martes, 23 de diciembre de 2014

Expedição ao Rio Galvez, na terra ancestral dos Matsés


A exploração na terra dos indígenas Matsés começou em Iquitos, a capital da região amazónica de Loreto. 
Num avião da "Twin Otter" da Força Aérea Peruana cheguei, depois de aproximadamente uma hora de vôo, ao povoado de Angamos, situado na beira do Rio Yavarí que faz fronteira entre Perú e Brasil.
Durante o vôo observamos imensas zonas de selva virgem. Tivemos a oportunidade de ver o Rio Yavarí e o povoado de Angamos.
Do outro lado do rio, a enorme extenção de selva brasileira, que pertence ao Estado do " Amazonas ". O rio Yavarí sempre foi considerando o confim entre o impêrio espanhol e o português e logo entre Perú e Brasil.
A poucos kilómetros rio acima de Angamos esta a confluência entre os rios Gálvez e Yaquerana: é naquele ponto onde o rio chamá-se oficialmente Rio Yavarí .
A longitude total do Rio Yavaí-Yaquerana e conrtroverso: enquanto que algumas fontes indicam 1050 kilómetros, outros indicam um total de 1550 kilómetros. Pessoalmente considero este último dado, como certo, si analisamos que de Angamos até a boca de Yavarí, no Rio Amazonas perto de Benjamim Constant, tem aprox. 800 kilómetros, não entanto que de Angamos e as fontes do Rio Yaquerana, ubicadas na Serra do Divisor tem uns 700 kilómetros.
O Rio Yavarí e extremadamente sinuoso. Suas beiras são geralmente pouco povoadas.Grande parte da sua bacia, seja na parte brasileira como na peruana, tem por moradores indígenas da etnía Matsés.
No Brasil, os Matsés vivem na "Terra indígena Vale do Yavarí", junto a outros nativos como os Marubos e Matis.
Estes grupos de indígenas se denominam as vezes de mayoruna (do quechua: mayo: rio; runa, gente).

No Peru, os Matsés vivem na beira do Rio Yavarí (Angamos), do Rio Yaquerana (Porto Alegre), do Rio Choboyacu (Buena Loma), e do Rio Galvéz (Remayacu, Buen Peru). Numericamente alcançam uns 3000 pessoas e falam uma lengua do grupo pano. É uma sociedade patriarcal e as vezes poligámica.
Praticam agricultura, cultivam mandioca, banano, pinha e mamão. Caçam animais da selva como o majas (um grande roedor), o zaino e a huangana (porcos selvagens) , e o tapir. Pescam uma multitude de peses amazónicos, como a donzela o acarahuazu, ou a lisa. 
A ideia inicial era entrar no território ancestral dos Matsés no intento de conhecer sua cultura e perceber se seu futuro estaria em perigo.
Depois de ter contactado a um guia experto, o peruano Lucio Peña, e a um conductor de etnia Matsés de nome Wagner, procedi a conseguir viveres suficientes para uma exploração de uns 10 dias.
As 6;30 da manhã, do dia seguinte , embarcamos numa canoa a motor.
Éramos quatro: Lucio Peña, o condutor Matsés Wagner, sua companheira Maria e eu.
Navegamos no início no Rio Yavarí em contra da correnteza. A nossa direita o Peru, e a nossa esquerda o Brasil.
Depois de aproximadamente meia hora de navegação chegamos a confluência do Rio Gálvez com o Rio Yaquerana ( braço principal do Rio Yavarí).
Continuamos subindo o Rio Gálvez como o objetivo de chegar as comunidades indígenas de Remoyacu e Buen Peru. O Rio Gálvez é sinuoso e muda muito se espalha na selva tropical amazónica como uma enorme serpente.

Nas beiras existem árvores gigantescas de até 40 metros de altura. Alguns deles por desgraça são derrubados justamente pelos indios Mátses, os únicos autorizados pelo Estado para efetuar este negocio. De fato os "madeireiros" (ilegais), foram expulsos de toda a zona desde já a vários anos. 
Deve-se perguntar se é justo permitir o comercio de madera a os nativos (que não pertence a suas atividades ancestrais), e em cambio proibir a caça de alguns animais como o zaíno, javalí da selva .
Depois de um dia entero de navegação, chegamos a aldeia indígena de Buen Peru.
Na nossa chegada fomos acolhidos por uma multitude de crianças que nos olhavam incrédulos a atónitos.
Quase ninguém do povoado fala espanhol, e por desgraça, constatei que a maioria das crianças maiores de oito anos e completamente analfabeta. No povoado de Buen Peru vive a irmã de Lucio Peña. Ela foi batizada a 65 anos com o nome de Maria.
Um caso humano muito particular: Lucio Peña nasceu em 1953, e sua irmã Maria em 1949; nasceram no povoado de Jenaro Herrera, na beira do Rio Ucayali. Em 1978, quando Maria tinha 29 anos foi sequestrada por um grupo de indígenas Mátses.
Por essa razão faz 35 anos que Maria (hoje chamada de Juana) vive com os Matsés nas profundezas da selva. Temos que observar que quando Maria Peña foi sequestrada ela estava embaraçada de 3 meses.
Lucio Peña reencontrou a sua irmã somente em 2012, durante uma viagem a Buen Perú. Logo se reconheceram imediatamente, más Maria-Juana hoje não fala espanhol, mas a lengua pano dos Matsés. Com a ajuda de alguns interpretes, Lucio reconstruiu a história-pesadelo de sua irmã.

Durante os anos de 70 e 80 os Mátses viviam fora de controle do Estado.
Eram perigosos e aplicavam qualquer sistema para obter fuzis e armas, o único meio que tinham para defender seu terrritório.
De vez enquanto invadiam os povos da beira do Rio Ucayali, com a finalidade de sequestrar mulheres e homens levanto-os com eles para viver na selva. 
As pessoas (não nativas) eram sequestradas porque uma vez "doutrinadas" , podiam trocar com os povos pelaje a cambio de armas. A um nativo não teria sido possível entrar num povoado para obter armas. O contrario para um peruano mestiço (aliado dos Mátses), era possível.
Os primeiros anos para Maria-Juana foi obrigada a caminhar por meses, formando-se profundas feridas nos seus pês ..Sofreu várias enfermidades como tambem picadas de insetos, (malária e dengue), que provavelmente foi curada com plantas medicinais da selva.Durante anos não conseguia dormir devido a que os Mátses tinham o costume de cozinhar durante a noite, com brasas a os animais capturados e constumavam dormir por cuchilos acordando-se continuamente para vigiar o campamento.
Outra coisa que Maria-Juana desejou por anos, foi o sal. Os Matsés efetivamente não o conheciam , que foi introduzido em sua dieta só recentemente. Para Maria-Juana, acostumada por 29 anos a alimentar-se com comida salgada foi um choque enorme gastronómico e físico. 
Hoje Maria-Juana e uma Mátses. Teve seis filhos durante estos 35 anos. Esqueceu quasi que completamente o espanhol, (devido tambem porque no momento do sequestro era analfabeta) mesmo assim ela recorda algumas particularidades de sua vida passada.
Quando vi a Lucia Peña e sua irmã se abraçarem comoveu-me pensando nos arduos tempos que deve ter sido seus primeiros anos de sequestrada.
Agora Lucio Peña a visita periodicamente, más ela ainda não da sinal de lembrar de modo significativo a primeira parte de sua vida . Passamos alguns dias na comunidade de Reboyacu e Buen Peru, logo continuamos nossa exploração subindo o Rio Gálvez ate a confluência com o Rio Loboyacu, onde começa a "Reserva Matsés" .
Loboyacu e um pequeno afluente do Rio Gálvez, se espalha numa selva espessa, húmeda e arcaica. Seu nome vem da palavra "lobo", termino usado para denominar as numerosas londras que viviam ali.
Navegar ao largo do Rio Loboyacu foi um grande empreendimento. Numerosos troncos de madeira obstruiam o passo e varias vezes nos viamos obrigados a utilizar no solo o machado, como tambem a tocha para poder abrir caminho e avançar com a canoa. Num certo ponto, o Rio Loboyacu comessou a ficar mais estreito e profundo; estávamos entrando no profundo da selva, avançando em direção a oeste até o ponto pela qual deveríamos iniciar nossa difícil exploração por terra.
Somente pelas cinco da tarde, depois de umas dez horas de navegação chegamos a um ponto de onde era impossível continuar com a embarcação. Então resolvemos acampar perto da beira do Loboyacu.
Pela manhã seguinte começamos a caminhar na direção oeste, penetrando na selva, com o propósito de chegar a cidade de Requena, que ficava a 42 kilómetros em linha reta .
A caminhada atraves da "Reserva Nacional de Mátses" foi dura pelo fato que durante o primeiro dia choveu incessantemente.
O sendero transformou-se rápido num rio de barro que se tornara árduo em qualquer passo que nos fizéssemos, Teve um momento que um grupo de Mátses, apareceram no caminho. Eles iam na direção oposta da nossa. Impressionou-me especialmente uma mulher anciana de traços quase oriental, com larga cabeleira lisa. Se deteve a comprimentar a Lucio Peña, olhando-me com desconfiança. Acampamos na beira do Rio Aucayacu, um afluente do Rio Ucayali. 
No dia seguinte, depois de oito horas de caminhada chegamos finalmente a Requena.

YURI LEVERATTO
Copyright 2014

sábado, 6 de diciembre de 2014

Os petroglifos de Cumpanamá, herança de arcaicas culturas amázonicas


A expedição aos petróglifos de Cumpanamá teve lugar em Yurimaguas, um grande povo na Amazonia peruana, na beira do Rio Huallaga, um afluente do Rio Maranhão.
Em Yurimaguas a temperatura supera os 35 grãos e o sol queima a pele.
O dia depois da chegada fomos no mercado barrial, onde além de tomar uma deliciosa sopa de pescado do rio, compramos algumas pilhas, considerando que na zona onde nos nos dirigíamos no havia luz elétrica.
Logo fomos ao porto, ubicado na desembocadura no Rio Huallaga.
A ideia inicial era subir o Rio Paranapura para chegar ao povo de Balsapuerto numa canoa (motor 16CV), mas não encontramos nenhum barqueiro que estivesse a ponto de sair, teríamos que ter esperado mais de um dia para embarcarmos numa canoa publica.
Decidimos seguir por terra, inicialmente de moto, até o povo de Nuevo Arica, e logo a pe ate Balsapuerto.
Na manhã seguinte chegamos a Nuevo Arica, depois de uma viagem incomoda de moto de aproximadamente duas horas.
Desse ponto avançamos através da selva ao largo de um caminho estreito apenas aberto.
Meu acompanhante era Ernesto Sanchez, um guia esperto da zona.
Foi um percurso difícil, não somente pela exuberante vegetação que obstruía o sendero, mas tambem porque depois de umas duas horas comessou a chover, e o sendero transformou-se num viscoso "mar de barro".
Dormimos numa cabana abandonada dos indígenas Shawi.
Na manhã seguinte depois de duas horas caminhando, chegamos finalmente a Balsapuerto, aldeia Shwi, ubicada nas beiras do Rio Cachiyacu, um afluente do Rio Paranapura.
Na manhã seguinte, muito cedo com a ajuda de um guia local, iniciamos a exploração da parte alta do Rio Cachiyacu com a finalidade de chegar aos petróglifos de Cumpanamá.
Depois de aproximadamente três horas de caminho, chegamos perto da enorme pedra de Cumpanamá, ubicada na selva, perto da quebrada Achayacu.
Logo que observei a parede central de 9 metros de longitude e coberta de petróglifos, percebi de esta na presença de um importante sítio arqueológico poco conhecido e pouco estudado.
A forma da pedra lembra a um enorme cilindro irregular. Sua circunferência é de 48 metros e sua altura de aprox. 6 metros.
Por cima de toda sua circunferência estão esculpidos vários petróglifos, de valiosos indícios da visão do mundo dos antigos escultores e entalhadores.
Na parede principal de aprox. 9 metros de comprimento e 2 metros de altura, tem vários petróglifos importantes: antes de tudo o petróglifo do cacique. Observa-se uma máscara-coroa de plumagens que provavelmente adornava o chefe da tribu, notando-se 12 plumas e por baixo delas, doze cavidades.
A sua esquerda aprecia-se um petróglifo do simbolo yin-yang que alguns interpretam tambem como uma concha.
Por baixo do petróglifo do cacique encontramos um símbolo particular: um círculo com linha horizontal no centro. Continuando a direita na parede central encontramos um espiral e um enigmático petróglifo que lembra uma "raquete", dividida por duas linhas horizontais e linhas verticais, formando assim 12 espaços continuos.
A "raquete" é comum em Cumpanamá: tem de fato outras três.
Por cima dela encontramos cinco círculos com alternância um ponto e uma linha horizontal no seu interior.
A direita da "raquete "encontramos , dois espirais. Por cima da "raquete" encontramos um estranho símbolo em forma de L ao contrário, enquanto que a direita de este último tem uma espécie de circunferência com dois alto-relevos no centro. Indo mais a direita vemos um rosto, parecido aos de Pusharo, que possivelmente possa simbolizar uma marca do território. Saindo novamente a estrema-direita da parede principal, encontramos um conjunto fechado com quatro círculos pequenos no seu interior. Por cima de este conjunto de petróglifos nota-se um "quadrado, a sua vez dividido em quatro quadrados"
Caminhando ao redor da pedra no sentido da agulha do relógio, observamos o petróglifo de uma serpente (símbolo do inframundo) , de um jaguar (símbolo do mundo real, da força e da determinação), outra "raquete" e alguns espirais, alem de vários círculos concêntricos.
Na parte superior da pedra nota-se tambem um quadrado com outro quadrado no seu interior.

Ubicação da Pedra de Cumpanamá:
Lat. Sud 5º 52´ 409 ´´, Long Oeste 76º 31´315´´

O conjunto foi fotografado pela primeira vez em 1997 pelo geologo José Sanchez Izquerdo.
Como os petróglifos de Pusharo, a sua origem de estes são amazónicos, provavelmente do período formativo (2000 a.C.), e os autores dos gravados foram possivelmente povos amazónicos ante-passados dos indígenas Shawi que viajavam da selva aos Andes.

YURI LEVERATTO
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viernes, 28 de noviembre de 2014

Expedição na selva de Rondônia: a Fortaleza do Rio Madeira


Vários escritores espanhóis dos séculos XVI e XVII descreveram sobre a expansão dos Incas em direção à Amazônia, para um poderoso reino ou talvez uma confederação de tribos denominadas “Paititi”. 
Esta terra lendária, cuja etnia dominante estava atrelada com os Moxos, situava-se ao nordeste do Rio Guaporé, atualmente território brasileiro.
O primeiro texto que descreve as conquistas de Pachacútec na selva baixa amazônica é “Relacion de los Quipucamayos a Vaca de Castro” (1544), em que se menciona a construção de duas fortalezas nas planícies amazônicas com o objetivo de delimitar e controlar os povos que viviam além da fronteira. 
O bispo espanhol de La Paz, Nicolás de Armentia (1845-1909) descreveu sobre a edificação de duas fortalezas em seu livro “Descrição do território das missões franciscanas de Apolobamba”. Registro aqui uma passagem:

… (O Inca) acabou de se comunicar com o Grande Senhor do Pititi e por intermédio dos presentes, e a mando do Inga que fizesse junto ao Rio de Paititi duas fortalezas em seu nome e em sua homenagem dando conta que havia chegado nesse local sua gente...

Quando Pachacútec morreu, como os povos da selava se negavam a pagar tributo a Cusco, o novo inca Túpac Yupanqui decidiu organizar uma expedição militar para dominar os povos amazônicos, de modo a ter acesso a seus recursos (coca, ouro, etc). O escritor espanhol Sarmiento de Gamboa transmitiu esta segunda campanha militar em sua obra Historias de los Incas (1572). A seguir, um fragmento do seu livro:

E pelo caminho que agora se chama Camata, (Túpac Inca Yupanqui) enviou a outro grande capitão chamado Apo Curimache, quem foi até onde nasce o sol e caminhou até o Rio que agora se tem outra vez notícia, chamado Paititi, onde estão os Moxos do Inca Topa.

No libro de Sarmiento Gamboa se especifica que o general Otorongo Achachi foi o responsável por custodiar as duas fortalezas que tinham sido erguidas por Pachacútec. 
Existe, ademais, outros documentos antigos (Felipe de Alcaua e Francisco Sánches Gregorio mas Cronicas de Lizarazu de 1635) que narram sobre a presença permanente de alguns descendentes da família real inca no Río Guaporé.
Depois dos estudos de vários arqueólogos, entre os quais o finlandês Parsinnen, identificou-se a primeira fortaleza incaica na selva baixa amazônica. Se trata da fortaleza Las Piedras, localizada perto das margens do Rio Beni, próximo à confluência deste rio com o Rio Madre de Dios, em território boliviano. No seu interior foram encontrados muitos restos de cerâmica de notória procedência inca. 
Realizado o descobrimento das “Las Piedras” permanecia então uma dúvida: onde estava a segunda fortaleza inca que é mencionada nas crônicas antigas? 
Em minha recente viagem ao Estado de Rondônia pude realizar duas expedições nas quais aprofundei sobre a possibilidade de que estas velhas crônicas estejam de acordo com a realidade arqueológica. 
Junto com alguns investigadores brasileiros avancei com a investigação da cidade perdida de Laberinto, lugar enigmático que pude ter sido utilizado por alguns descendentes da família real incaica com finalidade de realizar as cerimonias. 
Depois soube sobre a possibilidade de encontrar certas raras ruinas na selva situada na vertente norte do Rio Madeira, ainda no Estado de Rondônia. Portanto, decidi organizar a segundo expedição em terras brasileiras. 
Primeiro viajei a Abuná, um pequeno vilarejo localizado nas margens do Rio Madeira, onde tive contato com vários idosos que me confirmaram sobre a presença de ruinas pouco identificadas em um lugar localizado, aproximadamente, um dia de caminhada a beiras oposta do Rio. 
De imediato conheci um guia local, Francisco Chogo dos Santos, quem aceitou acompanhar-me junto com o ajudante Saviano Bebizao. 
Na manha seguinte chegamos às margens do Rio Madeira e, com a colaboração de um barqueiro, navegamos até um ponto situado além do rio, a mais ou menos uma hora de navegação de Abuná. Daquele ponto começamos a caminhar em direção nordeste, na selva adjacente al Rio Madeira. 
É uma zona de selva densa e inundada; com efeito, em muitos trechos a água alcançava até os joelhos. Depois de aproximadamente uma hora de caminhada, avançado a golpe de machados, nos encontramos em frente a um rio bastante fundo chamado Simauzinho. Sua travessia foi muito complicada não apenas pela profundidade, que alcançava um metro e sessenta centímetros, como também porque a agua era torva e o fundo lamacento. 
Eu o atravessei com a água a uma altura do peito, sustentando a minha mochila no ar, de modo a não molha-la, temendo um ataque de serpentes, jacarés e arraias de rios, numerosíssimas naquela região. 
Continuamos caminhando durante toda a jornada até que chegamos a um lugar onde havia vários gigantescos penhascos em pleno coração da selva. 
A impossibilidade de lograr nosso objetivo do dia nos convenceu sobre a necessidade de preparar um campo base para nos arredores daquelas falésias, principalmente, porque na região havia um arroio onde corria água fresca e pura.
Enquanto meus guias acendiam o fogo para cozinhar, procedi com a exploração da área, precavendo-me de estar caminhando nas chamadas terra preta amazônica, um solo rico em restos antrópicos tais como ossos triturados de animais de curral e pedaços de cerâmica utilitária, sinais de antiga presença humana ali.
Na manha seguinte prosseguimos avançando em direção a nossa meta: uma alta colina de origem vulcânica de uns 15 km do Rio Madeira. 
Em duas horas de caminhada chegamos às fraldas da alta colina rochosa. Dei-me conta de imediato de que me encontrava em um lugar particular, onde antigos povos viveram no passado, aproveitando a disposição elevadas da selva baixa amazônica. 
No cume das colinas pedregosas avistamos uma alta muralha de até um metro de espessura e, em alguns pontos, de até dois metros de altura. 
Depois de ter entrado na antiga construção pude me dar conta de seu tamanha e extensão. Trata-se de uma muralha defensiva que cerca toda a colina rochosa. Seu diâmetro é de aproximadamente 200 metros, enquanto sua longitude total, ou bem sua circunferência, chega a 600 metros. 
Do interior da obra se pode observar a selva baixa amazônica de uma posição elevada e privilegiada. Ademais, se pode marcar, uma parte afastada do Rio Madeira, localizado uns 12 km em linha reta.
Esta edificação, que denominei Fortaleza del Rio Madeira (alguns habitantes de Abuná a conhecem como Serra da Muralha, reconhecendo assim a colina, no seu lugar arqueológico), é, em minha opinião, pré-colombiana, por várias razões. 
Antes de tudo, válido especificar que os portugueses chegaram a estabelecerem-se no atual território do Rio Madeira, apenas por volta de 1750. Em 1776 iniciaram a construção da Fuente Príncipe da Beira, nas margens do Rio Guaporé. Se a fortaleza do Madeira tivesse sido construída pelos portugueses, o ato de fundação tinha sido registrado em alguma crônica do século XVIII, mas não existe nenhum sinal de tal documento. 
De outra parte, descarto que tenha sido edificada por espanhóis, já que encontraríamos o ato de fundação em algum informe do império espanhol. 
Além do mais, o tipo de construção não é europeu e os portugueses não tinham necessidade de cimentar uma fortaleza defensiva tão distante do Rio Madeira. 
Resta, portanto, a hipótese de que a fortaleza tenha sido construída por povos indígenas amazônicos. Nossa experiência, contudo, sinaliza que eles não costumavam edificar em pedras, salvo raras ocasiões. 
Portanto, a suspeita de que a Fortaleza do Madeira seja uma construção inca se reforça, também considerando as crônicas antigas que citei ao início do artigo. 
Se estudos arqueológicos vindouros comprovarem minha teoria, chegaríamos a conclusão de termos encontrado a segunda fortaleza construída por Pachacútec, uma prova de que a terra lendária do Paititi se localiza no atual território de Rondônia.
Em adição, a fortaleza do Madeira se estende em direção ao acidente a zona de influencia inca, que até hoje acreditava-se que chegava só até a fortaleza de Las Piedras, na atual cidade de Riberalta, em Bolívia. 
Depois de ter explorado a área, retornamos ao campo base. No dia seguinte caminhamos até o Rio Madeira, onde na primeira tarde nos encontramos com nosso barqueiro, quem estava nos esperando para nos levar de volta a Abuná.

YURI LEVERATTO 
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martes, 25 de noviembre de 2014

Expedição na selva do Rio Guaporé: o sítio arqueológico da cidade Laberinto


O Rio Guaporé  (também chamado de Rio Iténez,1749 de longitude) nasce no Estado brasileiro de Mato Grosso e flui em direção noroeste, desembocando no Rio Mamoré.  
Seu curso define os confines entre Bolívia e Brasil, especificamente entre os departamentos bolivianos de Santa Cruz e Beni com os Estados brasileiros de Mato Grosso e Rondonia. 
Desde os tempos dos Incas, o Rio Guaporé representa uma linha de fronteira, muito além das terras místicas e pouco conhecidas, como o lendário Paititi. 
A continuação, segue um trecho da obra do escritor espanhol Sarmiento de Gamboa Historia dos Incas (1570): 

E pelo caminho que agora se conhece como Camata, (Túpac Inca Yupanqui) mandou para outro grande capitão apo Curimache quem foi até onde nasce o Sol e caminhou até o rio que agora novamente se noticia, chamado Paititi, onde estão os Moxos do Inca Topa.

O lendário reino do Paititi se localiza perto de um rio denominado justamente Paititi, e coincidia com as terras dos indígenas Moxos. Segundo Sarmiento de Gamboa, os Incas mantinham boas relações com o reino dos Moxos e com os habitantes do Paititi, porém ergueram duas fortalezas para delimitar a influencia do império incaico, uma das quais foi descoberta em Riberalta, perto da confluência do rio Beni com o rio Madre de Dios, enquanto se ignora sobre possível localização da outra. 
Segundo as Crónicas de Lizarazu (1635), os Incas não se limitaram a construir as duas fortalezas, más que isso, se estabeleceram no reino do Paititi, assumindo o seu controle. Registro aqui dois fragmentos da antiga narrativa: 

O inca de Cusco enviou seu neto Marco Inca, o segundo a ter esse nome, a conquista dos Chunkos, índios Caribe que vivem na selva do oriente de Cusco, Chuquiago e Cochabanba. E Manco entrou na selva com oito mil índios armados, levando consigo seu filho.
E considerando a dificuldade do terreno, (Manco) povoou a parte contrária da montanha do Paititi, onde, dizem os índios Guaraní (os quais chegaram a conhecer a este poderoso senhor), que naquele monte se existia uma grande quantidade de prata, e que dali se extraíam o metal,  depuravam, fundiam e transformavam em prata perfeita.

É realmente possível que Manco (não confundir com Manco Inca) tenha governado o Paititi? Existem, ademais, outros documentos arcaicos que narram sobre a fuga de Guaynaapoc (filho de Manco) até o Paititi, com o objetivo de esconder os símbolos sagrados do Tahuantisuyo em um lugar oculto, seguro e muito distante de Cusco. Aqui deixo o relato de Felipe de Alcaya publicado nas Crónicas de Lizarazu (1635):

Quando finalmente o “rei pequeno”(Guaynaapoc) chegou à cidade de Cusco, encontrou toda a terra conquistada por Gonzalo Pizarro, a seu tio (Huáscar) assassinado pelo rei de Quito (Atahualpa) e ao outro Inca afastado em Vilcabamba (Manco Inca).
E naquela ocasião tão peculiar reuniu todos os índios que estavam do seu lado e os convidou para segui-lo pra a nova terra descoberta por seu pai (Manco), chamada Mococalpa (hoje denominada Moxos) .... Em torno de vinte mil índios seguiram Guaynaapoc ... levaram muitas cabeças de gado e artesanatos de prata e, durante o caminho, outros indígenas das planícies se uniram a multidão, que finalmente chegou ao rio Manatti (1). 
E, finalmente, chegaram ao Paititi, onde foi alegremente recebido por seu pai e outros soldados, e sua felicidade se duplicou por encontrar-se em um reino e distante de Cusco, que já estava nas mãos dos invasores.

Este lendário lugar, o Paititi, também conhecido como terra mística onde se preservaram as tradições antigas, vem sendo procurados por aproximadamente 500 anos em inúmeras expedições, más ninguém nunca havia encontrado. Se tentou localizá-lo em Peru, Bolívia e também no Brasil, porém ninguém logrou encontrar provas fidedigna sobre a sua verdadeira existência.   
Durante minha última viagem a Bolívia e ao Brasil pude levar a cabo algumas expedições para tentar colocar luz sobre o mistério do passado. 
Em Bolívia, junto com o piloto investigador Jorge Velarde, tive a oportunidade de realizar uma exploração aérea do parque nacional Noel Kempff mercado, com o desiderato de reconhecer desde o alto indícios importantes destas antigas culturas.  
A expedição foi um êxito, pois conseguimos documentar não apenas dezenas de lagos modificados pelo homem e orientados no eixo nordeste sudoeste, como também muitos terraplanes e colinas artificiais. 
No Brasil, por outro lado, com outros investigadores do Estado de Rondônia, pude realizar algumas viagens tanto pela bacia do Rio macho, como  pela bacia do rio Guaporé. 
Nossa expedição na selva do rio Guaporé tinha por meta encontrar eventuais restos das culturas incas o pré-incas que pudessem atribuir à lendária viagem de Marco e a chegada de seu filho Guaynaapoc à terra do Paititi.
Nosso objetivo era uma zoa da selva situada nos arredores do forte Principe da Beira, um importate baluarde erguido pelos portugueses em 1776 para demarcar e cotrolar o território situado a oeste do rio Guaporé, que pertencia a Partugual desde 1750 (tratado de Madrid). 
Na vertente ocidental do rio Guaporé, os espanhóis já tinham construído a missão Santa Rosa (1743), a qual, não obstante, foi efémera porque toda a região já se encontrava sob o controle dos portugueses. 
Os participantes da expedição foram: o perito em questões indígenas Evandro Santiago, o professor de história e filosofia Zairo Pinheiro, o investigador Joaquim Cunha da Silva e eu. Nos acompanhava o guia local Elvis Pessoa. 
Entramos na selva, em um lugar distante uns quatro quilómetros do grandioso forte Príncipe da Beira. Depois de avançar meia hora, nos deparamos com umas ruinas, com muros antigos de uns dois metros de altura. Depois, caminhando em direção sul, descobrimos outro muro, dessa vez, de aproximadamente, 4 metros de altura e 15 de comprimente (longitude). 
A construção era rústica, com pedras não muito grandes, ensambladas entre elas de modo imperfeito. Depois de uns 20 metros encontramos outra muralha, más na parte oposta à primeira (para o leste), formando uma espécie de barranco.  A vegetação no seu interior era tão densa que resultava efetivamente difícil distinguir muitos detalhes sem aproximar-se das muralhas. Depois, outra vez ao lado direito, notei que a muralha formava um canal para o oeste, mais estreito, contudo, cheio, por completo, de uma vegetação muito densa (de cerrado).
Posteriormente, seguimos avançando com dificuldades até chegar a uma estranha construção de pedra em forma quadrada de uns 5 metros de lado, onde era possível entrar passando por um portal que dava para o norte. 
Os lados da construção estão compostos por muros destruídos de uns 50 cm de altura, enquanto o portal era bastante conservado, construído com um arquitrabe (ábaco) de um metro de largura, aproximadamente, o qual sustenta as pedras rústicas colocada sob ele. A fachada possui uns 2.30 metros de altura. 
Nosso guia Elvis nos contou que todo o lugar arqueológico é denominado Cidade Laberinto. 
Durante toda a jornada continuamos explorando a zona, sempre atentos ao fato de que o rio Guaporé está muito distante da Cidade Laberinto, mais de um quilómetro. Ademais, exploramos a parte alta dos montes delimitados por altas muralhas rústicas, encontrando quartos irregulares de aproximadamente dois metros de largura, delimitadas por pedras que não encaixam perfeitamente. 
Na manhã seguinte exploramos, ademais, uma zona situada a leste do portal, distante uns 700 metros, e também naquele lugar descobrimos vários recintos ou bases de velhos cimentos, mas não nas altas muralhas do Labirinto.  
Dali voltamos ao Laberinto, concentrando-nos não apenas no interessante portal, onde se percebe os sedimentos localizados no solo, que possuem uns 50 centímetros de espessura, mas também, sobretudo, nas muralhas e nas bases de antigos cimentos que existem  nos espaços encima deles. 
Uma vez concluída a exploração,  passamos alguns dias no povoado costeiro da Costa Marques, durante os quais surgiu o debate entre a gente sobre a verdadeira origem do Labirinto. 
O fato de que o forte português Príncipe da Beira esteja a apenas 4 quilômetros de distancia podia fazer pensar que o Labirinto fora utilizado como obra de onde os portugueses de 1776 retiravam e trabalhavam as pedras par depois transportá-las até o forte em embarcações pela corrente do rio Guaporé.  
Segundo algumas investigações de Rolim de Moura, ademais, o portal foi construído para conservar as munições dos portugueses em um lugar seguro e longe do forte. Estes investigadores, entretanto, não explicam por que foram erguidos muros de até 5 metros de altura com técnicas rústicas e, sobretudo, por que existe cimentos de casas nos espaços encima dessas construções. 
De outra parte, não esclarece por que os portugueses, que raciocinavam com a lógica ocidental, construíram um portal que dava para o norte em pleno coração da selva justo em um ponto onde viveram povos indígenas no passado.   
Na minha opinião, a Cidade Laberinto é muito interessante histórica e arqueologicamente falando, e apesar que não se pode dá um juízo definitivo, pois até agora não se efetuou as escavações apropriadas, é possível fomentar algumas hipóteses.  
Me parece que as altas muralhas (pelo menos 4, más podia haver outras) não podiam ter sido construídas pelos europeus do século XVIII porque são rústicos e imperfeitos. Sua função para ser a de delimitar zonas elevadas, montículos, encima dos quais que restos de cimentos de casas que, por sua forma e estrutura, não podiam ter sido construídas nem por espanhóis nem por portugueses. 
Existe também poucas probabilidades de que as muralhas tenham sido edificadas por indígenas da selva baixa amazónicas, os quais, historicamente, não tinham a habilidade de edificar estruturas em pedra. 
Portanto, a Cidade Labirinto podia ter sido construído por povos indígenas andinos andinos por enquanto desconhecidos ou talvez descendentes da família real incaica que se esconderam na parte ocidental do rio Guaporé, como se extrai da crónica de Felipe de Alcaya. 
No tocante ao portal, as opiniões também são antagônicas.
Ainda que Laberinto tenha sido utilizada como depósito de onde os portugueses extraíam as pedras, que necessidade havia de edificar apenas um portal voltado para o norte? Certamente, não com propósito residenciais. Com efeito, se fosse assim, teriam erguido outros. Para esconder munições? É uma possibilidade, porém até agora não está comprovada. 
Meu veredicto final é que toda a área estava povoada por indígenas da selva baixa amazónica. Existe uma forte possibilidade de que Laberinto tenha sido modificada por descendentes dos Incas e utilizada como centro de cerimonias durante uns 200 anos (de 1540 a 1740 d.C), tendo em conta que, com a chegada dos europeus à região, é possível que a tenham abandonado e depois fora utilizada por portugueses para extrair pedras preciosas destinadas a construção do forte Príncipe da Beira. 
Na área foram encontrados numerosos machados de origem inca e abundante cerâmica de diferentes estilos. Alguns fragmentos foram refinados e desenhados magistralmente, enquanto que outros são rústicos e talvez serviram somente como recipientes. 
Caso se comprove a origem inca das muralhas de Laberinto, se pode pensar que funcionou como um centro cerimonial onde os descendentes de Huáscar conservaram vivas as antigas tradições. Talvez tenha sido utilizada para se reorganizar com o desiderato de fundar uma cidade propriamente dita, o famoso Paititi, mais ao interior, relativamente afastado do rio Guaporé. Talvez dentro do Parque Nacional Pacaas Novos, onde surge a Tracoá (pico Jarú), a montanha mais alta de Rondônia? 
  
YURI LEVERATTO 
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(1) Rio Guaporé.

miércoles, 29 de octubre de 2014

Expedição ao Rio Alto Madidi



Os objetivos da Expedição ao Alto Madidi foram três. Primeiramente, o reconhecimento, a documentação e o estudo da fortaleza megalítica de Ixiamas, situada na selva alta, a uma altura de aprox. 900 msnm, nos confíns do Parque Nacional do Madidi.
No segundo lugar, a exploração efetiva do Rio Alto Madidi com fins naturalistas, para conhecer o estado de conservação de uns dos últimos paraisos amazónicos, ainda igual como era antes da chegada do homem.
O terceiro objetivo foi antropológico a saber, verificar e de ter a possibilidade de comprovação da existência do mítico povo dos Toromonas ao interior do Parque pelas quais ouve-se rumores desde muitos anos .
Os primeiros três dias da expedição consistiu no reconhecimento da imponente fortaleza megalítica de Ixiamas, situada numa posição dominante, que foi construída por povos pre-incaicos.
No terceiro dia da expedição conseguimos ubica-la em detalhes. Nessa mesma tarde voltamos ao acampamento 2, de onde continuamos ao largo do leito de um riacho, em direção ao Rio Tequeje.
Chegamos ali ás três da tarde e continuamos o caminho pelas suas beiras, vendo-nos obrigados a atravessa-lo varias vezes, com a agua na cintura.
As 5:30 da tarde paramos e preparamos o campo 3.
Já no interior do Parque Nacional Madidi, uma das últimas áreas totalmente virgem do planeta.
O Parque, de uma extenção de quasi 19000 kilómetros quadrados, começa de 5760 msnm até os 180 msnm, razão pela qual consegue ter todos os climas de Sud América. O rio mais importante do Parque é oviamente o Rio Madidi, considerando seu conjunto inicial, tem uma longitude de 595 kilómetros até sua desembocadura no Rio Beni.
Ao quarto dia continuávamos caminhando pelas beiras do Rio Tequeje, sempre acompanhados por assobÍos da ave chamada Aguazil. Durante a caminhada encontramos a dois procuradores de ouro explorando as beiras do rio para encontrar o cobiçado metal amarelo.
Ás cinco da tarde chegamos ao lugar onde o Rio Yuama desemboca no rio Tequeje.
Perto montamos o campo 4. Meus dois guias dedicaram-se de imediato a pesca e em poucos minutos voltaram com dois grandes pescados chamados Ventea, que cozinhamos de treis formas: fritos, fervidos, e assados envoltos em grandes folhas, Ao quinto dia começamos nossa caminhada começando pelo Rio Yuama, e a medida que avançávamos o caminho tornava-se sempre mais apertado e sinuoso. A um determinado momento penetramos na selva seguindo um sendeiro apenas demonstrado: era o caminho indicado para o Alto Madidi. A caminhada começou a complicar-se a causa da espessa vegetação e de insuportáveis mosquitos que penetravam diretamente nos nossos olhos.
Atravessamos muitos afluentes secundários do Yuama, paradisíacos riachos, que com a sua agua fresca e pura nos aliviou a sede várias vezes. Em certo momento paramos para descansar. Justamente por perto tinha restos de carcassa numa armadilha. Meu guia assegurou-me que este animal tinha sido a comida de um jaguar; efetivamente ao redor podia-s e notar as pegadas de um felino. E os ossos? Perguntei. Também os comeu, respondeu. Logo continuamos caminhando, mas avançar era uma tarefa tão difícil, inclusive porque as vezes meu guia perdia o caminho correto, que continuamente me perguntava se não estaríamos andando em círculo.
O calor úmido me sufocava, a sombra me oprimia e a selva estava-me derretendo, cozinhando meu cérebro. Foi então quando chegamos a um lugar situado em plena selva, más a nossa sorte estava do nosso lado, perto divisamos um riacho onde preparamos o campo 5.
Depois da ceia, antes de dormir, ouvimos uma incrível sinfonia de animais selvagens: coaxar de rãs, canto de goriões especie de pardal e outras especies de aves, e para completar um forte assobiar de cigarras.
A noite estava iluminada por enchames por simpáticos vagalumes que nos acompanharam até nos adormecer.
Ao sexto dia começamos a subir até a cordilheira que divide a bacia do Téqueje com aquela do Madidi.
Foram quatro horas de caminhada através de uma selva quasi impenetrável, mesmo assim ao meio dia chegamos a divisória: ao longe percebia-se a amplitude do vale virgem do Rio Madidi, uma vista paradisíaca, depois de tanta fatiga.
Ao principio descemos por um estreito e empinado costão, e caminhamos pelo leito de um torrente seco.
Depois de uns 200 metros, começava a aparecer debaixo das pedras agua fresca e pura. Nos encontrávamos perto das fontes de Iridia, um afluente do Madidi. E assim continuamos durante toda a tarde pelas beiras pedregosas do Iridia, entrando num vale mágico que me lembrava o "mundo perdido" de Conan Doyle. Durante o recorrido comimos uma fruta silvestre chamada pacai, praticamente uma semente rodeada de uma polpa açucarada, envolta numa robusta casca verde.
As cinco horas chegamos a confluência do Iridia com o Rio Alto Madidi, onde organizámos o campo 6.
A primeira vista, o Rio Madidi aparentava um rio lento com algumas tonalidades esverdeadas. Meus guias imadiatamente pescaram uma ruta e um venton, que cocinamos férvidos. Durante todo o sétimo dia continuamos avançando pelas beiras do Rio Alto Madidi. As 12 avistámos um pequeno caimán espécie de jacaré numa praia do rio. Logo submergiu rapidamente impedindo-nos de filma-lo. Foi então quando atravessámos o rio num certo ponto onde a correnteza estava forte e a agua escorria límpida e cristalina.
Naquele momento lembrei de uma frase que falou-me um velho explorador alemão que conheci anos atrás num bar do bairo histórico de Santa Fé de Bogotá, La Candelária :
"Enquanto no bebas agua do Rio Alto Madidi, não poderás dizer que conheces realmente a selva!".
Desse modo cumpri com o rito: parei e bebi aquela agua pura e morna, em memória daquele viajante teutónico.
Pela tarde avistamos muitos pássaros, entre os quais o "martín pescador" e muitos abutres.
Paramos até as seis da tarde, organizando o campo 7.
Meus dois guias pescaram rapidamente duas grandes yatoranas, que cozinhamos numa sopa de arroz, cebola e abóbora.
No amanhecer do oitavo dia retomamos o caminho, já as sete horas da manhã o sol ardente obrigou-nos a beber constantemente agua do Rio Madidi, que a mesma era quente.
Apesar disso as vezes bebíamos agua mais fresca e pura de algum pequeno afluente, calmando a sede e refrescando-nos.
Durante a caminhada observamos alguns macaco aranha e capuchinos que se enroscavam nas ramas de altíssimas árvores.
Nos olhavam de longe como fóssemos extraterrestres e mexiam as ramas como nos quisessem assustar, ou chamar a atenção.
Com o passar das horas, a nossa caminhada fazia-se sempre mais difícil, já que o Rio Alto Madidi tinha recebido agua de vários afluentes e tinha-se alargado. O espaço para caminhar pelas suas orlas era cada vez mais estreito. Em várias oportunidades nos afundávamos no barro até a cintura em outras tivemos que voltar a selva utilizando o machado para poder avançar paralelamente seguindo o rio. Por sorte começou a chuva vagarosamente e o ar ardido refrescava-se um pouco.
As cinco da tarde paramos enquanto continuava chuviscando, más logo depois saiu o sol outra vez, criando magníficos jogos de luzes. Preparamos então o campo 8. Meu guia sugeriu-me que o modo mais eficaz de avançar era provavelmente com a balsa. Nos aliviaria a fadiga de ter que caminhar carregando nossas pesadas mochilas, apesar de que tambem poderia ser perigoso pela possibilidade de cair na agua quando a embarcação percorrece através das tramas onde a correnteza era impetuosa. Então de comum acordo, decidimos iniciar a preparar a balsa pela manhã seguinte.
Logo preparamos a janta, acompanhados por um forte grasnar de papagaios araras e outros.
Durante a noite despertei para urinar e de repente senti um estranho cheiro perto, alarmei-me e voltei a barraca novamente.
Minutos depois aquele barulho parou e logo adormeci.
Pela manhã seguinte, ao redor do nosso acampamento tinha numerosas pegadas de jaguar. Apavorei-me pensando que o felino estava a poucos metros de mim de noite e que seguramente me espiava.
Durante a manhã do nono dia, preparamos a balsa. Unimos seis grossos troncos com juncos e logo, as onze começamos a navegar. O clima tinha mudado em respeito aos dias anteriores: o céu estava cinza e caía um tênue chuvisco insistente.
Desde o começo da navegação percebi que não seria fácil avançar com a balsa.
A correnteza era muito débil e em alguns trechos a balsa se encalhava entre as pedras do rio tinhamos que baixar e reubica-las criando um corredor navegável, de ao menos 40 centímetros de profundidade, que nos permitiria avançar.
Era um trabalho agotador. Durante a navegação tudo era um escapulir de peixes: surubi, pintado, yatorana, pacu, robalo e outros. Este rio está realmente repleto de peixes, que alí pela total ausência de pescadores tenham conseguido se reproduzir sem problemas. Durante uma parada consegui filmar uma arraia num espelho de agua tranquilo. É um peixe peligroso pelo fato de que pode golpear com seu potente agulhão.
Ademais, vimos muitos gansos pretos que esvoaçavam na selva assustados pelo nosso passo, e uma grande galinha silvestre de cor preta com um vistoso bico amarelo.
Num certo momento chegamos a confluência do Rio Agua Clara (Yurirari em idioma tacana), com o Rio Alto Madidi.
Decidi amarrar a balsa e segui a pé subindo o Agua Clara durante mais o menos uma hora, com o propósito de encontrar algumas pegadas humanas de indígenas ilhados, os legendários Toromonas. Caminhamos pelas orlas do Rio Agua Clara durante duas horas, explorando alguns dos seus afluentes e logo regressamos até o Rio AIto Madidi. Não vimos nenhuma pegada humana, e isto faz pensar que si é certo que os Toromonas vivem ainda, devem ubicar-se provavelmente nas fontes do Rio Agua Clara ou mais longe da divisória, nas cabeceiras do Rio Colorado que desemboca na cuenca do Rio Tambopata.
Logo retomamos a navegação e depois de poucos minutos avistámos outros macacos aranha na parte más alta de frondosas árvores. Pensamos parar entre as três da tarde e preparamos o campo 9 numa grande praia. Pela manã seguinte fui acordado pelo meu guia mostrando-me um paquiderme que estava na beira do rio. Não consegui filma-lo, más de longe pudemos reparar sua corpulente forma.
Logo o sol apareceu sufocante e nos acompanhou durante todo o dia.
No transcurso da jornada consegui um jacaré e algumas capivaras que se esvoaçavam na selva assustados pelo nosso passo.
A continuação paramos para comer um pescado que meu guia tinha capturado na noite anterior. Era um pintado cozido em folhas com sal e limão e estava realmente especial. Pela tarde notamos tantos peixes: bagre, tuyuno, sierra, yatorana, e uma grande tortuga do rio que parecia desejar compartir com a nossa balsa.
No fim da jornada, completamente exaustos paramos pra preparar o campo 10, onde dormimos.
No amanhecer do décimo primeiro dia retomamos a lenta navegação. Peça manhã observamos algumas lontras que consegui filmar . Ao meio dia paramos para almoçar debaixo de uma grande frondosa árvore, mesmo assim o calor angustiante e a ausência total de vento nos sufocava. Pela tarde continuamos navegando no rio, perguntando-nos se teria fim.
Olhando o meu GPS, nos encontrávamos aproximadamente um dia de navegação do posto de controle do parque Nacional Madidi, de onde se bifurca um senderio na selva em direção da comunidade de camponeses chamados El Tigre.
Pela noite cansados e famintos preparamos o campo 11 numa enorme praia onde dormimos.
Pela tarde no duo décimo dia chegamos ao posto de controle do Parque Madidi encontrando-o abandonado.
Nas próximidades tinha grandes pinhas agrias, ainda verdes, mesmo assim nos com sede cairam muito bem, acalmando nossa sede. Depois de ter preparado o campo 12 caímos num profundo sono.
Ao décimo terceiro dia caminhamos aprox. 20 kilómetros através uma densa selva más com sendeiro.
A uma certa altura tropeçamos com um imenso formigueiro. Tinha miles de milhões de insetos de todos os tamanhos.
Também tinha temíveis formigas de até 3 centímetros de comprimento dotadas de uma grande mandíbula, que uma sua picadura pode provocar uma grande dor. Não tinhamos modo de contornar este enorme formigueiro, pela qual tivemos que correr para evitar que nos invadissem.
Durante o caminho fotografei alguns papagaios da especie (ara macao) e também grandes tortugas da terra. Logo nos encontramos uma enorme teia de aranha. Pudímos observar muitas aranhinhas, mas também um imenso aracnidio.
Meu guia contou-me que a mãe dele tece a teia para seus pequenos e logo abandona e va a procura de outro lugar para reproduzir novamente. Ao meio dia chegamos a um riacho onde se encontrava uma família de indígenas Chimanes, os adultos estavam cozinhando pescado em grandes folhas, enquanto as crianças comiam a fruta pacai.
Continuamos atravez a selva durante toda a tarde.
As 3 da tarde o céu obscureceu e nuvens ameaçadoras se adensavam no horizonte. Começou a trovejar e a ventar forte, más extranhamente não chovia. Durante a caminhada vi algumas pecuarías, e alguns outros mamíferos.
Quando perto das cinco, nos paramos para organizar o campo 13, continuava trovejando forte más sem chover.
Somente as 7 da noite a agua caiu com uma intensidade cada vez maior. As 8 o dilúvio incessante o temporal colocou a dura prova nossas barracas, e o perigo maior foram os raios que descarregavam eletricidade a poucos metros do nosso campamento. Seguiu chovendo toda a noite, e também o nosso úmido despertar do céu cinzentado, continuavam caindo insistentemente, grandes gotas de agua fria. O clima tinha mudado completamente em respeito aos torrados dias do Madidi.
Agora o termómetro indicava 15 grãos e inclusive o vento fresco soprava do norte.
O décimo quarto dia o passamos caminhando num sendeiro barroso e viscoso, até chegar a comunidade de camponeses chamados o Tigre. São pessoas originarias de Potosí, pela qual estabelecer-se nesta remota parte da selva, com o fim de lavrar a terra. Preparamos o campo 14 na beira do riacho, a umas 3 horas do caminho más longe do Tigre.
O dia seguinte, décimo quarto dia da nossa expedição, conhecemos alguns bolivianos que estavam fazendo censo das árvores que se derrubariam proximamente. Um fato inesperado foi justamente fora do Parque, as empresas para o corte de madeira apreciada exercem com tranquilidade e somente o status de “inatingíveis” do Parque conseguiu deter o corte por agora. Com um daqueles jovens segui de moto até o povinho de Ixiamas, enquanto meus dois guias me alcançaram depois de algumas horas montados, por cima de um caminhão destinado ao transporte de madeira.
As 3 da tarde nos reencontrámos no caloroso povo de Ixiamas, de onde numa van, de transporte público, chegamos novamente a Rurrenabaque, em 4 horas de viagem.
Os resultados da expedição foram vários :
Primeiro de tudo, o reconhecimento e a descrição da misteriosa Fortaleza de Ixiamas.
Segundo lugar, o avistamento de várias especies de animais no interior do Parque, prova principal que seu estado de conservação é excelente.
Não pude verificar a existência dos lendários Toromonas, que provavelmente vivem em zonas ainda mais remotas do Parque, nas cabeceiras de alguns afluentes do Rio Alto Madidi ou do Rio Colorado.

YURI LEVERATTO
Copyright 2011

martes, 28 de octubre de 2014

A fortaleza megalítica de Ixiamas



Foram muitos os objetivos da expedição ao Alto Rio Madidi.
Primeiramente a documentação fotográfica, reconhecimento e estudo da fortaleza de Ixiamas, uma estrutura pre-inca imponente, situada no departamento de La Paz.
Em segundo lugar, a verificação real, para fins naturalistas, do Rio Alto Madidi, localizado no Parque Nacional Madidi, na floresta tropical da Amazônia boliviana. Eu queria conhecer pessoalmente as condições encontradas no parque e os animais que nela habitam.
O terceiro objetivo da expedição ao Alto Rio Madidi era de interesse antropológico: estava interessado em verificar a existência dos míticos Toromonas, um grupo étnico que supostamente vivem na parte mais interna do parque, completamente isolado do resto da população boliviana.
Quando cheguei à Rurrenabaque, agradável cidade localizada às margens do Rio Beni, entrei em contato com meus guias especializados e Felix Quajera y José Tirina. Nos dias seguintes organizamos à expedição e o planejamento de como chegar a áreas de floresta primária extremamente remota onde nenhum ocidental nunca pôs pé.
Partimos da aldeia de San Buenaventura, localizado na margem oposta do rio Beni, e no departamento de La Paz. Em uma perua cheia de passageiros, chegamos depois de quatro horas nas ruas de terra batida, ao rio Tequeje (um afluente do Beni). Era noite e, portanto, preparamos o campo 1 embaixo da ponte que o atravessa.
No segundo dia, começamos a caminhar para a fortaleza de Ixiamas. Tivemos informações fragmentárias sobre a sua localização, pois algumas pessoas de Rurrenabaque tinham-nos dito ter a certeza de que este estava no topo da montanha, ao lado do rioTequeje, em posição dominante, mas, na realidade, nem os meus guias nem eu sabíamos exatamente onde ficava.
Começamos a subida através de florestas úmidas e intrincadas, mas já depois de meia hora, percebemos que não havia trilha e a vegetação era um grande obstáculo para o nosso progresso.
Em qualquer caso, continuamos ascendendo pelo morro por cerca de três horas, avançando muito devagar e usando o facão a cada passo. Nós continuamos a subir a montanha, embora que andávamos com as mochilas pesadas (cerca de 15 kg cada uma, uma vez que nos tínhamos provisionados para 15 dias) foi muito difícil, não só por causa do peso intrínseco, mas, acima de tudo, pelo fato de que as nossas mochilas tropeçavam em galhos de árvores e videiras, prejudicando significativamente nossa caminhada.
Em algum ponto, sendo às duas da tarde, e com o sol queimando a fadiga estava a nos testar, decidimos deixar as mochilas em um lugar seguro e continuar a exploração mais leves.
Quando estávamos em uma altura de aproximadamente 600 metros e na frente de nós dois picos. A fortaleza tinha de ficar necessariamente em um das duas "cúpulas", mas não sabíamos qual.
Passamos então a explorar a primeira, mas a total falta de trilha que tinha dúvidas sobre a real possibilidade de localizar o forte.
Nós estávamos com sede. Tínhamos partido com apenas uma garrafa de água e não tínhamos encontrado nenhum riacho no nosso caminho. Já eram às quatro da tarde e, portanto, relutantemente decidimos que tínhamos de voltar por as mochilas, a fim de encontrar um riacho para o acampamento.
E nós fizemos assim. Do ponto em que deixamos as malas houve uma alcantiladíssima inclinação em cujo fundo talvez houvesse um córrego. Talvez.
No entanto, se você ouvir atentamente, você pode ouvir um tumulto muito distante, talvez fosse água.
E assim, novamente com bagagem pesada em cima começamos a descida em cerca de 30 minutos chegamos a um riacho onde a água fluía limpa e fresca.
Pudemos organizar o acampamento 2 bem perto do torrente, em um lugar mágico, prometendo voltar para o topo da montanha na manhã seguinte.
Depois de recuperar energia, e envoltos na escuridão da noite, estávamos imersos em uma sinfonia incrível de animais de todos os tipos. Primeiro de tudo, o assobiar do pássaro chamado xerife (Lipaugus vociferans), e outros tantos pássaros cantando, sapos coaxando também e os gritos distantes de macacos bugios, mas, acima de tudo, foram os insetos protagonistas inigualáveis na nossa noite: milhares de mosquitos, abelhas e vaga-lumes.
Antes de ir para a cama, eu fui até o riacho para beber. Mas onde eu estava bebendo, eu tinha a lanterna e iluminou uma aranha negra grande e peluda, cujo corpo era tão grande como um punho de uma mão. Fiquei petrificado, mas eu mantive a calma, movendo-me lentamente, voltei para a tenda, perto 5 metros do córrego, de pé novamente.
Um sussurro alto acompanhou-nos quando estávamos a dormir na barriga da mata.
A partir das sete da manhã, começamos a andar sem o peso das mochilas, e subimos a montanha indo direto ao topo que não tínhamos explorado no dia anterior.
Em cerca de duas horas de caminhada, chegamos à entrada da fortaleza, e de imediato, notei as características desta construção imponente megalítica: é uma área de cerca de dois hectares, rodeada por uma grande muralha de cerca de 200 metros de comprimento total, e, por vezes, elevada uns 3 metros. Dentro, há outros muros mais baixos que foram provavelmente construídos como aterros.

Localização da Fortaleza de Ixiamas
Lat. 13 graus 53 'Sul 621 - Long. 68 graus 09 '51 Oeste
Altura: 903 Metros s.n.d.m.

O edifício está localizado exatamente no topo da montanha, em uma posição dominante nas vastas planícies amazônicas. O lugar chamado mirador (vigia) de onde você pode ver ao longe a cidade de Ixiamas, pradaria a esquerda de Rio Tequeje.
Por quem foi construída? E acima de tudo, por quê?
Em minha opinião, a fortaleza de Ixiamas foi construída por um povo desconhecido pré-inca que dominava a zona de floresta alta imediatamente adjacente à planície amazônica. O fato de que a parede defensiva é tão grossa e alta sugere que pessoas desconhecidas estavam em guerra com os povos das terras baixas da Amazônia.
Sobre se o forte foi usado pelos incas em períodos sucessivos, são opiniões diferentes: a minha é que os Incas utilizaram talvez, mas não para fins militares, como é bem sabido que a manutenção de boas relações com Moxos, talvez o verdadeiro soberano do lendário reino de Paititi, talvez foi usado pelos incas como o armazenamento de lugar agrícola e intercâmbio com os povos da floresta. No entanto, como chegavam até lá? É evidente que deve ter um caminho desde algum lugar que servia de acesso a fortaleza, mas anos de negligência, provavelmente esconderam-no quase completamente.
Depois de cozinhar um prato de arroz e feijão, no lugar chamado de "vigia", voltamos para o acampamento 2, onde continuamos ao longo do riacho, tentando chegar às margens do rio Tequeje, e para continuar a nossa expedição ao Rio Alto Madidi.

YURI LEVERATTO
Copyright 2011

viernes, 26 de septiembre de 2014

Expediçao a cordilheira de Paucartambo: as ruinas de Miraflores


A região de Cusco (Perú), de aproximadamente 72.000 kilómetros quadrados de extenção, está ocupada na sua major parte (más de 50%), por um particular eco sistema chamado "Selva Alta", que ao seu tempo divide-se em Selva Alta e bosque Andino. Durante o Império dos Incas a selva cumpria um rol importante já que era fronteira com o mundo Andino e Amazónico.
Os povos anteriores aos Incas (Tiahuanaco, Wari, Pukara, Lupaca), construiram durante séculos varias estructuras chamadas Tambos em quechua (lugares de descanso), assim como cidadezinhas ou recintos fortificados que serviam para delimitar o Império, ou tambem como lugares de descanso o trocas de objetos que acostumava-se intercambiar com as etnias de Chunchos, Moxos, e Toromonas, os produtos da selva (coca, ouro, mel, plumas, de aves, hervas medicinais), com os produtos da serra: camelídeos, cereais andinos , maca, e varios tipos de patatas.
As fortalezas mais conhecidas são: Espiritu Pampa, Vitcos (as duas na região de Vilcabamba), Abiseo, a fortaleza de Hualla, Mamería (Perú), e a Fortaleza de Ixiamas (Bolivia).
Na opinião de vários esploradores, como o peruano Carlos Neuenschwander Landa, existe uma última fortificação ainda desconhecida, que foi utilizada pelos Incas, quando fugiram de Cusco no ano de 1.537: Trata-se do mito de Paititi, como o oasis onde refugiou-se ou semi-Deus Inkarri depois de ter fundado O`ero e Cusco. Carlos Neuenschwander concentrou todas suas investigações no chamado de "Altiplano de Pantiacolla", uma zona ríspida e fria andina situada entre 2.500 a 4.000 metros de altitude sobre o nível do mar, entre as regiões de Cusco e Madre de Dios.
O patamar de Pantiacolla (do quechua: lugar onde a princesa se perde), é por exelência entre os lugares menos acessiveis do mundo, por varios motivos.
Antes de tudo a distancia de qualquer povoado e a difícil descrição do terreno: profundissimas aberturas onde se abrem impetuosos riachos e empinadas ladeiras onde encontra-se alguns sendeiros, caminhos apertados impossivel de transitar, nem sequer com mulas da qual complica o acesso ao altiplano.
Existe também um clima com mudanças severas, fortes ventos chuva de granizos e as vezes neve e tempestades intercaladas por breves dias de sol.
A temperatura pode baixar a 10 grãos pela noite e de dia oscila entre 0 e 5 grãos .
O último e o mais importante motivo é que torna-se quase inacessível na "Meseta de Pantiacolla ", de que em lugares fáceis de chegar encontrado-se zonas mais baixas como, o Santuario Nacional Megatoni e a zona inatingivel do "Parque Nacional de Manu", onde moram indios isolados (não contactados), que em ocasiones podem vir a ser muito agressivos. Refiro-me a grupos de Kuga Pacoris, Masko Piros, Amahuacos, e Toyeris.
O vale dos rios Mapacho-Yavero, inicialmente chamava-se rio Paucartambo, serve de acesso a Cordilheira de Paucartambo, a última e verdadeira cadeia montanhosa andina (com alturas de mais de 4.000 metros), antes da selva baixa amazónica, a cuenca do Rio Madre de Dios.
O objetivo de nossa expedição a Cordilheira de Paucartambo foi o de estudar e documentar os sendeiros incaicos do vale de Rio Chunchosmayo (rio de los Chunchos), antigos e terriveis povos da selva que comandam ao Altiplano de Pantiacolla, e possivelmente a mítica Paititi de Incarri.
A expedição começou em Cusco a cidade que foi capital dos Incas. No total èramos 5 participantes: o estado-unidense Gregory Deyermenjian, os peruanos Ignacio Mamani Huillca e Luis Alberto Huillca Mamani, o espanhol Javier Zardoya e eu.
Os últimos dias antes de começar a expedição passamos no gran mercado de Cusco, comprando os alimentos necessarios para um total de 11 dias.
Muito importante para uma expedição andina, foi a compra de alguns quilos de folhas de coca e da chamada "lipta" uma especie de adoçante a base de estevia e cinza de "catalizador" para poder absorver as propriedades benéficas das folhas de coca. Outra escolha foi equipos preparados para o clima e não somente uns preparados para o clima tropical, más também para o frio intenso da Cordilheira já que tinhamos programado ir alem dos 3.000 m.s.n.m.
Saimos pelo amanhecer em direção do vale do Rio Yavero numa grande e poderosa camionete conduzida por um motorista experto.
Depois de aprox. 10 horas de ardua carreteira ao céu aberto, chegamos a um lugar chamado "Punta Carretera", no vale do rio Yavero ", é um vale muito estreito, pouco povoado, sem ruas, a não ser a rua de acesso e sem eletricidade. Os poucos camponeses que moram ali cultivam principalmente café. Na manhã seguinte com a ajuda doas mulas começamos a caminhar pela empinada ladeira baixando aprox. por 4 horas para o rio Yavero no ponto onde encontra-se a ponte suspendida "Bolognesi " ubicação ; 12º 38.739`lat.Sul/72º. 08.12º long.Oeste . Altura 1.222 msnm.
Debaixo daquela ponte cambaleante fllui o impetuoso Rio Yavero (afluente do Rio Urubamba), rodeado de uma vegetação exuberante. Daquele ponto começamos a caminhar subindo novamente na margem direita do vale até um lugar chamado Naranjayoc , habitado por algumas famílias de camponeses que seu idioma é o quechua. Um mundo completamente rural onde vive-se sem luz nem agua corrente e muito menos gás para cozinhar o esquenar-se. Tudo é exactamente igual a como era a um século. 
O terceiro dia utilizamos 3 mulas para continuar nossa viagem. No primeiro tempo subimos uma ladeira ingrime e logo na nossa chegada acima do monte, nos enfrentamos frente um remoto sitio arqueológico chamado Tambocasa.
Ubicação : 12º 37.174 lat.Sul/ 72º 07.206`long.Oeste. É um típico tambo (lugar de descanso) de forma rectangular 40x10 metros costruidos em época Inca. Encontra-se precisamente na divisa entre os vales do Rio Yavero e do seu afluente Chuchunsmayu, (rio do Chunchos), que foi utilizado mais que tudo como lugar de descanso e intercambio de productos agricolos.
Mais adiante caminhamos mais de 4 horas numa encosta justamente ao borde do sitio arquologico chamado Llactapata em quechua (cidade alta). 
Ubicação: 12º 37.025`lat.Sul/72º 05.750 `long . Oeste. Altura : 1935 mnsm.
Resolvemos acampar numa vasta planice na proximidade de ruinas para no dia seguinte explora-las.
Depois de ter cozido uma sopa a base de uncucha (batata doce típica deste vale), logo nos preparamos para dormir. O céu estava completamente livre de nuvens .e extranhamente notava-se uma grande estrela muito baixa na direção do Altiplano de Pantiacolla .
No quarto dia pudemos documentar o sitio de Llactapata, alem de restos de restros de muros pre-incaicas da qual o ánculo dos muros em vez de serem perpendiculares é redundado, pudimor registrar uma construção rectangular datada da época pre-incaica caracterizada por uma particular parede com oito cavidades usadas provavelmente com fins cerimoniais. A continuação empreendemos novamente nosso caminho na direção noroeste subindo no vale estreito do Rio Chunchusmayo. No começo andamos por aprox. cinco horas num senderio estreito ao borde do precipício, alguns trechos foram difíceis e tivemos que alongar os passos das mulas, evitando cuidadosamente que não caíssem no vazio. Posteriormente chegamos a um lugar onde podia-se ver o encontro do Rio Tunquimayo com o Rio Chunchusmayo.
Naquele ponto começou uma empinada descida até o Rio Chumchusmayo. Tivemos que atravessar uma zona de selva muito densa e húmeda até chegar ao seu curso final.
Logo o atravessamos empreendendo uma descida até encontrar o chamado Cerro Miraflores inicialmente uma densissima selva e logo depois através uma enorme ladeira diminuindo a vegetação facilitando um pouco mais. Depois de umas treis horas de caminhada ao logo do rio resolvemos acampar porque havia começado a chover forte .De repente percebemos que tinhamos parado perto de um antigo Tambo (lugar de descanso ) pre-incaico, mesmo estilo rectangular também formas arredondadas sempre origem pre-incaica:
Ubicaçao do Tambo de Miraflores : 12º 36.506 lat.Sul/ 72º 03.681 long.Oeste. Altura 2.540 msnm.
No quinto dia exploramos inicialmente a parte da selva que se situa a noroeste do nosso campo base. Encontramos alguns muros de contenção eles também de precedência pre-incaica, indicio de que toda a zona foi habitada e cultivada em épocas remotas. Logo nos adentramos numa espesissima selva afasando-nos da antiga zona agrícola. 
Logo após decidimos seguir o sendeiro que dirigia-se ao norte até a cima do Monte. Foi uma dura e ardua subida atravez um sendeiro barroso, más ao final alcançamos a cima, e logo continuamos até o norte atravez um altiplano coberto por um bosque não tão denso.
Nossa caminhada teve fim num ponto a altura de 3.185 msnm, de onde podia-se divisar ao longe o Altiplano de Pantiacolla e chamado de "Nudo de Toporaque" uma áspera formação de roca situada na divisa entre a Cuenca do Rio Urubamba e a do Rio Madre de Dios. Voltamos ao campo base depois de uma caminhada de aprox.três horas.
No sexto dia da nossa exploração foi determinante. 
Exploramos novamente a parte da selva, tão húmeda que era muito difícil avançar. Depois de horas de caminhada novamente encontramos uma casa em forma trapezoite, e logo a poucos metros de esta, bases de outra residência rectangular e vários muros de contenção que servião para clássicos bancais. 
Continuando a nossa exploração avistamos o centro de uma cidadezinha oculta na selva, uma esplanada de aprox. 12x12 metros , que no lado oriental havia um muro de aprox. 6 metros de comprimento com 4 cavidades ubicadas a uma altura de 80cm. do solo (foto principal).
Tinhamos a certeza de termos chegado a uma importante e desconhecida cidadela agrícola pre-incaica, más ignoramos quem a teria construido, quando alguns pastores da zona nos haviam mencionado o nome " Miraflores" para indicar a montanha enteira. 
Ubicação da cidadela pre-inca de Miraflores :
Ubicação : 12º 36.507`Sul/Log.72º 03.715 Oeste. Altura : 2.523 metros sobre o nível do mar.
Observando minuciosamente o muro principal. percebi que poderia ter caido parcialmente e que no passado poderia ser ao menos o dobro da longitude. Quem sabe que as cavidades poderiam ter cido usadas por motivos rituais, anteriormente poderia ser de 8 metros justamente como em Llactapata. Más quem poderia ter construido a cidadela? poderiam ter cido os Chunchos antepassandos dos Matsiguenkas de onde vem o nome de Chunchosmayo?
Mas não parece, porque aqueles povos da selva cerca de Cusco não usavam nunca os nombrados bancales. A continuação com a nossa exploração, pudemos documentar outras casas muitas das quais se observava uma espécie de janelas o abertura nos muros de contenção para os chamados bancales. Pudemos comprovar que a cidadela se extende aprox., dois hectáres, onde ao redor de 20 construções de casas e mais a explanada central, onde se encontra o muro principal com as 4 cavidades rituales. 
A cidadezinha agrícola de Miraflores foi construida seguramente por povos pre-incaicos, apesar que até os dias de hoje não é possível reconhecer com exactitude ou certeza, o povo que a edificou. E possível que os Incas tenham utilizado o lugar com o propósito de controlar o acesso ao vale e cultivar a encosta occidental da montanha, para poder surtir de alimentos como: milho, feijão ,batata, coca, abóbora, para os soldados que penetravam os limites externos do Império no Altiplano de Pantiacolla e a fortificação de Toporake, todos lugares ubicados na divisória de aprox. 4.000 m.s.n.m., entre a cuenca do Rio Urubamba e a do Rio Madre de Dios..
E possível que a cidadezinha agrícola de Miraflores tenha servido para prover alimento para um lugar maior ubicado quem sabe mais longe da meseta de Pantiocolla, refiro-me ao legendário Paititi de Inkarri? 
A continuação inspecionameos toda a zona ao redor e descobrimos outros centros residenciais e cerimoniais. A descoberta foi de uma tumba muito interessante .
Ubicação da Tumba de Miraflores: Lat.12º 36.521´Sul/Long.72º 03.731 Oeste. Altitude 2.509 m.s.n.m.
No estudo futuro de este lugar poderia até revelar o enigma da etnia que costruiu toda a cidadela.
Durante a tarde como não chovia resolvemos desmontar o acampamento base e aproximarmos ao Rio Chunchusmayo. Outro momento resolvemos montar a acampamento 2 a uns 2.000 msnm, aprox.10 minutos até o Rio.
Posteriormente baixamos a beira do Rio Chunchunsmayo e finalmente submergimos em suas aguas gelidas . Pouco depois buscamos em vão os restos de uma ponte inca que na opinião de aluns rumores deveria-se encontrar neste lugar.
No oitavo dia voltamos a Naranjayoc e ao dia seguinte caminhamos até a carreteria pavimentada.
O décimo dia nos encontramos com o nosso condutor num determinado ponto e numa poderosa camionete voltamos a Cusco , depois de dez horas de viagem.
O resultado da expediçao foi más que positivo. Alem de documentar os lugares de Tambocasa e Llactapata , descobrimos as ruinas da cidadela agricola de Miraflores. Mais un passo adiante no ambito das expediçoes Paititi-Pantiacolla.

YURI LEVERATTO
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