séculos seguintes desenvolveram-se abundantes diatribes entre os que sustentavam a salvação pela fé e os que apoiavam a salvação através das obras. Segundo estas duas tendências, então, ou a salvação é um presente de Deus ou se consegue através de boas obras.
Estas polêmicas, no entanto, foram introduzidas pelo dogmático Agostinho de Hipona e logo por Martim Lutero, e não existiam nos tempos do cristianismo antigo.
Os cristãos dos primeiros três séculos tinham claro que somente através da fé absoluta pode-se obter a salvação. Seu raciocínio considerava, naturalmente, que uma fé sem obras não é verdadeira fé. Mas, vejamos algumas citações dos primeiros cristãos da idade patrística para tal propósito, Clemente de Roma por exemplo (11):

E nós, portanto, que por Sua vontade fomos chamados em Jesus Cristo, não somos justificados por nós mesmos. Nem por nossa própria sabedoria, nem entendimento, nem piedade, nem obras feitas em santidade de coração. Senão por essa fé, através da qual Deus todo poderoso tem justificado a todos os homens desde o princípio.

O mesmo Clemente, no entanto, exorta a cumprir boas obras (12):

Que faremos, ó irmãos? ¿Cessaremos de fazer o bem e descuidaremos a caridade? Nunca permita o senhor que isso suceda entre nós, pois com zelo e ardor nos esforcemos em cumprir qualquer boa obra.

Da mesma maneira, consideremos duas citações de Policarpo, o discípulo de João. Na primeira, transmite uma célebre passagem da Carta aos Efésios de Paulo (13):

Muitos desejam entrar na sua glória, sabendo que: “Pela graça vocês foram salvos, mediante a fé; isso não procede de vocês, pois é presente de Deus, não por obras, para que ninguém se gabe” (Efésios 2, 8-9).

Na segunda citação, no entanto, o mesmo Policarpo exorta a fazer obras de bem (14):

Aquele que se levantou entre os mortos também nos levantará, se fazemos sua vontade e seguimos seus mandamentos e amamos o que ele ama mantendo-nos longe de toda corrupção.

Agora vejamos o pensamento de Clemente de Alexandria, a respeito da salvação através da fé (15):

Abraão não foi justificado por suas obras, senão pela fé (Romanos 4, 3). Portanto, mesmo se realizam boas obras agora, não lhes aproveita depois da morte, se não têm fé.

O mesmo Clemente, no entanto, afirma (16):

Quem obtenha a Verdade e se distinga por suas boas obras ganhará o prêmio da vida eterna (…). Algumas pessoas entendem de forma aceitável como (Deus provê o poder necessário), mas ao dar-lhe pouca importância às obras que levam à salvação, não se preparam o suficiente para conseguir os objetos da sua esperança.

Nesta última passagem, Clemente confirma que “depois de ter reconhecido a Verdade”, ou seja, depois de ter afirmado a Verdade em Cristo, aquele que crê deve fazer boas obras para obter a vida eterna.
Dessas citações deduz-se, portanto, que os primeiros cristãos davam prioridade à fé em Cristo para alcançar a salvação. Para eles, não havia nenhuma diatribe entre fé e obras, justamente porque se a fé é verdadeira, deve necessariamente incluir boas obras.
De tudo isso, portanto, chegamos à conclusão de que o mundo grecorromano e a cultura dos primeiros cristãos, derivada obviamente de sua fé em Cristo, eram dois planetas opostos que irremediavelmente tinham que enfrentar-se. Um dos dois englobaria o outro. E assim foi de fato: o mundo antigo grecorromano desapareceu e foi transformado na civilização cristã, mesmo que, no período do híbrido constantiniano, tenha sido parcialmente diluída e corrompida.

YURI LEVERATTO
Copyright 2015
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3. Que seja agregado visivelmente depois do título e ao final do artigo: obra de Yuri Leveratto.
Bibliografia: Bercot, David. Que falem os primeiros cristãos.

Notas:
(1) Há, além disso, outros testemunhos que descrevem o martírio de Paulo, quando estava baixo domínio do imperador Nero, como a Carta aos Romanos de Dionísio, bispo de Corinto. Eis aqui seu testemunho:
“Portanto, você, mediante sua urgente exortação, tem estabelecido muito estreitamente a semeadura de Pedro e Paulo em Roma e em Corinto, pois ambos plantaram a semente do Evangelho também em Corinto e juntos instruíram-nos, tal como em forma similar ensinaram no mesmo lugar da Itália e sofreram o martírio ao mesmo tempo.”
Ou como o testemunho de Gaio, que viveu em Roma nos tempos do bispo Ceferino. Ele, em um escrito contra Proclo, chefe da seita do montanismo, diz a propósito dos lugares onde foram postos os sagrados despojos dos apóstolos:
“Mas eu posso mostrar os troféus dos Apóstolos. Se pensam por bem ir ao Vaticano ou ao caminho de Óstia, acharão os troféus daqueles que fundaram esta Igreja".
Estes dois testemunhos foram extraídos da História Eclesiástica de Eusébio.
(2) Cipriano, Lettera alla congregazione della Spagna (epístola 67, cap. 4, 5)
(3) Ignazio, Lettera ai Magnesi, cap. 5
(4) Erma, Il pastore di Erma, tomo 1, vis.3, cap.6
(5) Erma, Il pastore di Erma, tomo 3, sim.4
(6) Giustino, prima apologia, cap.14
(7) Clemente di Alessandria, Miscellanea, tomo 7, cap. 12
(8) Tertulliano, Apologia, cap.9
(9) Lattanzio, Istituzioni divine, tomo 5, cap.15/16
(10) Giustino, Dialogo con Trifone, capitolo 44
(11) Prima Lettera di Clemente, cap. 32, 4
(12) Prima Lettera di Clemente, cap. 33, 1
(13) Policarpo, Lettera ai Filippesi, cap. 1
(14) Policarpo, Lettera ai Filippesi, cap. 2
(15) Clemente, Miscellanea, tomo 1, cap. 7
(16) Clemente, uomo ricco, cap. 1, 2

martes, 17 de noviembre de 2015

Cristo não é Hórus e o Cristianismo antigo é uma religião original


Há muitos anos está em curso um processo organizado que tem o fim de globalizar o planeta tanto de um ponto de vista cultural como econômico.
Quem persegue o objetivo de homogeneizar as culturas e as religiões tem interesse em uniformizar as diferentes crenças para torná-las similares, sincretizando-as. Frequentemente, se escuta dizer que “todas as religiões são iguais”, porque todas praticam o amor e a paz. Porém, é realmente assim?
Segundo esse projeto, financiado e favorecido, sobretudo, por correntes maçônicas, a religião cristã seria comparável a cultos solares preexistentes e, portanto, os Evangelhos não seriam originais, senão que se trataria de relatos alegóricos sem fundamento histórico. Neste artigo, proponho-me a demostrar que estas teses estão erradas e que o Cristianismo antigo é uma religião original.
Primeiramente é de fundamental importância distinguir entre o Cristianismo antigo e o Cristianismo pós-constantiniano.
Se houve uma solarização, ocorreu, então, no século IV, para sincretizar e obter a aceitação das massas, mas sem tem a ver com o Novo Testamento.
Vejamos por que: na mitologia egípcia, Osíris e Ísis casam-se. Osíris é morto por Seth (seu irmão malvado), que lhe despedaça o corpo. Ísis ressuscita Osíris e de sua união nasce Hórus, o Deus do Sol.
Frequentemente, quem sustenta a teoria do “mito de Jesus”, compara Ísis com Maria e Jesus com Hórus. Porém, em João 1, 1-5, está escrito que Jesus é o Verbo, criador do universo e, portanto, também do sol; enquanto Hórus é conhecido como Deus-Sol.
Há também em alguns escritos uma suposta relação de Osíris com Jesus, mas Jesus não foi esquartejado; segundo João, de fato, não se rompeu nenhum osso (João 19, 36) e não foi Maria (Ísis) quem o ressuscitou, senão que ele mesmo ressuscitou porque venceu a morte, sendo Deus (Lucas 24, 6).
Segundo alguns autores, como Acharia S., no Evangelho de Lucas haveria uma “solarização”. De modo evidentemente forçado, associa-se a João Batista com Seth (mito lunar) e Jesus com Hórus (mito solar). Vejamos a passagem do Evangelho de Lucas (1, 26-31) utilizado por esses escritores para seu raciocínio:
Aos seis meses, Deus mandou o anjo Gabriel a um povo da Galileia chamado Nazaré, para visitar uma mulher virgem chamada Maria, que estava comprometida para casar-se com um homem chamado José, descendente do Rei Davi. O anjo entrou no lugar onde ela estava e disse: - Saúdo a ti, favorecida de Deus! O Senhor está contigo. Maria surpreendeu-se dessas palavras e perguntava-se que significaria aquele saúdo. O anjo disse-lhe: - Maria, não tenhas medo, pois tu gozas do favor de Deus. Agora, ficarás grávida: terás um filho, e lhe porás o nome Jesus.
Dessa passagem e da passagem precedente deduzimos que Jesus foi concebido (pelo Espírito Santo) seis meses depois de João Batista.
Além disso, tais autores sustentam que João Batista (pôr-do-sol) nasceu no solstício de verão, seis meses antes do nascimento de Jesus, que é em 25 de dezembro, ou seja, o solstício de inverno. Fazendo um raciocínio errado, afirmam que tanto João Batista como Jesus são alegorias de Seth e Hórus respectivamente e que, portanto, não existiram na realidade, pois são somente avatares.
Pareceria um axioma perfeito, mas possui um profundo erro.
No Evangelho de Lucas não está escrito que Jesus nasceu em 25 de dezembro. E nem sequer nos outros escritos do Novo Testamento. De solarização, então, não há rastro nos Evangelhos.
A data de 25 de dezembro como oficial do nascimento de Jesus foi introduzida no ano 336 d.C., quando Constantino efetivou sua solarização, como se sabe, para atrair e reunir as massas.
Assim, demostra-se que a teoria de “João Batista/Seth/pôr-do-sol” e “Jesus/Hórus/sol nascente” existe somente na cabeça de tais escritores, enquanto que os Evangelhos refletem uma religião original que é justamente o Cristianismo antigo.
Em geral, esses supostos expertos históricos como Acharia S. baseiam suas teses sobre Hórus (o Deus do Sol) no “Livro dos Mortos”, um texto funerário egípcio escrito a partir de 1550 a.C. Na realidade, entretanto, no texto há pouca informação sobre Hórus. A maioria das fontes sobre Hórus é popular, procede, dessa forma, de provérbios não escritos que surgiram no transcurso de ao menos três milênios (de 3100 a.C. a 100 a.C.).
Segundo a tese dos que sustentam a teoria de Jesus-Hórus, Ísis era virgem como Maria e, portanto, a história dos Evangelhos seria uma cópia de um mito precedente.
Porém, o mito de Hórus conta que Osíris, o marido de Ísis, foi morto e esquartejado por Seth. Ísis encontrou todos os pedaços do corpo desmembrado de Osíris exceto o pênis, que foi jogado no rio Nilo. Com seus poderes, Ísis devolveu a Osíris a vida e recriou seu falo (de ouro ou madeira, simbolismo fálico), com o fim de conseguir engravidá-la e conceber a Hórus. Portanto, Ísis não era virgem e não é, dessa forma, igual a Maria.
O fato de que logo, em Roma, no século IV, alguns templos em honra a Ísis foram readaptados e dedicados à virgem, entra, portanto, na solarização e no processo de sincretismo operado por Constantino, mas não tem nada a ver com o Cristianismo antigo.
A terceira tese de quem apoia a teoria Jesus-Hórus é que Jesus foi batizado por João Batista exatamente como Hórus, que foi batizado por Anup, logo depois decapitado. Então, uma vez mais, os Evangelhos seriam cópias de mitos pré-existentes. Porém, na antiga mitologia egípcia, não existe nenhum Anup.
Esta história provém de falsificações banais de Gerald Massey, um autor do século XIX que não tem nenhum crédito entre os especialistas sérios de egiptologia. Essas teses foram logo retomadas por Acharia S. em seu livro “Cristo no Egito, a conexão Hórus-Jesus”. Nesse livro, Acharia S. faz um paralelo entre o deus egípcio Anúbis y “Anup o Batizador”. É possível que em algumas esculturas e pinturas egípcias tenha representação de rituais de lavagem, mas nem no Livro dos Mortos, nem nas esculturas, baixos-relevos ou pinturas, está Hórus batizado por Anúbis. Também a terceira tese, portanto, cai e a figura de João que batiza a Jesus no rio Jordão é um feito original que não provém de nenhum mito pré-existente.
A quarta tese dos defensores da teoria Jesus-Hórus é que Jesus foi tentado no deserto por Satanás, exatamente como Seth (deus do deserto) tentou matar Hórus.
Primeiro que tudo, Seth, na mitologia egípcia, não é certamente comparável a Satanás. “Tentar matar” ou “incitar a batalha” com Hórus não é a mesma cosa que “tentar”, como fez Satanás com Jesus nos Evangelhos.
A relação entre Hórus e Seth não é nunca igual à de Jesus e Satanás. Hórus e Seth estavam frequentemente em desacordo entre eles; sua sucessiva reconciliação permitiu ao faraó governar Egito. Jesus e Satanás, ao contrário, não se reconciliaram nunca.
A quinta tese dos defensores da teoria de Jesus-Hórus é que Osíris (cujo nome egípcio é Wsjr, cuja pronunciação é Ausar, Usir ou Asar), foi ressuscitado, exatamente como foi ressuscitado Lázaro por Jesus. Entretanto, não foi Hórus quem ressuscitou Osíris, foi Ísis, sua mulher.
Além disso, o nome Lázaro deriva do hebreu “Eleazar” que significa “Deus tem ajudado” e não tem nada a ver com o nome egípcio Wsjr, o qual os mais acreditados egiptólogos atribuem o significado de “o potente”.
A sexta tese dos divulgadores da teoria Jesus-Hórus é que Hórus tinha doze apóstolos, exatamente como Jesus.
Esta lenda provém, também, de Gerald Massey, quem diz que foram doze os apóstolos de Hórus. Na realidade, em algumas crenças populares fala-se dos quatro filhos de Hórus, semideuses, mas nunca de doze seguidores.
A sétima tese dos simpatizantes da teoria Jesus-Hórus é que Hórus foi crucificado antes de Jesus, então, a crucificação de Jesus seria um mito construído sobre um mito precedente.
Na realidade, Hórus é representado, às vezes, com os braços abertos, mas não “crucificado em uma cruz”. Não há nenhuma só fonte histórica que descreva um personagem real chamado Hórus que fosse crucificado e, além disso, não há nenhuma fonte histórica que comprove que no antigo Egito aconteceu uma crucificação. Pelo contrário, para a crucificação de Jesus as fontes históricas são várias, como descrevi em meu artigo “O Jesus histórico”.
A oitava tese dos defensores da teoria Jesus-Hórus é que Hórus ressuscitou depois de três dias, exatamente como Jesus.
Essa lenda provém do estudo aproximativo da Estrela de Metternich, conservada no Metropolitan Museum of Art de Nueva York. Esta Estrela não evoca de maneira alguma a morte sacrificial de Jesus. Hórus morreu menino, picado por um escorpião enviado por Seth, e logo foi ressuscitado pelo deus Thot; porém, nas crenças populares, não há rastro do renascimento no “terceiro dia”.
Além disso, Hórus não morre levando consigo os “pecados do mundo”, não morre para redimir a humanidade que, com o pecado original, havia excluído a si mesmo da salvação. Hórus não é o “Salvador do mundo”, senão que é, segundo as lendas, o Deus do Céu, do Sol e da Guerra.
A lista de falsos paralelos poderia continuar, mas nenhum deles está baseado em fontes históricas certas, pois a maioria das vezes as “fontes” são os livros de Gerald Massey (século XIX) ou de seus seguidores contemporâneos, como Acharia S.
Uma última teoria sustenta que, sendo a cruz um símbolo antiquíssimo, que se remontaria à civilização egípcia (ankh, chave da vida ou cruz ansata), a religião cristã seria, portanto, uma cópia de religiões antigas.
Também nesse ponto temos que lembrar que no Cristianismo antigo o símbolo mais utilizado era o peixe (Ἰχθύς, ichthýs) e não a cruz, cujo uso difundiu-se somente a partir do ano 313 d.C. com Constantino (in hoc signo vinces).
Os defensores da teoria de que o Cristianismo antigo é uma religião solar proveniente de cultos pré-existentes associam a Jesus também com outras figuras religiosas do passado como Mitra ou Krishna, mas também essas são simplificações banais que não tem fundamento histórico. Uma vez mais confundem (de boa fé?) o Cristianismo antigo com o Cristianismo pós-constantiniano.
De tudo que vimos, deduzimos que Jesus não é de nenhuma maneira Hórus e que os Evangelhos e os outros livros do Novo Testamento são originais e não estão baseados em cultos pré-existentes.
Segue-se com a ideia de que o Cristianismo antigo é uma religião absolutamente original.

YURI LEVERATTO
Copyright 2015

Bibliografía:
-Antiguo Testamento, Sociedad Bíblicas Unidas
-Nuevo Testamento, Sociedad Bíblicas Unidas
-Libro de los Muertos
-Acharya S. The Christ Conspiracy, the Greatest Story Ever Sold
-Acharia S Christ in Egypt: The Horus-Jesus Connection
-Unmasking the Pagan Christ por Stanley E. Porter y Stephen J. Bedard
-Hopfe, Lewis M.; Richardson, Henry Neil (9-1994). «Archaeological Indications on the Origins of Roman Mithraism». En Lewis M. Hopfe. Uncovering ancient stones: essays in memory of H. Neil Richardson. Eisenbrauns. pp. 147
-Gerald Massey, The natural genesis

lunes, 16 de noviembre de 2015

O Jesus histórico




Hoje em dia proliferam sites e vídeos na web e alguns escritos de duvidoso valor histórico que pretendem, descaradamente e com inusitada presunção, reescrever a historia de Jesus, personagem fundamental da civilização ocidental que, além disso, marcou a história da humanidade mais que qualquer outro, dando origem, inclusive a uma nova era.
Em alguns escritos propaga-se, inclusive, a teoria da inexistência histórica de Jesus (a chamada teoria do “mito de Jesus”); em outros, que o Jesus descrito pelos Evangelhos não existiu, senão que, por outro lado, existiu um “Jesus exaltado” ou um “Jesus zelote”, que teria por objetivo a independência do povo hebreu do jugo dos romanos.
É estranho que os autores desses escritos, ignorando o debate histórico sustentado ao longo de quase dois mil anos por muitos filósofos, pretendam apropriar-se de sua história, a maioria das vezes sem basear-se em estudos sérios, como se fosse uma nova verdade, obviamente irrefutável.
Aparte disso, não está claro por que estes supostos “expertos historiadores” se interessam em Jesus; se não existiu nunca, ou era somente um exaltado ou zelote, por que dedicam tanto tempo tentando desacreditar sua figura?
Os autores desses escritos não compreenderam, de fato, a mensagem de Jesus: uma ideia revolucionária, certamente não em sentido “militar” do termo, mas em um sentido interior e espiritual; uma mensagem que indica uma mudança de paradigma, uma ideia de paz, de respeito pelos demais e de amor, inclusive por quem se declara seu inimigo.
Segundo as extravagantes teorias dos detratores de Jesus, nunca confirmadas por fontes históricas, mas impulsionadas por um profundo ódio anticlerical (confundindo, por outro lado, com o anticlericalismo uma mensagem original de Cristo), os escritores dos evangelhos e os apóstolos divulgaram um Jesus que nunca existiu com fim de criar uma religião nova, absorvendo cultos preexistentes (ver Hórus, explicado mais adiante neste artigo), que minavam as bases do império romano.
Aos defensores desse extraordinário complô, recordo que os apóstolos morreram todos em cadafalsos (com exceção de João), por não renegar a Divindade de Jesus Cristo, na qual acreditavam firmemente. Os primeiros cristãos, por exemplo, Estevão, Paulo, Barnabé, Policarpo, Justino, Orígenes, Cipriano etc., morreram também em um cadafalso, culpados de não ter renegado a Divindade de Jesus Cristo.
Se o objetivo era um sinistro e torcido complô antirromano, não faz sentido matar depois de atrozes torturas (como as infligidas a Bartolomeu, por exemplo, que foi esfolado vivo), senão que nega, salva sua vida leva adiante suas ideias de outra maneira. Mas aqui, normalmente, os detratores de Jesus e de sua mensagem de amor inclusive chegam a manter que o martírio mesmo era utilizado pelos primeiros cristãos como uma forma de luta contra o império romano, de maneira que não compreendem seu verdadeiro significado.
Mas vamos começar em ordem: quais são as fontes históricas da vida de Jesus?
Primeiro que tudo, as cartas de Paulo, datadas pelos principais historiadores bíblicos entre 50 e 55 d.C., ou seja somente 20 ou 25 anos depois da morte de Jesus (1).
Logo, os evangelhos canônicos: o Evangelho de Marcos, o mais antigo dos quatro, foi escrito, segundo especialistas como Gerd Theissen, não mais do que 70 d.C. (2). Outros fazem remontar o Evangelho de Marcos inclusive a 64 d.C., data da morte de Pedro em Roma (3). Segundo o estudioso O’Callaghan, um dos fragmentos dos Manuscritos do Mar Morto seria parte do Evangelho de Marcos e remontaria inclusive a 50 d.C. (4). Para o Evangelho de Mateus e o Evangelho de Lucas, os historiadores mais reconhecidos indicam uma data ao redor de 70 d.C. (5). Para o Evangelho de João, por fim, os historiadores indicam uma data entre 90 e 100 d.C. (6)
Há outras cartas católicas, por exemplo, as de Pedro, que datam ao redor de 64 d.C., e as de João, cuja data está entre  90 e 100 d.C. (8).
Por outro lado, está o Evangelho de Tomás, texto apócrifo, mas considerado por alguns estudiosos como um texto de referência que poderia, inclusive, ser usado como fonte para os mesmos evangelhos canônicos (9). O debate dos historiadores sobre a datação do Evangelho de Tomás está aberto: segundo alguns especialistas, remontaria ao primeiro século (10), enquanto que segundo outros, teria sido escrito por volta de 140 d.C. (11)
No total, há dezenas de Evangelhos apócrifos e gnósticos escritos a partir do segundo século d.C. Ainda que a maioria deles possam ser utilizados como provas indiretas da existência histórica de Jesus, são considerados textos tardios e não fontes primárias. Estão, de outra parte, as fontes não cristãs sobre a existência histórica de Jesus.
Também aqui alguns detratores da figura histórica de Jesus afirmam que aparte de Tito Flávio Josefo, escritor romano de origem hebreia (37-100 d.C.), não há fontes fidedignas.
Uma primeira e importantíssima fonte não cristã é a de Cornélio Tácito, que escreve assim em seus anais (XV, 44):

“E assim Nero, para divertir esta voz e descarregar-se, deu por culpados dele, e começou a castigar com estranhos gêneros de tormentos a uns homens aborrecidos do vulgo por seus excessos, chamados comumente cristãos. O autor deste nome foi Cristo, o qual, imperando Tibério, havia sido condenado por ordem de Pôncio Pilatos”.

Tácito, portanto, confirma o que está escrito nos Evangelhos: Jesus Cristo viveu baixo o império de Tibério (que governou de 14 a 37 d.C.) e lhe foi imposto a condena máxima (crucificação) por Pôncio Pilatos.
Também Suetônio (que viveu de 70 a 126 d.C.), que escreveu para a corte do imperador Adriano, faz referência a Jesus em “Vidas dos doze Césares” (12) quando escreve:

Dado que os judeus constantemente fizeram distúrbios, instigados por Cresto, Claudio os expulsou de Roma.

A maioria dos estudiosos considera que o nome “Cresto” deve ser entendido como “Cristo” e consequentemente advoga que os distúrbios foram causados pela oposição que cresceu entre os judeus de Roma contra a pregação do Evangelho por Judeus–Cristãos.
Então vemos as cartas de Plínio o Jovem, governador de Bitínia, ao imperador Trajano, datadas em 112 d.C. Numa dessas cartas, Plínio o Jovem escreve à comunidade dos cristãos com fim de solicitar ao imperador o modo mais adequado para proceder legalmente contra quem se professasse cristão, culpado de não sacrificar aos pagãos. Aqui está a passagem da carta:

“Eles afirmavam que toda sua culpa ou erro havia consistido no costume de reunir-se um dia fixo antes de sair o sol e cantar a coros sucessivos um hino a Cristo como a um deus e em comprometer-se baixo juramento, já não perpetuar qualquer delito, a não cometer furtos, más ações ou adultérios, a não faltar a nada prometido, nem a negar-se a fazer um empréstimo do depósito. Terminados esses ritos, tem por costume separar-se e voltar-se a reunir para tomar alimento, por demais comum e inocente.” (13)

Justamente a passagem “a Cristo como a um Deus” indica que adoravam a uma pessoa que realmente existiu como se fossem um deus (14). Além disso, esta passagem nos descreve a comunidade dos cristãos, vistos não como perigosos zelotes ou violentos revolucionários, senão como pacíficos seguidores da mensagem de um homem.
Uma atenta leitura da passagem de Plínio o Jovem revela, além disso, que os primeiros cristãos seguiam à letra os ensinamentos de Jesus: “pronunciavam o voto solene” de seguir precisas normas morais e, portanto, agrega Plínio, reuniam-se para tomar alimento de tipo “comum e inocente”. Plínio não reconhece nenhuma culpa nestas congregações, mas justamente e porque tinham tantos prosélitos podiam demolir não só os fundamentos do império, mas toda a sociedade, dando início a uma nova era para a humanidade. Veremos mais adiante como Constantino conseguiu, com seu “híbrido”, corromper a igreja, criando um culto que lhe era favorável, enfraquecendo a mensagem de Jesus y transformando-a para seus fins de conquista y de poder.
Passemos agora a outra fonte não cristã sobre a existência histórica de Jesus: os escritos de Tito Flávio Josefo, um historiador judaico-romano nascido em 37 d.C. No seu livro “Antiguidades Judaicas” descreve várias vezes a atividade de Jesus ou de seus fiéis. Por exemplo, nesta passagem:

“Ananias era um saduceu sem alma. Convocou astutamente o Sinédrio no momento propício. O procurador Festo faleceu e seu sucessor, Albino, ainda não havia tomado posse. Fez com que o Sinédrio julgasse a Tiago, irmão de Jesus, e a alguns outros. Foram acusados de haver transgredido a lei e entregou-os para que fossem apedrejados”. (15)

Logo, nesta passagem, chamado Testimonium Flavianum, Tito Flávio Josefo descreve a Jesus de modo mais detalhado:

“Por este tempo apareceu Jesus, um homem sábio [se é que é correto chamá-lo homem, já que foi um fazedor de milagres impactantes, um mestre para os homens que recebem a verdade com gozo], e atraía até Ele muitos judeus [e a muitos gentis ademais. Era o Cristo]. E quando Pilatos, frente à denúncia daqueles que são os principais entre nós, o havia condenado à Cruz, aqueles que o haviam amado primeiro não lhe abandonaram [já que lhes apareceu vivo novamente no terceiro dia, tendo previsto isto e outras tantas maravilhas sobre Ele os santos profetas]. A tribo dos cristãos, chamados assim por Ele, não cessam de crescer até este dia”. (16)

Inclusive se esta passagem foi refutada por alguns detratores de Jesus, vários expertos a consideram autêntica (17).
O historiador judeu Sholmo Pines descobriu, no início dos anos 70 do século passado, a forma original do Testimonium Flavianum, contextualizada dentro do livro “História Universal” de Agápio de Hiérapolis (século X):

“Neste tempo existiu um homem de nome Jesus. Sua conduta era boa e era considerado virtuoso. Muitos judeus e gente de outras nações converteram-se em discípulos seus. Os convertidos em seus discípulos não lhe abandonaram. Relataram que ele havia aparecido três dias depois da sua crucificação e que estava vivo. Foi quem sabe o messias de quem os profetas haviam contado maravilhas”. (18)

Neste caso, Tito Flávio Josefo descreve a Jesus como um personagem que realmente existiu e descreve aos apóstolos como fiéis de um homem justo, sábio e virtuoso. Além disso, descreve a Ressurreição, afirmando que seus seguidores acreditavam nela e que Jesus era o Messias.

De todos estes testemunhos históricos, de escritores romanos ou judeus, resulta muito claro que Jesus foi descrito como “homem sábio”, que foi crucificado sob o poder de Pôncio Pilatos. É evidente que os escritores não cristãos não divulgaram a Divindade de Cristo justamente porque, não sendo cristãos, não acreditavam nele, mas o descrevem como uma pessoa que existiu realmente, um sábio, e afirmam que, depois da sua morte, seus seguidores puseram em prática sua mensagem e mesmo sob ameaça de morte não o renegavam, porque sua fé era fortíssima. É evidente que o Jesus bíblico, descrito no Novo Testamento, coincide com o Jesus histórico, descrito pelos historiadores não cristãos.
Permanecendo nas fontes não cristãs sobre Jesus, desde um ponto de vista histórico, não podemos deixar de citar o Talmud da Babilônia, uma coleção de escritos rabínicos judeus compilada a partir de 70 d.C. A continuação, uma passagem:

“Durante a vigília da festa de Páscoa, Yeshu, o Nazareno, foi pendurado. Durante os quarenta dias posteriores a sua execução, um pregador foi anunciando: “Yeshu, o Nazareno, está a ponto de ser apedrejado porque tem praticado a magia, tem seduzido e tem desencaminhado Israel”. (19)

Esta passagem não somente é uma prova da existência mesma de Jesus, senão que explica indiretamente, desde o ponto de vista dos judeus que não acreditavam nele, o motivo de sua crucificação (20). De fato, se sustenta que praticou a “magia” e que “desencaminhou Israel”. De uma parte, confirmam-se os milagres, considerados como “magia” de quem não acreditava; de outra parte, confirmam-se os Evangelhos, que descrevem porque Jesus foi enviado ao cadafalso, já que, desde o ponto de vista dos judeus não crentes, ele era um renegado, ou melhor, uma pessoa blasfema que não acreditava nas sagradas escrituras, pois as substituía.
Há, além disso, algumas fontes gregas do segundo século, como por exemplo a de Luciano de Samosata (120-180) em sua obra “Sobre a morte do Peregrino”:

“Como sabeis, os cristãos adoram a um homem deste tempo, que criou seus inovadores ritos e que foi por isso crucificado… Seu fundador deixou impresso neles a convicção de que todos são irmãos desde o momento em que se converteram e condenam aos deuses da Grécia, para adorar em troca ao sábio crucificado e viver segundo seus preceitos”. (21)

Inclusive se Luciano não menciona o nome de Jesus, é óbvio que se refere a ele. Interessante é ver que Luciano conta que desde o momento da conversão, os cristãos são todos “irmãos”.
Há, além disso, outras fontes não cristãs sobre a existência histórica de Jesus (Dion Cássio, os escritos do imperador Adriano, Marco Aurélio).
Os detratores de Jesus, então, continuaram sua cega obra de costumeiro descrédito, afirmando que os Evangelhos, sejam canônicos, apócrifos ou gnósticos, descrevem um Jesus que não corresponde ao verdadeiro Jesus, que segundo eles foi um exaltado, um zelote, um líder militar que tinha por objetivo a independência de Palestina dos romanos.
Segundo esta tese, portanto, os evangelistas atuaram de má fé, pondo-se de acordo para divulgar um falso Jesus nunca existido, para “fundar uma nova religião com objetivos ocultos”.
A estas acusações banais e infundadas eu respondo desta maneira: até que se prove o contrário, a História está feito pelas fontes, que deveriam ser fidedignas e, sobretudo, estar de acordo entre elas. Neste caso, as fontes cristãs são numerosas e não estão em desacordo entre elas, o que faz com que a perversa lógica do complô termina por cair.
No que diz respeito às fontes não cristãs: se tivéssemos somente uma
fonte não cristã que nos descrevesse a Jesus de acordo com o Jesus dos
Evangelhos, poderíamos pensar que esta fonte é de má fé, ou
demasiado filocristã.
Mas inclusive as fontes não cristãs que descrevem Jesus como um homem sábio que logo foi crucificado, em sintonia com os Evangelhos são numerosas, e até quando não tenha fontes fidedignas opostas e contrárias a hipótese de Jesus exaltado ou zelote é historicamente inaceitável.
Além disso, se a pessoa em questão houvesse sido um exaltado, não teria tido os seguidores que teve e não teriam escrito as fontes primárias sobre ele. Quem seguiria a um exaltado? Quem sabe uma pessoa, dois, mas não dezenas ou centos.
Se, por outro lado, tivesse sido um zelote ou inclusive um impostor zelote, não se explicam vários acontecimentos: primeiro, por que um historiador como Tito Flávio Josefo não o descreveu como um zelote? Segundo, por que no Talmud Babilônico, em vez de descrever Jesus como um renegado (visão dos judeus que não acreditavam nele, que coincide com os Evangelhos), não foi descrito como um zelote, ou seja, como um inspirador ou líder militar? Terceiro: a lógica diz que se Jesus tivesse sido um zelote, seus apóstolos não teriam divulgado sua palavra, difundindo uma mensagem de paz como de fato fizeram, senão que teriam divulgado uma mensagem de ódio e de resposta armada ao jugo de Roma.
Façamos agora um salto até o ano de 313 d.C.
Em geral, os detratores do cristianismo sustentam que Constantino e os padres da Igreja efetuaram um sincretismo com cultos pagãos preexistentes para fazer aceitar às massas da nova religião. Tudo isso, de fato, tem fundamentos históricos, como também manifestado com o artigo “O híbrido constantiniano”.
É óbvio que o imperador utilizou o cristianismo como um instrumento para consolidar seu reino. Deu-se conta de que esta nova religião gostava das massas e em vez de continuar combatendo-a, incorporou ao Estado, corrompendo seus princípios fundamentais e desnaturalizando seus valores. Os cristãos, vendo-se aceitos e logo privilegiados, na realidade afastaram-se dos ensinamentos originais de Jesus e começaram, inclusive, a perseguir a quem criticava sua doutrina.
Mas o que tem a ver tudo isso com a mensagem original de Jesus contido no Novo Testamento, que é um conjunto de obras escritas no século I?
Agora, quem denigre a imagem de Jesus sustenta que sua figura foi voluntariamente (seguindo de novo a lógica do complô) criada sobre o modelo de mitos preexistentes, por exemplo, o de Hórus. Mas Hórus não tem nada a ver com Jesus.
Vejamos por que: na mitologia egípcia, Osíris e Ísis casam. No entanto, Osíris é morto por Seth (seu irmão malvado), que o esquarteja. Ísis ressuscita Osíris e de sua união nasce Hórus, o deus do sol. Em geral, os defensores do mito de Jesus comparam a Ísis com Maria e a Jesus com Hórus. Esquecem que se houve um sincretismo, foi efetuado justamente a partir de 313 d.C., mas não está presente nos Evangelhos. De fato, em João 1:1-5 está escrito que Jesus é o Verbo, criador então do Universo, e que, portanto, também do sol, enquanto Hórus é o deus-Sol.
Há também em alguns escritos uma suposta conexão de Osíris com Jesus, mas Jesus não foi esquartejado; segundo João, de fato não lhe quebraram nenhum osso (João 19:36) e não foi Maria (Ísis) quem o ressuscitou, mas ele mesmo ressuscitou porque venceu a morte, sendo Deus (Lucas 24:6).
Além disso, como pode estes supostos “expertos historiadores” comparar um mito egípcio que se remonta a 3100 a.C., do qual não existem fontes históricas para consulta, com a vida de Jesus, sobre a qual há inumeráveis fontes históricas?
Em todo caso, os símbolos solares foram introduzidos depois de 313 d.C. e respondem, portanto, a uma lógica de assimilação e sincretismo, mas não têm nada a ver com a mensagem original do Novo Testamento. Segundo a tradição, Hórus nasceu na noite de 25 de dezembro, Dia do Sol nas culturas tradicionais. Esta data, indicada como o nascimento de Jesus, somente a partir do século III, não está citada no Novo Testamento, e foi oficialmente agregada no ano 336 d.C. (22). Portanto, também aqui o culto de Hórus, o do Sol Invictus, é algo acessório, mas não tem nada a ver com a mensagem original de Jesus contido no Novo Testamento.
Quem, por outro lado, associa o mito de Mitra ao culto de Jesus, afirmando que ambos nasceram de uma virgem, buscam desacreditar de um modo especial o Evangelho de Lucas, como se fosse precisamente “uma cópia de um culto precedente”. A eles recordo que, segundo a Mitologia, deus Mitra não nasceu de uma virgem, mas de uma pedra e, inclusive, nasceu já adulto (23). Daí então que a existência histórica de Jesus e a invalidez da teoria do “mito de Jesus” sejam feitos amplamente demonstrados por fontes históricas consultáveis, reconhecidas por especialistas sérios e imparciais.
Outra coisa, naturalmente, é acreditar na Divindade de Jesus. Crer é um ato pessoal, íntimo e, obviamente, com este artigo não pretendo evangelizar que está lendo este artigo. O recorrido espiritual do leitor ou do suposto denegridor de Jesus, se existe, é algo pessoal e interior.
Além disso, quero estender uma mão aos difamadores ou detratores de Jesus, certamente não para convertê-los, insisto, mas para que se acerquem a esta figura histórica imensa de maneira submissa, humilde, buscando entendê-la, sem divulgar ácidas sentenças.

YURI LEVERATTO
Copyright 2015

Bibliografia:

(1) Vidal Garcìa (2007). Pablo. De Tarso a Roma
(2)Opere di Gerd_Theissen,
(3) Mary Healy,Peter Williamson, The Gospel of Mark
(4) http://www.statveritas.com.ar/Varios/JLoring-01.htm
(5) De C. Allison Jr., "Matthew", in Muddiman e Barton, "The Gospels - The Oxford Bible Commentary", 2010.
(6) The Gospel according to John, The Cambrige Bible Commentary, Cabridge University Press, 1965.
(7) Wayne A. Grudem, The First Epistle of Peter: an introduction and commentary, 1999.
(8)  Bruno Maggioni, Introduzione all'Opera giovannea, in La Bibbia, Edizioni San Paolo, 2009
(9) GerdTheissen e Annette Merz, The Historical Jesus: A Comprehensive Guide Minneapolis, 1998
(10) Marvin Meyer, Albert Schweitzer and the Image of Jesus in the Gospel of Thomas
(11) Arland J. Hultgren, The Parables of Jesus: A Commentary, Wm. B. Eerdmans Publishing, 2002, p. 432.
(12) Svetonio (Vite dei dodici Cesari)
(13) Plinio, Epistole X, 96
(14) M. Harris, "References to Jesus in Early Classical Authors
(15) Antichità Giudaiche XX, 200
(16) Antichità Giudaiche XVIII, 63-64
(17) Estudiosos como Ètienne Nodet e Serge Badet
(18) SHLOMO PINES - AN ARABIC VERSION OF THE TESTIMONIUM FLAVIANUM AND ITS IMPLICATIONS - THE ISRAEL ACADEMY OF SCIENCES AND HUMANITIES - JERUSALEM 1971.
(19) Talmud Babilonese, trad. di I. Epstein, vol. III, 43a/281; cfr. Sanhedrin B, 43b
(20) O termo "pendurado" refere-se à crucificação. Por isso, em Gálatas 3, 13 pode-se ler que Cristo foi "pendurado" e em Atos dos Apóstolos 10, 39 que foi "pendurado em uma cruz"; em Lucas 23, 39, este termo é usado também para os criminosos que foram crucificados com Jesus.
(21) Luciano, De morte Peregrini., 11-13, trad. di H.W. Fowler
(22) Joseph F. Kelly: "in 336 the local church at Rome proclaimed December 25 as the dies natalis Christi". Lo stesso autore precisa che "the document containing the affirmation of December 25 as the 'dies Natalis Christi' in 336 is called "The Cronograph of 354" (Cfr. Joseph F. Kelly, "The Origins of Christmas", p. 64).
(23) Vermaseren, M. J. "The miraculous Birth of Mithras". In LàszlòGerevich. StudiaArchaeologica. Brill. pp. 93–109. Retrieved 10-04-2011.

sábado, 24 de octubre de 2015

A verdadeira identidade de Jesus Cristo


Poucas pessoas duvidam da existência histórica de Jesus Cristo. Muitas, no entanto, o definem como um “grande profeta de Deus”, um “homem sábio”, um “reformador do judaísmo” ou inclusive “o homem mais sábio que já existiu”. Algumas religiões, por outro lado, o consideram um “grande profeta”, um “enviado de Deus” ou um “mensageiro de Deus”.
Estas definições, no entanto, se contradizem com os livros do Novo Testamento, que são os textos mais antigos que descrevem a vida e obra de Jesus Cristo e seus seguidores, os Apóstolos, e que foram escritos antes de 100 d.C.
De modo que, para aprofundar no tema de sua verdadeira identidade, devemos estudar os textos do Novo Testamento, que foram escritos por quem conviveu com Jesus ou por quem recebeu um ensinamento direto dos Apóstolos.
Primeiramente, analisemos o Prólogo do Evangelho de João (1,1-5):

No princípio era o Verbo, e o Verbo estava com Deus, e o Verbo era Deus.
Ele estava no princípio com Deus.
Todas as coisas foram feitas por ele, e sem ele nada do que foi feito se fez.
Nele estava a vida, e a vida era a luz dos homens.
E a luz resplandece nas trevas, e as trevas não a compreenderam.

Nessas célebres passagens, Cristo é proclamado como Palavra de Deus (Verbo), Deus mesmo, Criador do mundo e princípio da vida. Analisemos também outra passagem do Prólogo (João 1, 14):

E o Verbo se fez carne, e habitou entre nós, e vimos a sua glória, como a glória do unigênito do Pai, cheio de graça e de verdade.

Esta passagem descreve que o Verbo se fez carne, ou seja, encarnou-se numa pessoa (Jesus). Além disso, explica que o filho é Unigênito, “único e sozinho” (ou seja, não houve outros e não haverá por fora dele). Já essas primeiras passagens do Evangelho de João expressam com força a plena identidade de Jesus Cristo. Ele é o Verbo, a Palavra de Deus, Deus mesmo.
Há outra passagem do prólogo do Evangelho de João muito importante para identificar plenamente Jesus Cristo (1,18):

Deus nunca foi visto por alguém. O Filho unigênito, que está no seio do Pai, esse o revelou.

Quando João escreve “A Deus ninguém viu jamais” refere-se a Deus Pai. Quando escreve “Unigênito Deus”, refere-se a Deus Filho, o qual “está no seio do Pai” e que revelou ao Pai. Portanto, João, nessa passagem, definindo “Unigênito Deus” ao Filho, revela-nos uma vez mais a verdadeira identidade de Jesus Cristo.
Agora, analisemos uma passagem sucessiva do Evangelho de João (1,29):

No dia seguinte João viu a Jesus, que vinha para ele, e disse: Eis o Cordeiro de Deus, que tira o pecado do mundo.

É João Batista quem fala: diz que Jesus é “o Cordeiro de Deus, que tira o pecado do mundo”. O que significa isto?
No Antigo Testamento, os sacrifícios animais se levavam a cabo para que Deus perdoasse os pecados. A perda de um animal do rebanho e a visão da morte de um animal, que é inocente por definição, já que não conhece o bem nem o mal, tinha o objetivo de redimir ao pecador.
Mas, o que é o pecado? O pecado é um ato carente de humildade. Um ato de arrogância, presunção, pedantismo. O pecado original foi cometido por Adão e Eva, os primeiros seres humanos, dotados de livre arbítrio. Eles quiseram substituir a Deus, derrubá-lo de seu trono. Pecaram de presunção, de pedantismo. O pecado original é o que fez necessário o sacrifício de Cristo na cruz.
Seu sofrimento e seu sangue, derramado em nosso lugar, torna-nos livres de pecado, se reconhecermos a Cristo e o aceitamos como nosso salvador. (Carta aos Romanos 3, 22).
O sacrifício do Filho de Deus é, por definição, o sacrifício final e perfeito, como se deduz desta passagem da Carta aos Hebreus (7,27):

que não tem necessidade, como aqueles sumos sacerdotes, de oferecer sacrifícios diariamente, primeiro pelos seus próprios pecados e depois pelos do povo; porque isto fez uma só vez para sempre, quando se ofereceu a si mesmo.

Cabe notar que João Batista disse: “Eis aqui o Cordeiro de Deus, que tira o pecado do mundo”, e não: “Eis aqui o Cordeiro de Deus, que tira o pecado de Israel”, indicando, assim, que Jesus veio para carregar sobre si todos os pecados do mundo, justamente todos, inclusive os de quem não era judeu. Sua missão não é, portanto, a de um “reformador do judaísmo”, como afirmam alguns escritores, senão que é universal, para todos os seres humanos.
Outra passagem importante para compreender esse conceito é de João (3, 16-21):

Porque Deus amou o mundo de tal maneira que deu o seu Filho unigênito, para que todo aquele que nele crê não pereça, mas tenha a vida eterna.
Porque Deus enviou o seu Filho ao mundo, não para que condenasse o mundo, mas para que o mundo fosse salvo por ele.
Quem crê nele não é condenado; mas quem não crê já está condenado, porquanto não crê no nome do unigênito Filho de Deus.
E a condenação é esta: Que a luz veio ao mundo, e os homens amaram mais as trevas do que a luz, porque as suas obras eram más.
Porque todo aquele que faz o mal odeia a luz, e não vem para a luz, para que as suas obras não sejam reprovadas.
Mas quem pratica a verdade vem para a luz, a fim de que as suas obras sejam manifestas, porque são feitas em Deus.

Também nessas passagens descreve-se Jesus como “o Salvador do mundo” e não “quem condena o mundo”. Salvador é aquele que com seu sacrifício “tira os pecados do mundo”. Quem crê nele já está salvo, no sentido de que aceita que Cristo recebeu sobre si mesmo seus pecados.
Com esse propósito vejamos estas passagens do Evangelho de Mateus (20, 27-28):

E o que quiser tornar-se entre vós o primeiro, se faça vosso escravo.
Assim como o Filho do Homem veio, não para ser servido, mas para servir e dar sua vida em resgate por uma multidão.

E (26, 26-28):

Durante a refeição, Jesus tomou o pão, benzeu-o, partiu-o e o deu aos discípulos, dizendo: Tomai e comei, isto é meu corpo.
Tomou depois o cálice, rendeu graças e deu-lho, dizendo: Bebei dele todos, porque isto é meu sangue, o sangue da Nova Aliança, derramado por muitos homens em remissão dos pecados.

Então, segundo a crença cristã, Deus não perdoa os pecados “desde o alto”, senão pagando o mesmo. Deus não delegou a uma “criatura” sua o sofrimento na cruz. Deus mesmo estava na cruz, dando o máximo exemplo de humildade, porque amava de tal forma ao homem que se sacrificou por ele, carregando sobre si mesmo todos os pecados do mundo e tornando-nos, dessa maneira, livres. Além disso, somente Deus, ser infinito, poderia pagar com seu sangue por todos os pecados do mundo.
De várias passagens dos Evangelhos se deduz que o Pai e o Filho são “da mesma substância”. É Jesus mesmo quem afirmou, dissipando qualquer dúvida sobre sua identidade e sua missão.
Eis aqui uma primeira passagem do Evangelho de Mateus (11, 27):

Todas as coisas me foram dadas por meu Pai; ninguém conhece o Filho, senão o Pai, e ninguém conhece o Pai, senão o Filho e aquele a quem o Filho quiser revelá-lo.

Continuemos com a análise do Evangelho de João. Na seguinte passagem (8, 18-19) está escrito:

Eu dou testemunho de mim mesmo; e meu Pai, que me enviou, o dá também.
Perguntaram-lhe: Onde está teu Pai? Respondeu Jesus: Não conheceis nem a mim nem a meu Pai; se me conhecêsseis, certamente conheceríeis também a meu Pai.

Frase significativa, porque indica que somente conhecendo e aceitando-lhe, pode-se aceitar o Pai.
Estamos submergindo no profundo Evangelho de João ao analisar as importantes passagens onde Cristo revelou sua plena identidade aos fariseus e aos religiosos no templo.
Na seguinte passagem de João (8, 23-24), Jesus, atribuindo-se a si mesmo o nome com o qual Deus revelou-se a Moisés (“Eu sou ”, em Êxodo 3,14) põe-se a par com Deus.

Ele lhes disse: Vós sois cá de baixo, eu sou lá de cima. Vós sois deste mundo, eu não sou deste mundo.
Por isso vos disse: morrereis no vosso pecado; porque, se não crerdes o que eu sou, morrereis no vosso pecado.

Ainda em João (8,53-58):

És acaso maior do que nosso pai Abraão? E, entretanto, ele morreu... e os profetas também. Quem pretendes ser?
Respondeu Jesus: Se me glorifico a mim mesmo, a minha glória não é nada; meu Pai é quem me glorifica, aquele que vós dizeis ser o vosso Deus e, contudo, não o conheceis. Eu, porém, o conheço e, se dissesse que não o conheço, seria mentiroso como vós. Mas conheço-o e guardo a sua palavra.
Abraão, vosso pai, exultou com o pensamento de ver o meu dia. Viu-o e ficou cheio de alegria.
Os judeus lhe disseram: Não tens ainda cinqüenta anos e viste Abraão!...
Respondeu-lhes Jesus: Em verdade, em verdade vos digo: antes que Abraão fosse, Eu Sou.

Também o décimo capítulo do Evangelho de João é particularmente significativo para conhecer a verdadeira identidade de Jesus Cristo. Vamos ler as seguintes passagens (10, 14-18):

Eu sou o bom pastor. Conheço as minhas ovelhas e as minhas ovelhas conhecem a mim, como meu Pai me conhece e eu conheço o Pai. Dou a minha vida pelas minhas ovelhas.
Tenho ainda outras ovelhas que não são deste aprisco. Preciso conduzi-las também, e ouvirão a minha voz e haverá um só rebanho e um só pastor.
O Pai me ama, porque dou a minha vida para a retomar.
Ninguém a tira de mim, mas eu a dou de mim mesmo e tenho o poder de a dar, como tenho o poder de a reassumir. Tal é a ordem que recebi de meu Pai.

Primeiro que tudo nessas passagens está escrito que Jesus conhece-nos, exatamente como o Pai o conhece e ele conhece ao Pai. Logo está escrito que Ele dá a vida por nós.
Nesta frase, então, Jesus antecipa o que será seu sacrifício e, além disso, antecipa sua Ressurreição: Ele dá sua vida e Ele a retoma, justamente porque Ele é o Senhor.
Além disso, também dessa frase deduzimos que Jesus veio por todos e não somente pelos judeus. (Também tenho outras ovelhas que não são deste curral; aquelas também devo trazer e ouvirão minha voz ; e haverá um rebanho, e um pastor).
Poucas passagens mais adiante, quando alguns judeus lhe pedem que revele sua verdadeira natureza, Jesus responde (João 10, 24-30):

Os judeus rodearam-no e perguntaram-lhe: Até quando nos deixarás na incerteza? Se tu és o Cristo, dize-nos claramente.
Jesus respondeu-lhes: Eu vo-lo digo, mas não credes. As obras que faço em nome de meu Pai, estas dão testemunho de mim.
Entretanto, não credes, porque não sois das minhas ovelhas.
As minhas ovelhas ouvem a minha voz, eu as conheço e elas me seguem.
Eu llhes dou a vida eterna; elas jamais hão de perecer, e ninguém as roubará de minha mão.
Meu Pai, que mas deu, é maior do que todos; e ninguém as pode arrebatar da mão de meu Pai.
Eu e o Pai somos um.

Com esta última frase, Jesus afirma estar em união com o Pai. No entanto, quando os judeus recolheram pedras para atirar nele, passou este diálogo (João 10, 32-38):

Disse-lhes Jesus: Tenho-vos mostrado muitas obras boas da parte de meu Pai. Por qual dessas obras me apedrejais?
Os judeus responderam-lhe: Não é por causa de alguma boa obra que te queremos apedrejar, mas por uma blasfêmia, porque, sendo homem, te fazes Deus.
Replicou-lhes Jesus: Não está escrito na vossa lei: Eu disse: Vós sois deuses (Sl 81,6)?
Se a lei chama deuses àqueles a quem a palavra de Deus foi dirigida (ora, a Escritura não pode ser desprezada), como acusais de blasfemo aquele a quem o Pai santificou e enviou ao mundo, porque eu disse: Sou o Filho de Deus?
Se eu não faço as obras de meu Pai, não me creiais.
Mas se as faço, e se não quiserdes crer em mim, crede nas minhas obras, para que saibais e reconheçais que o Pai está em mim e eu no Pai.

Os judeus tinham entendido que, com aquela afirmação, Jesus sustentava que era Deus, mas Jesus assim mesmo não negou. Ele remete ao Antigo Testamento: nas escrituras são chamados deuses e filhos do Altíssimo os juízes e os reis, porque são partícipes da prerrogativa divina de julgar aos homens (Sal. 82, 6-Sal. 2- Dt 1, 17; 19,17). Jesus agrega que quem é santificado e enviado pelo Pai tem direito a ser considerado em união com o Pai. Na última frase, além disso, confirma de novo que Ele e o Pai são uma só coisa.
Analisemos agora outra passagem do Evangelho de João (20,28): Respondeu Tomás e lhe disse: 

Meu Senhor e meu Deus”.

Nesse caso, Jesus não negou ser Deus, senão que respondeu em João (20,29): 

E lhe disse Jesus “Por que me tens visto, tens acreditado? Felizes os que não viram e, no entanto, acreditaram”.

A natureza divina de Jesus não se deduz somente do que disse, senão também, obviamente, do que fez. Os milagres, narrados nos quatro Evangelhos, mostram seu domínio total sobre as forças da natureza, os demônios, as doenças e a morte. Jesus Cristo ressuscita os mortos: a filha de Jairo (em Lucas 8,49-56), o filho da viúva de Naim (em Lucas 7, 11-17) e Lázaro (João, 11).
Eis aqui o célebre diálogo de Jesus com Marta antes da ressurreição de Lázaro (João 11, 23-27):

Disse-lhe Jesus: Teu irmão ressurgirá.
Respondeu-lhe Marta: Sei que há de ressurgir na ressurreição no último dia.
Disse-lhe Jesus: Eu sou a ressurreição e a vida. Aquele que crê em mim, ainda que esteja morto, viverá.
E todo aquele que vive e crê em mim, jamais morrerá. Crês nisto?
Respondeu ela: Sim, Senhor. Eu creio que tu és o Cristo, o Filho de Deus, aquele que devia vir ao mundo.

Com esta frase, Marta reconheceu a verdadeira identidade de Jesus Cristo.
Prosseguindo com a análise dos Evangelhos, particularmente do Evangelho de João, analisemos outra passagem fundamental para compreender a verdadeira identidade de Jesus Cristo (João, 12, 44, 45):

Entretanto, Jesus exclamou em voz alta: Aquele que crê em mim, crê não em mim, mas naquele que me enviou; e aquele que me vê, vê aquele que me enviou.

Nesta última passagem, Jesus afirma que é consubstancial ao Pai.
Ainda em João (14, 5-14):

Disse-lhe Tomé: Senhor, não sabemos para onde vais. Como podemos conhecer o caminho?
Jesus lhe respondeu: Eu sou o caminho, a verdade e a vida; ninguém vem ao Pai senão por mim.
Se me conhecêsseis, também certamente conheceríeis meu Pai; desde agora já o conheceis, pois o tendes visto.
Disse-lhe Filipe: Senhor, mostra-nos o Pai e isso nos basta.
Respondeu Jesus: Há tanto tempo que estou convosco e não me conheceste, Filipe! Aquele que me viu, viu também o Pai. Como, pois, dizes: Mostra-nos o Pai...
Não credes que estou no Pai, e que o Pai está em mim? As palavras que vos digo não as digo de mim mesmo; mas o Pai, que permanece em mim, é que realiza as suas próprias obras.
Crede-me: estou no Pai, e o Pai em mim. Crede-o ao menos por causa destas obras.
Em verdade, em verdade vos digo: aquele que crê em mim fará também as obras que eu faço, e fará ainda maiores do que estas, porque vou para junto do Pai.
E tudo o que pedirdes ao Pai em meu nome, vo-lo farei, para que o Pai seja glorificado no Filho.
Qualquer coisa que me pedirdes em meu nome, vo-lo farei.

Nessas passagens há dois conceitos significativos: primeiro que tudo, Jesus responde a Tomás dizendo: “Eu sou o caminho, a verdade e a vida; ninguém vai ao Pai senão por mim”. Logo responde a Felipe dizendo: “estou no Pai, e o Pai em mim”. Jesus afirma, então, que é a verdade, que está unido ao Pai e que é, portanto, da mesma “substância”.
Também em João (16, 27-28), temos algumas frases importantes:

Pois o mesmo Pai vos ama, porque vós me amastes e crestes que saí de Deus.
Saí do Pai e vim ao mundo. Agora deixo o mundo e volto para junto do Pai.

Saí de Deus”, frase que dá a ideia do Verbo gerado, mas não criado e finalmente encarnado em um homem: Jesus.
No capítulo 17 do Evangelho de João, há também afirmações muito importantes de Jesus, que está rezando ao Pai. Eis aqui uma primeira e significativa passagem (João 17, 3-5):

Ora, a vida eterna consiste em que conheçam a ti, um só Deus verdadeiro, e a Jesus Cristo que enviaste.
Eu te glorifiquei na terra. Terminei a obra que me deste para fazer.
Agora, pois, Pai, glorifica-me junto de ti, concedendo-me a glória que tive junto de ti, antes que o mundo fosse criado.

E ainda em João (17, 24):

Pai, quero que, onde eu estou, estejam comigo aqueles que me deste, para que vejam a minha glória que me concedeste, porque me amaste antes da criação do mundo.

Nestas duas passagens, deduzimos que Jesus estava com o Pai antes que o mundo fosse, antes da fundação do mundo, do universo. Estas duas passagens, indiretamente, confirmam a Divindade de Cristo.
Porém, o evento cardinal da missão de Jesus é a Ressurreição (Mateus, 28; Marcos 16; Lucas, 24; João, 20). Na Ressurreição, Jesus Cristo venceu a morte e demostrou seu poder sobre ela. Somente Deus mesmo, que criou o universo, tem o poder de vencer o pecado e a morte.
Eis aqui as famosas passagens da Carta aos Coríntios de Paulo (1, Coríntios, 15, 54-55):

Quando este corpo corruptível estiver revestido da incorruptibilidade, e quando este corpo mortal estiver revestido da imortalidade, então se cumprirá a palavra da Escritura:
A morte foi tragada pela vitória.
Onde está, ó morte, a tua vitória?
Onde está, ó morte, o teu aguilhão?

A Ressurreição é, ademais, a demonstração de que Deus aceitou o extremo sacrifício de Cristo feito por todos os seres humanos e certifica que quem crê em Jesus Cristo será ressuscitado na Vida Eterna.
Há, ainda, outras frases e comportamentos de Jesus que indicam sua natureza consubstancial ao Pai. No capítulo quinto do Evangelho de Mateus, falando da lei mosaica, ou seja, a lei dada por Deus, Jesus repetiu várias vezes: “haveis compreendido que foi dito… eu vos digo mais”. Jesus ensina, então, sobre os comportamentos corretos a assumir em caso de matrimônio, juramentos, amor ao próximo. Seis vezes repete a frase: “em lugar disso eu vos digo”.
Como poderia um simples profeta agregar ou modificar as leis dadas por Deus se não quem por sua natureza é consubstancial ao Pai? Os profetas diziam: “Assim fala o Senhor”, enquanto Jesus disse: “eu, em lugar disso, vos digo”.
Sabe-se que os judeus cumpriam a lei do descanso durante o sábado e, por isso, criticaram Jesus, por ter curado um paralítico nesse dia (João 5,1-10). Porém Jesus, demostrando estar acima da lei, disse (João 5, 17):
Mas ele lhes disse: Meu Pai continua agindo até agora, e eu ajo também.
Jesus coloca-se, então, acima da lei, por exemplo, quando disse:

Porque o Filho do Homem é senhor também do sábado. (Mateus, 12, 8).

São afirmações inauditas, que nunca saíram da boca de nenhum homem, e que provam a verdadeira natureza de Jesus Cristo, que é consubstancial ao Pai.
Outra frase importante com a qual Jesus declarou sua plena identidade é a seguinte, em resposta ao sumo-sacerdote, extraída do Evangelho de Marcos (14, 61-62):

Mas Jesus se calava e nada respondia. O sumo sacerdote tornou a perguntar-lhe: És tu o Cristo, o Filho de Deus bendito?
Jesus respondeu: Eu o sou. E vereis o Filho do Homem sentado à direita do poder de Deus, vindo sobre as nuvens do céu.

Nessa passagem, Jesus responde, claramente, usando as palavras da visão de Daniel (7, 13-14).
Vejamos, agora, uma passagem importante da Carta do apóstolo Paulo aos Filipenses (2, 3-11):

Nada façais por espírito de partido ou vanglória, mas que a humildade vos ensine a considerar os outros superiores a vós mesmos.
Cada qual tenha em vista não os seus próprios interesses, e sim os dos outros.
Dedicai-vos mutuamente a estima que se deve em Cristo Jesus.
Sendo ele de condição divina,
não se prevaleceu de sua igualdade com Deus,
mas aniquilou-se a si mesmo,
assumindo a condição de escravo e assemelhando-se aos homens.
E, sendo exteriormente reconhecido como homem,
humilhou-se ainda mais, tornando-se obediente
até a morte,
e morte de cruz.
Por isso Deus o exaltou soberanamente
e lhe outorgou o nome que está acima de todos os nomes,
para que ao nome de Jesus
se dobre todo joelho no céu,
na terra e nos infernos.
E toda língua confesse, para a glória de Deus Pai, que Jesus Cristo é Senhor.

Analisando este importante fragmento rítmico, vemos que na sexta passagem Paulo escreve: “Sendo ele de condição divina”. De modo que Paulo escreve, claramente, que Jesus é Deus por condição. Além disso, na décima primeira passagem escreve: “E toda língua confesse, para a glória de Deus Pai, que Jesus Cristo é Senhor”. Dessa maneira, retomando a sexto passagem, certifica a Divindade do Filho.
Analisemos agora uma importante passagem da Primeira Carta de João (1 João 5, 20):

Sabemos que o Filho de Deus veio e nos deu entendimento para conhecermos o Verdadeiro. E estamos no Verdadeiro, nós que estamos em seu Filho Jesus Cristo. Este é o verdadeiro Deus e a vida eterna.

Nessa passagem “o Verdadeiro” é Deus. João afirma que somente o Filho de Deus nos deu a inteligência para conhecer a Deus. Além disso, afirma permanecer no Verdadeiro, ou seja, em seu filho Jesus Cristo. Nessa última passagem, João escreve algo que não deveria dar lugar a dúvidas: “Este é o verdadeiro Deus e a vida eterna”, ou seja, Jesus Cristo é o verdadeiro Deus.
Por último, analisemos algumas passagens importantes das cartas de Paulo. O primeiro, extraído da Carta aos Colossenses (2, 8-9):

Estai de sobreaviso, para que ninguém vos engane com filosofias e vãos sofismas baseados nas tradições humanas, nos rudimentos do mundo, em vez de se apoiar em Cristo. Pois nele habita corporalmente toda a plenitude da divindade.

Paulo afirma que em Cristo temos "toda a plenitude da divindade", ou seja, a Essência Divina. Cristo é Deus. Ele, como pessoa, distingue-se do Pai pela relação que tem com o Pai, sendo ele o Filho Unigênito, porém uma só é a Essência. Toda a plenitude da divindade "habita corporalmente" nele, ou seja, não por meio de uma simples ação da divindade sobre um corpo humano, senão pela união hipostática das duas naturezas, a divina e a humana. Em Cristo há duas naturezas, que não estão misturadas, na única pessoa que é a divina. Em Deus existem três pessoas iguais e distintas em uma única Essência. Deus é Trindade.
Vejamos agora a seguinte passagem (1) da Primeira Carta a Timóteo (3,16):

Sim, é tão sublime - unanimemente o proclamamos - o mistério da bondade divina:
Deus foi manifestado na carne,
justificado no Espírito,
visto pelos anjos,
anunciado aos povos,
acreditado no mundo,
exaltado na glória!


Deus foi manifestado em carne”, é o Verbo (Evangelho de João, 1,14).
E agora analisemos uma última passagem, na Carta aos Romanos (9, 4-5)

Eles são os israelitas; a eles foram dadas a adoção, a glória, as alianças, a lei, o culto, as promesas e os patriarcas; deles descende Cristo, segundo a carne, o qual é, sobre todas as coisas, Deus bendito para sempre. Amém.

Também dessa passagem conclui-se que Paulo sustentou a plena Divindade do Filho.
Quem nega a Divindade de Cristo, a qual se deduz dos textos do Novo Testamento, e a qual não é um dogma agregado na época pós-constantiniana, encontra-se, então, ante um dilema de difícil solução. Eles dizem que Jesus Cristo foi um grande sábio, senão o maior de todos os sábios. Mas, como poderia ter sido o maior dos sábios se tivesse mentido? De modo que a verdadeira identidade de Jesus Cristo, consubstancial ao Pai e ao Espírito Santo, Deus mesmo e criador do mundo, resulta clara.
Naturalmente, na vida de Jesus Cristo há vários mistérios que quem acredita aceita por fé.
No entanto, fica ainda um feito fundamental: Deus, o criador do céu e da terra, teria podido muito bem julgar a todos desde o alto, sem vir até nós, sem humilhar-se encarnando em um ser humano. Porém Deus mesmo, infinitamente misericordioso e bom, quis enviar seu Filho para redimir do pecado e pagar por nós na cruz. Deus amava de tal forma o homem que se sacrificou por ele, pagando com o sofrimento na cruz e perdoando assim todos os pecados:

Com efeito, de tal modo Deus amou o mundo, que lhe deu seu Filho único, para que todo o que nele crer não pereça, mas tenha a vida eterna. (João 3, 16).

YURI LEVERATTO
Copyright 2015

(1) Textus Receptus, King James, Reina Valera.