martes, 23 de diciembre de 2014

Expedição ao Rio Galvez, na terra ancestral dos Matsés


A exploração na terra dos indígenas Matsés começou em Iquitos, a capital da região amazónica de Loreto. 
Num avião da "Twin Otter" da Força Aérea Peruana cheguei, depois de aproximadamente uma hora de vôo, ao povoado de Angamos, situado na beira do Rio Yavarí que faz fronteira entre Perú e Brasil.
Durante o vôo observamos imensas zonas de selva virgem. Tivemos a oportunidade de ver o Rio Yavarí e o povoado de Angamos.
Do outro lado do rio, a enorme extenção de selva brasileira, que pertence ao Estado do " Amazonas ". O rio Yavarí sempre foi considerando o confim entre o impêrio espanhol e o português e logo entre Perú e Brasil.
A poucos kilómetros rio acima de Angamos esta a confluência entre os rios Gálvez e Yaquerana: é naquele ponto onde o rio chamá-se oficialmente Rio Yavarí .
A longitude total do Rio Yavaí-Yaquerana e conrtroverso: enquanto que algumas fontes indicam 1050 kilómetros, outros indicam um total de 1550 kilómetros. Pessoalmente considero este último dado, como certo, si analisamos que de Angamos até a boca de Yavarí, no Rio Amazonas perto de Benjamim Constant, tem aprox. 800 kilómetros, não entanto que de Angamos e as fontes do Rio Yaquerana, ubicadas na Serra do Divisor tem uns 700 kilómetros.
O Rio Yavarí e extremadamente sinuoso. Suas beiras são geralmente pouco povoadas.Grande parte da sua bacia, seja na parte brasileira como na peruana, tem por moradores indígenas da etnía Matsés.
No Brasil, os Matsés vivem na "Terra indígena Vale do Yavarí", junto a outros nativos como os Marubos e Matis.
Estes grupos de indígenas se denominam as vezes de mayoruna (do quechua: mayo: rio; runa, gente).

No Peru, os Matsés vivem na beira do Rio Yavarí (Angamos), do Rio Yaquerana (Porto Alegre), do Rio Choboyacu (Buena Loma), e do Rio Galvéz (Remayacu, Buen Peru). Numericamente alcançam uns 3000 pessoas e falam uma lengua do grupo pano. É uma sociedade patriarcal e as vezes poligámica.
Praticam agricultura, cultivam mandioca, banano, pinha e mamão. Caçam animais da selva como o majas (um grande roedor), o zaino e a huangana (porcos selvagens) , e o tapir. Pescam uma multitude de peses amazónicos, como a donzela o acarahuazu, ou a lisa. 
A ideia inicial era entrar no território ancestral dos Matsés no intento de conhecer sua cultura e perceber se seu futuro estaria em perigo.
Depois de ter contactado a um guia experto, o peruano Lucio Peña, e a um conductor de etnia Matsés de nome Wagner, procedi a conseguir viveres suficientes para uma exploração de uns 10 dias.
As 6;30 da manhã, do dia seguinte , embarcamos numa canoa a motor.
Éramos quatro: Lucio Peña, o condutor Matsés Wagner, sua companheira Maria e eu.
Navegamos no início no Rio Yavarí em contra da correnteza. A nossa direita o Peru, e a nossa esquerda o Brasil.
Depois de aproximadamente meia hora de navegação chegamos a confluência do Rio Gálvez com o Rio Yaquerana ( braço principal do Rio Yavarí).
Continuamos subindo o Rio Gálvez como o objetivo de chegar as comunidades indígenas de Remoyacu e Buen Peru. O Rio Gálvez é sinuoso e muda muito se espalha na selva tropical amazónica como uma enorme serpente.

Nas beiras existem árvores gigantescas de até 40 metros de altura. Alguns deles por desgraça são derrubados justamente pelos indios Mátses, os únicos autorizados pelo Estado para efetuar este negocio. De fato os "madeireiros" (ilegais), foram expulsos de toda a zona desde já a vários anos. 
Deve-se perguntar se é justo permitir o comercio de madera a os nativos (que não pertence a suas atividades ancestrais), e em cambio proibir a caça de alguns animais como o zaíno, javalí da selva .
Depois de um dia entero de navegação, chegamos a aldeia indígena de Buen Peru.
Na nossa chegada fomos acolhidos por uma multitude de crianças que nos olhavam incrédulos a atónitos.
Quase ninguém do povoado fala espanhol, e por desgraça, constatei que a maioria das crianças maiores de oito anos e completamente analfabeta. No povoado de Buen Peru vive a irmã de Lucio Peña. Ela foi batizada a 65 anos com o nome de Maria.
Um caso humano muito particular: Lucio Peña nasceu em 1953, e sua irmã Maria em 1949; nasceram no povoado de Jenaro Herrera, na beira do Rio Ucayali. Em 1978, quando Maria tinha 29 anos foi sequestrada por um grupo de indígenas Mátses.
Por essa razão faz 35 anos que Maria (hoje chamada de Juana) vive com os Matsés nas profundezas da selva. Temos que observar que quando Maria Peña foi sequestrada ela estava embaraçada de 3 meses.
Lucio Peña reencontrou a sua irmã somente em 2012, durante uma viagem a Buen Perú. Logo se reconheceram imediatamente, más Maria-Juana hoje não fala espanhol, mas a lengua pano dos Matsés. Com a ajuda de alguns interpretes, Lucio reconstruiu a história-pesadelo de sua irmã.

Durante os anos de 70 e 80 os Mátses viviam fora de controle do Estado.
Eram perigosos e aplicavam qualquer sistema para obter fuzis e armas, o único meio que tinham para defender seu terrritório.
De vez enquanto invadiam os povos da beira do Rio Ucayali, com a finalidade de sequestrar mulheres e homens levanto-os com eles para viver na selva. 
As pessoas (não nativas) eram sequestradas porque uma vez "doutrinadas" , podiam trocar com os povos pelaje a cambio de armas. A um nativo não teria sido possível entrar num povoado para obter armas. O contrario para um peruano mestiço (aliado dos Mátses), era possível.
Os primeiros anos para Maria-Juana foi obrigada a caminhar por meses, formando-se profundas feridas nos seus pês ..Sofreu várias enfermidades como tambem picadas de insetos, (malária e dengue), que provavelmente foi curada com plantas medicinais da selva.Durante anos não conseguia dormir devido a que os Mátses tinham o costume de cozinhar durante a noite, com brasas a os animais capturados e constumavam dormir por cuchilos acordando-se continuamente para vigiar o campamento.
Outra coisa que Maria-Juana desejou por anos, foi o sal. Os Matsés efetivamente não o conheciam , que foi introduzido em sua dieta só recentemente. Para Maria-Juana, acostumada por 29 anos a alimentar-se com comida salgada foi um choque enorme gastronómico e físico. 
Hoje Maria-Juana e uma Mátses. Teve seis filhos durante estos 35 anos. Esqueceu quasi que completamente o espanhol, (devido tambem porque no momento do sequestro era analfabeta) mesmo assim ela recorda algumas particularidades de sua vida passada.
Quando vi a Lucia Peña e sua irmã se abraçarem comoveu-me pensando nos arduos tempos que deve ter sido seus primeiros anos de sequestrada.
Agora Lucio Peña a visita periodicamente, más ela ainda não da sinal de lembrar de modo significativo a primeira parte de sua vida . Passamos alguns dias na comunidade de Reboyacu e Buen Peru, logo continuamos nossa exploração subindo o Rio Gálvez ate a confluência com o Rio Loboyacu, onde começa a "Reserva Matsés" .
Loboyacu e um pequeno afluente do Rio Gálvez, se espalha numa selva espessa, húmeda e arcaica. Seu nome vem da palavra "lobo", termino usado para denominar as numerosas londras que viviam ali.
Navegar ao largo do Rio Loboyacu foi um grande empreendimento. Numerosos troncos de madeira obstruiam o passo e varias vezes nos viamos obrigados a utilizar no solo o machado, como tambem a tocha para poder abrir caminho e avançar com a canoa. Num certo ponto, o Rio Loboyacu comessou a ficar mais estreito e profundo; estávamos entrando no profundo da selva, avançando em direção a oeste até o ponto pela qual deveríamos iniciar nossa difícil exploração por terra.
Somente pelas cinco da tarde, depois de umas dez horas de navegação chegamos a um ponto de onde era impossível continuar com a embarcação. Então resolvemos acampar perto da beira do Loboyacu.
Pela manhã seguinte começamos a caminhar na direção oeste, penetrando na selva, com o propósito de chegar a cidade de Requena, que ficava a 42 kilómetros em linha reta .
A caminhada atraves da "Reserva Nacional de Mátses" foi dura pelo fato que durante o primeiro dia choveu incessantemente.
O sendero transformou-se rápido num rio de barro que se tornara árduo em qualquer passo que nos fizéssemos, Teve um momento que um grupo de Mátses, apareceram no caminho. Eles iam na direção oposta da nossa. Impressionou-me especialmente uma mulher anciana de traços quase oriental, com larga cabeleira lisa. Se deteve a comprimentar a Lucio Peña, olhando-me com desconfiança. Acampamos na beira do Rio Aucayacu, um afluente do Rio Ucayali. 
No dia seguinte, depois de oito horas de caminhada chegamos finalmente a Requena.

YURI LEVERATTO
Copyright 2014

sábado, 6 de diciembre de 2014

Os petroglifos de Cumpanamá, herança de arcaicas culturas amázonicas


A expedição aos petróglifos de Cumpanamá teve lugar em Yurimaguas, um grande povo na Amazonia peruana, na beira do Rio Huallaga, um afluente do Rio Maranhão.
Em Yurimaguas a temperatura supera os 35 grãos e o sol queima a pele.
O dia depois da chegada fomos no mercado barrial, onde além de tomar uma deliciosa sopa de pescado do rio, compramos algumas pilhas, considerando que na zona onde nos nos dirigíamos no havia luz elétrica.
Logo fomos ao porto, ubicado na desembocadura no Rio Huallaga.
A ideia inicial era subir o Rio Paranapura para chegar ao povo de Balsapuerto numa canoa (motor 16CV), mas não encontramos nenhum barqueiro que estivesse a ponto de sair, teríamos que ter esperado mais de um dia para embarcarmos numa canoa publica.
Decidimos seguir por terra, inicialmente de moto, até o povo de Nuevo Arica, e logo a pe ate Balsapuerto.
Na manhã seguinte chegamos a Nuevo Arica, depois de uma viagem incomoda de moto de aproximadamente duas horas.
Desse ponto avançamos através da selva ao largo de um caminho estreito apenas aberto.
Meu acompanhante era Ernesto Sanchez, um guia esperto da zona.
Foi um percurso difícil, não somente pela exuberante vegetação que obstruía o sendero, mas tambem porque depois de umas duas horas comessou a chover, e o sendero transformou-se num viscoso "mar de barro".
Dormimos numa cabana abandonada dos indígenas Shawi.
Na manhã seguinte depois de duas horas caminhando, chegamos finalmente a Balsapuerto, aldeia Shwi, ubicada nas beiras do Rio Cachiyacu, um afluente do Rio Paranapura.
Na manhã seguinte, muito cedo com a ajuda de um guia local, iniciamos a exploração da parte alta do Rio Cachiyacu com a finalidade de chegar aos petróglifos de Cumpanamá.
Depois de aproximadamente três horas de caminho, chegamos perto da enorme pedra de Cumpanamá, ubicada na selva, perto da quebrada Achayacu.
Logo que observei a parede central de 9 metros de longitude e coberta de petróglifos, percebi de esta na presença de um importante sítio arqueológico poco conhecido e pouco estudado.
A forma da pedra lembra a um enorme cilindro irregular. Sua circunferência é de 48 metros e sua altura de aprox. 6 metros.
Por cima de toda sua circunferência estão esculpidos vários petróglifos, de valiosos indícios da visão do mundo dos antigos escultores e entalhadores.
Na parede principal de aprox. 9 metros de comprimento e 2 metros de altura, tem vários petróglifos importantes: antes de tudo o petróglifo do cacique. Observa-se uma máscara-coroa de plumagens que provavelmente adornava o chefe da tribu, notando-se 12 plumas e por baixo delas, doze cavidades.
A sua esquerda aprecia-se um petróglifo do simbolo yin-yang que alguns interpretam tambem como uma concha.
Por baixo do petróglifo do cacique encontramos um símbolo particular: um círculo com linha horizontal no centro. Continuando a direita na parede central encontramos um espiral e um enigmático petróglifo que lembra uma "raquete", dividida por duas linhas horizontais e linhas verticais, formando assim 12 espaços continuos.
A "raquete" é comum em Cumpanamá: tem de fato outras três.
Por cima dela encontramos cinco círculos com alternância um ponto e uma linha horizontal no seu interior.
A direita da "raquete "encontramos , dois espirais. Por cima da "raquete" encontramos um estranho símbolo em forma de L ao contrário, enquanto que a direita de este último tem uma espécie de circunferência com dois alto-relevos no centro. Indo mais a direita vemos um rosto, parecido aos de Pusharo, que possivelmente possa simbolizar uma marca do território. Saindo novamente a estrema-direita da parede principal, encontramos um conjunto fechado com quatro círculos pequenos no seu interior. Por cima de este conjunto de petróglifos nota-se um "quadrado, a sua vez dividido em quatro quadrados"
Caminhando ao redor da pedra no sentido da agulha do relógio, observamos o petróglifo de uma serpente (símbolo do inframundo) , de um jaguar (símbolo do mundo real, da força e da determinação), outra "raquete" e alguns espirais, alem de vários círculos concêntricos.
Na parte superior da pedra nota-se tambem um quadrado com outro quadrado no seu interior.

Ubicação da Pedra de Cumpanamá:
Lat. Sud 5º 52´ 409 ´´, Long Oeste 76º 31´315´´

O conjunto foi fotografado pela primeira vez em 1997 pelo geologo José Sanchez Izquerdo.
Como os petróglifos de Pusharo, a sua origem de estes são amazónicos, provavelmente do período formativo (2000 a.C.), e os autores dos gravados foram possivelmente povos amazónicos ante-passados dos indígenas Shawi que viajavam da selva aos Andes.

YURI LEVERATTO
Copyright 2014