martes, 17 de enero de 2017

A linha da fé


Não é uma novidade que existem pessoas que não acreditam em nada. Desde os anos imediatamente posteriores à vida terrena de Jesus Cristo, havia pessoas que não acreditavam que Ele era realmente o Filho de Deus. A nossa tarefa como cristãos não é a de forçar os outros a crer. Nós devemos somente dar testemunho, de diferentes modos, do Evangelho de Jesus Cristo. Nosso testemunho deve ser tranquilo, cortês, humilde, porém firme. Com nosso testemunho conseguiremos aproximar as pessoas de Jesus, e conseguiremos aproximá-las à “linha da fé”. O que não poderemos é fazer que uma pessoa creia. Isso é impossível por parte do homem. A verdadeira conversão, segundo as palavras de João (1, 12-13), vêm diretamente de Deus, ou seja, é obra do Espírito Santo:

Mas a todos os que a receberam, aos que creem no seu nome, lhes deu potestade de ser feitos filhos de Deus; os quais não são engendrados de sangue, nem de vontade de carne, nem de vontade de varão, senão de Deus.

No entanto, como acabou de escrever, nossa tarefa é testemunhar o Evangelho. Mas hoje tem gente que não quer escutar o Evangelho, porque tem preconceitos sobre Jesus ou sobre os primeiros cristãos e, portanto, fica na defensiva. Analisemos brevemente estes preconceitos e demostremos sua falta de fundamento.
Antes que nada, seguindo o liberalismo, muitas pessoas hoje acreditam que Jesus foi um grande “sábio”, uma pessoa de altíssimo valor moral que predicou o bem e que teve vários seguidores. Praticamente o reconhecem como uma pessoa iluminada, um grande filósofo ou “o maior sábio de todos os tempos”. Outros, seguindo esta linha, consideram que Jesus era um “predicador apocalíptico”. Esta interpretação é facilmente demolida não só pela Bíblia, mas, sobretudo, pela lógica. Primeiro que tudo, vejamos este ponto: se Jesus Cristo tivesse sido “somente” um “grande sábio”, não teria ressurgido dos mortos no terceiro dia. Então, nenhum dos seus seguidores teria divulgado sua Ressurreição, arriscando a vida tanto diante do poder sacerdotal judaico como do poder romano. O que teriam ganho os seguidores de Jesus divulgando uma mentira sabendo que divulgavam uma mentira? Nada.
Além disso, a mensagem central do Evangelho não é somente amor, mas também salvação. Das fontes bíblicas e históricas em nosso poder, se deduz que desde os anos imediatamente seguintes à vida terrena de Jesus, os Apóstolos e outros seguidores de Cristo predicaram que somente através do arrependimento dos próprios pecados e a fé de que Jesus morreu na cruz para perdoar todos os pecados se pode chegar ao Pai. Na prática, eles predicaram que somente através de Jesus se pode obter a vida eterna (Evangelho de João 14, 6). Além disso, os primeiros cristãos batizavam em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo (Evangelho de Mateus 28, 19), demostrando que acreditavam na Trindade e, portanto, que consideravam que Jesus Cristo é verdadeiro Deus e verdadeiro homem. A maioria dos primeiros cristãos foi ao martírio inclusive por não negar a Ressurreição de Jesus na carne e sua plena Divindade.
Todos os Apóstolos, exceto João, morreram mártires. E, além disso, Estevão, Paulo, Barnabé, São Tiago o Justo, Clemente de Roma, Inácio de Antioquia, Justino Mártir e outros também morreram no patíbulo, culpáveis de não ter negado a Divindade de Jesus Cristo.
Neste ponto alguém poderia objetar que a Ressurreição mesma não foi um evento real, mas que os Apóstolos se convenceram de ter voltado a ver a Jesus, seu mestre, e divulgaram sua Ressurreição. No meu artigo “Considerações sobre a Ressurreição de Jesus Cristo” (1) analisei várias hipóteses sobre a Ressurreição. Por exemplo, que o corpo de Jesus tenha sido tirado da tumba ou que os Apóstolos tenham tido alucinações coletivas.
Analisemos o primeiro ponto: primeiro que tudo, temos que lembrar que a lei judaica proibia expressamente abrir as sepulturas (se não fosse para depositar outros mortos), e castigava com a morte o furto de cadáveres; portanto, a hipótese de que algum dos seguidores de Jesus tenha realmente extraído o corpo é, desde um ponto de vista histórico, remota. Os Apóstolos mesmos não teriam ganho nada divulgando uma mentira que eles mesmos teriam inventado. Ao contrário, teriam se arriscado a morrer. Inclusive se um dos Apóstolos, por absurdo, tivesse extraído o corpo, a verdade teria vindo à luz, e ninguém teria divulgado uma mentira, pondo em risco sua vida. Está excluída a possibilidade de que os sacerdotes judeus ou os soldados romanos tenham extraído o corpo, justamente porque não tinham nenhum interesse em alimentar o mito de que Jesus teria ressurgido dos mortos.
Também a hipótese da alucinação coletiva deve ser descartada. Os estudiosos de fenômenos de alucinação afirmam que, normalmente, as alucinações se verificam através de um dos cinco sentidos. Portanto, podemos verificar alucinações visuais, olfativas, auditivas, táteis e, inclusive, gustativas. É raríssimo, no entanto, que o fenômeno de alucinação se manifeste de modo completo, ou seja, vendo, escutando e tocando “alguém ou alguma coisa”: Além disso, ainda mais difícil, é que uma alucinação se manifeste em várias pessoas ao mesmo tempo.
Porém, as aparições de Jesus não tiveram lugar num só evento. Houve várias e em diferentes lugares. Aliás, os Apóstolos, logo das aparições, não deram sinais de delírio ou loucura, salvo que viveram de forma dócil, calma e tranquila, divulgando, com firmeza, a Boa Nova.
Por outro lado, o fato de que nenhum tenha contradito aos demais é outro indício de que o que viram era verídico. Além disso, o fato de que os primeiros cristãos estivessem dispostos também a morrer e não renegar Jesus Cristo é uma ulterior prova da veracidade das aparições.  Nenhum deles teria morrido se não tivesse certeza de que quem apareceu depois da Ressurreição era justamente Jesus, em carne e osso, lembrando, obviamente, que esse evento tinha sido anunciado por Ele enquanto estava com vida. Além do que, há um fato por considerar: se a teoria das alucinações fosse verdadeira, deveria ser verdadeira também a teoria da extração do cadáver de Jesus da tumba. Nesse ponto, os céticos da Ressurreição devem conciliar vários fatos para negar que a Ressurreição sucedeu realmente: devem, de fato, assumir que o corpo de Jesus foi roubado (teoria que, como vimos, é, desde um ponto de vista histórico, remota) e que, ao mesmo tempo, todos os Apóstolos, além de Maria Madalena, os discípulos de Emaús, São Tiago o Justo e logo Paulo de Tarso tiveram alucinações em grupo por mais de uma vez. Considerando, de fato, que no Novo Testamento estão descritas ao menos doze aparições (2) diferentes, entre elas (excluindo o Apocalipse), resulta altamente improvável que tenham sido todas devido a alucinações, inclusive tendo em conta que, durante os anos que sucederam, nenhum dos Apóstolos deu sinais de esquizofrenia ou delírio.
Vemos, portanto, que a teoria de Jesus como um “grande sábio” cai justamente pelo comportamento dos Apóstolos. Se tivesse sido somente “um grande sábio”, nenhum deles teria divulgado sua Ressurreição na carne.
Analisemos agora a teoria de Jesus revolucionário, partidário antirromano que teria combatido as injustiças com o fim de liberar Israel do jugo dos romanos. Primeiro que tudo, podemos refutar esta teoria com a primeira argumentação: se Jesus tivesse sido só um partidário antirromano, ninguém teria divulgado sua Ressurreição. Porém há mais: se Jesus tivesse sido um partidário antirromano que queria gerar uma revolta para liberar Israel, seus seguidores, depois da sua morte, teriam difundido ideias revolucionárias e violentas, mas a história prova que eles divulgaram o Evangelho, ou seja, amor ante os inimigos e salvação para quem aceita o sacrifício de Jesus sobre a cruz.
O simples fato de que os Apóstolos morreram como mártires desmente a possibilidade de que Jesus fosse um revolucionário antirromano. O martírio, de fato, era um ato pacífico e não violento. Eles preferiam morrer a negar o nome de Jesus e sua Divindade.
Por outro lado, se tivessem tido como objetivo um complô antirromano, não teriam permitido serem mortos depois de torturas atrozes por não negar a Divindade de Cristo (como as infligidas, por exemplo, a Bartolomeu, que foi esfolado vivo); teriam sim negado, salvando suas vidas e divulgando suas ideias de outra maneira. A teoria de Jesus partidário antirromano cai então.
Analisemos agora, brevemente, a teoria islâmica sobre Jesus. Segundo o Alcorão, Jesus foi somente um profeta de Deus, mas não a encarnação de Deus. Além disso, não morreu na cruz (Alcorão 4, 157-158) e, portanto, não pode perdoar os pecados do mundo. Obviamente, para os islâmicos, Jesus não ressuscitou na carne.
A teoria islâmica sobre Jesus se refuta facilmente com as citações históricas sobre a morte de Jesus Cristo na cruz (ver nota 3 y 4); também e, sobretudo, com a lógica. Se, de fato, Jesus não tivesse morrido na cruz, não teria tampouco ressuscitado dentre os mortos. Ninguém teria então divulgado sua Ressurreição, arriscando a vida tanto frente ao poder sacerdotal judaico como frente ao poder romano.
Analisemos agora a última teoria sobre Jesus, ou seja, a do “Jesus gnóstico”. Primeiro que tudo, reconheçamos brevemente o que foi o gnosticismo cristão do segundo século de nossa era. A visão gnóstica de Basílides, Valentino e Marcião não foi uma fé original, mas uma adaptação de conceitos gnósticos aplicados ao Cristianismo, com forte oposição ao Antigo Testamento. Os gnósticos, vendo somente as negatividades do mundo terreno, ou seja, o mal, a dor e o sofrimento, atribuíram tudo a YHWH, que identificavam com o demiurgo mau.
Jesus, em contrapartida, não podia ser repudiado, porque sua mensagem era grandiosa e muitos estavam dispostos a morrer por Ele. Portanto, efetuaram um sincretismo, adaptando sua palavra à crença.
O “Jesus gnóstico”, portanto, já não era o descrito pelos Apóstolos, que foram quem viveram com o Salvador, era o inventado e idealizado pelos gnósticos. Aquele “Jesus gnóstico” não tinha sofrido na cruz, já que sua natureza puramente divina lhe impedia sofrer e, portanto, tampouco a Ressurreição tinha sentido, era uma alegoria. A importância da vinda de Jesus era só e somente sua ação de “ponte” que teria podido levar ao homem à verdadeira gnose e, portanto, a Deus. Resulta, desta maneira, um Jesus completamente falsificado que não corresponde aos textos neo-testamentários.
Os gnósticos atuais, em geral, reconhecem Jesus como uma pessoa iluminada que foi capaz de encarnar em si a “consciência de Cristo” (frequentemente utilizam o termo “consciência crística”, no perfeito estilo Nova Era), e o sinalizam como uma ponte para poder obter la salvação. Declaram, além disso, que aceitam a Bíblia como revelação de Deus, mas nenhum deles fala do pecado e da mensagem de salvação que Jesus Cristo deu. Repudiam a Graça que nos foi dada por Jesus Cristo com sua morte na cruz e, portanto, negam o conceito da “Morte vicária de Jesus Cristo”. Quando se observa que os Apóstolos predicaram o conceito de “morte vicária de Jesus Cristo” e o conceito de expiação dos pecados, mantêm-se que este pensamento foi de Paulo de Tarso, mas não dos Apóstolos. Esta tese é fácil de refutar. Primeiro que tudo, as citações sobre a “morte vicária de Jesus Cristo” são numerosas não somente nas cartas de Paulo, mas também nos Evangelhos e em outros livros neo-testamentários (5). Em segundo lugar, é errado dizer que Paulo de Tarso influenciou outros Apóstolos e Evangelistas. Antes que nada, segundo alguns estudiosos, tanto o Evangelho de Mateus como o Evangelho de Marcos foram escritos antes das epístolas de Paulo. Para o estudioso J. Carmignac, o Evangelho de Mateus foi escrito em 45 d.C., inicialmente em aramaico (6). Além do que segundo o estudioso O’Callaghan, um dos fragmentos dos Manuscritos do Mar Morto seria parte do Evangelho de Marcos e se remontaria a 50 d.C. (7). Além disso, si antes do Concílio de Jerusalém os Apóstolos tivessem se dado conta que Paulo de Tarso mantinha uma tese que não coincidia com a mensagem central de Jesus Cristo, o “kerygma” (ou melhor, Jesus Cristo nasceu de uma virgem, portanto é o Filho de Deus, morreu sobre a cruz para perdoar todos os pecados e ressurgiu no terceiro dia na carne), o teriam afastado e tornado incomunicável, não permitindo predicar a palavra do Senhor. Em terceiro lugar, as epístolas de Paulo foram dirigidas às comunidades cristãs dos tessalonicenses, os coríntios, os gálatas, os filipenses, os romanos, os efésios e os colossenses. Portanto, essas cartas, inicialmente, não chegaram às mãos de outros Evangelistas, que então não tinham podido copiar seu conteúdo. Em quarto lugar, temos que considerar que Paulo de Tarso não viajou ao Egito, nem a Bizâncio (Constantinopla), nem à Armênia, nem à Etiopia, nem à Pérsia e muito menos à Índia. No entanto, naqueles lugares se difundiu o “kerygma” desde o século I. Quem difundiu o “kerygma” naquele território onde Paulo de Tarso não viajou? Os Apóstolos naturalmente. Se Paulo de Tarso tivesse inventado algo, e se sua predicação não tivesse coincidido perfeitamente com o ensinamento de Jesus Cristo, teria resultado que nos lugares que citei seria difundido algo distinto, enquanto somente nas áreas visitadas por Paulo o “kerygma” teria sido difundido, mas, como sabemos, não foi assim: por exemplo, no Egito se difundiu o “kerygma” e o Cristianismo apostólico exatamente igual ao Cristianismo difundido por Paulo, e o primeiro que o difundiu foi o Evangelista Marcos. O mesmo para outros lugares que mencionei: André para Bizâncio, Judas Tadeu y Bartolomeu para Armênia, Tomás para Índia etc.
Além disso, Paulo de Tarso foi ao martírio para não negar o que tinha escrito e dito sobre Jesus Cristo. Naturalmente, as fontes históricas sobre o martírio de Paulo de Tarso são numerosas (7).
Fica então demostrado que a doutrina da “morte vicária de Jesus Cristo” é apostólica, ou seja, foi divulgada por todos os Apóstolos e não foi uma invenção de Paulo de Tarso.
Portanto, a visão gnóstica que não considera o Evangelho na sua totalidade, ou seja, descarta o pecado e a mensagem central da predicação de Jesus Cristo sobre a salvação, resulta ser uma fé falsificada, acomodada às exigências de uma tendência de moda, que mostra um Evangelho de amor, mas não de salvação. Descartam-se as partes do Evangelho que são mordazes e que ressaltam o arrependimento dos próprios pecados e a fé de que Jesus morreu para expiá-los em nosso lugar e se detém somente no amor, na compaixão e na misericórdia.
Vimos, então, que cada uma destas quatro teorias (a saber: Jesus como “grande sábio” ou “predicador apocalíptico”; “Jesus revolucionário antirromano”; “Jesus islâmico” e “Jesus gnóstico”) não têm um fundamento sólido nem desde o ponto de vista histórico, nem desde o ponto de vista lógico.

Yuri Leveratto

Traducido por Daniel Serafini

lunes, 25 de abril de 2016

A época pós-constantiniana: o domínio da teologia


Durante os primeiros três séculos de nossa era, o Cristianismo era como um tesouro incomensurável que os Apóstolos tinham dado a homens de altíssimo valor: os primeiros cristãos. 
Segundo o historiador americano David Bercot, o Cristianismo estava protegido por quatro poderosos muros.
Em primeiro lugar, havia a forte convicção de que a última revelação tinha sido escrita nos livros do Novo Testamento, cujo cânone já estava em uso ao redor do fim do século II (Fragmento Muratoriano). Havia, portanto, uma ideia ultraconservadora que equiparava qualquer possível acréscimo aos textos sagrados e a qualquer mudança como um erro grave.
O segundo muro era a separação da Igreja do mundo. Nenhum cristão estava impregnado de poder y nenhum cristão vivia de modo mundano.
O terceiro muro era a prática de enviar as perguntas sobre possíveis disputas aos membros do conselho das Igrejas, onde os Apóstolos tinham ensinado.
O quarto muro era a independência das várias Igrejas, uma da outra (Jerusalém, Antioquia, Alexandria do Egito, Constantinopla, Éfeso, Corinto, Roma). Esse fato tornava praticamente impossível que um ensinamento errado se estendesse rapidamente entre os crentes.
Durante o segundo e o terceiro século, as perseguições aos cristãos continuaram. No entanto, no final do século terceiro, alguns cristãos começaram a adotar um estilo de vida mais mundano e começaram a ver seus guias espirituais mais como sacerdotes cerimoniais que predicadores, mestres da vida e da integridade. Além disso, o bispo de Roma passou a impor sua autoridade sobre as outras Igrejas (1).
Durante esta situação, o poder imperial não estava em mãos de um só homem. Em 306 d.C., Severo governava Itália e a costa africana correspondente às atuais Tunes e Argélia, Constantino governava Gália e outros dois homens governavam a parte oriental do império. Depois que Severo foi derrotado por Magêncio, Constantino se declarou legítimo imperador do império romano de Ocidente.
Em 312 d.C., Constantino e seu exército marcharam até Roma. Antes do combate com Magêncio, sucedeu algo estranho, que indiretamente influenciou todo o mundo ocidental. O historiador Eusébio (265-340 d.C.) narra este fato em “ A Vida de Constantino” (2):

Disse que à meia-noite… viu com seus olhos o sinal de uma cruz de luz nos céus, sobreposta ao sol, com as palavras: com este sina serás vencedor. (in hoc signo vinces)

Além disso, Constantino disse que Jesus Cristo tinha lhe aparecido em sonhos e tinha dito que desenhasse o sinal da cruz nos escudos utilizados pelos soldados.
O resultado da batalha foi favorável para Constantino, quem atribuiu a vitória ao “Deus dos cristãos”. Constantino se converteu, assim, num único imperador do Ocidente.
Depois sucedeu algo muito importante para a história do mundo ocidental. Como sabemos, a religião romana era cívica, no sentido que se atribuía o êxito e a prosperidade aos deuses que haviam sido adorados. Constantino acreditava realmente que o “Deus cristão” tinha lhe propiciado a vitória e que esse mesmo Deus podia proteger o império, sempre e quando os imperadores lhe rendessem culto. Desse modo, Constantino decidiu manter lícita a religião cristã. Com o edito de Milão (313 d.C.), o imperador Constantino e Licínio (Augusto do Oriente) decretaram a liberdade de culto para qualquer religião em todo império.

Então nós, Constantino Augusto e Licínio Augusto, havendo encontrando-nos proficuamente em Milão e havendo discutido todos os argumentos relativos à pública utilidade e segurança, entre as disposições que víamos úteis a muitas pessoas ou entre as considerávamos prioritárias, havíamos posto as relativas ao culto da divindade com o fim de que lhes seja consentido aos Cristãos e a todos os outros a liberdade de seguir a religião que cada um professe, de maneira que a Divindade que está no céu, qualquer que seja, a nós e a todos nossos súditos nos dê paz e prosperidade.

Com esse edito, Constantino não exigia a ninguém que se convertesse ao Cristianismo, mas o fato mesmo que ele se professasse cristão (inclusive se não tinha assimilado seu sentido profundo) deu à religião cristã certo prestígio. Logo, Constantino decidiu que cada propriedade confiscada dos cristãos durante as perseguições de Diocleciano devia ser devolvida. Além disso, cada casa de oração que tinha sido queimada devia ser reconstruída à custa do Estado.
Logo se deu conta de que a maioria dos bispos cristãos estava vivendo na pobreza. Ofereceu-lhes, então, um salário e proteção. Consentiu que as Igrejas pudessem receber bens de herança. Concedeu à instituição uma sorte de tribunais eclesiásticos (episcopalis audientia) aos quais os cristãos podiam aceder para dirimir suas controvérsias. Além disso, eximiu de pagamento de impostos a todos os bispos e suas propriedades.
Incrivelmente, assim foi como os cristãos passaram em poucos anos de uma minoria perseguida a serem os favoritos da corte. De maneira que pouco a pouco o espírito ultraconservador dos primeiros cristãos se encontrava em estado de perigo.
Durante o período dos primeiros cristãos, por exemplo, ninguém tinha pensado em pagar salários aos bispos, mas quando Constantino o fez, eles aceitaram. Ninguém tinha pensado que fosse justo estar isentos de impostos, mas quando Constantino os eximiu, eles aceitaram. Ninguém tinha pensado que fosse justo viver num palácio suntuoso, mas quando Fausta, a segunda esposa de Constantino, concedeu a Domus Faustae (na área do Palácio de Letrão) a Milcíades, bispo de Roma, ele aceitou sem reservas.
O que obteve o imperador em troca de todos esses favores e privilégios?
Já em 314 d.C., quando houve uma polêmica entre donatistas e católicos, foi Constantino quem a dirimiu, dando aos católicos a prioridade e o reconhecimento de ser a legítima corrente da Cristandade. A intervenção de Constantino para dirimir a polêmica com os donatistas criou um precedente a partir do qual o imperador obteve o direito de convocar concílios e decidir sobre as controvérsias religiosas. Além disso, Constantino já não era considerado uma “divindade” como os imperadores anteriores, mas como o bispo de Roma, então, obtinha o “direito divino”, ou seja, o “direito a reinar consagrado por Deus”. Constantino, no entanto, tinha mais poder temporal, no sentido de que era considerado como se fosse uma espécie de bispo por cima das partes, ou bispo universal.
Justamente por ter decretado que as Igrejas cristãs fossem reconstruídas com recursos do Estado, Constantino obteve voz e voto no âmbito da religião cristã. Os edifícios religiosos não deviam somente ser maiores, deviam ser suntuosos. Seguindo este racionamento material, construiu as Igrejas com colunas ciclópicas e decorou com mármores elegantes e caros. Acreditava realmente que se ele abençoava a Igreja, Deus abençoaria o império. Havia simplesmente continuado com os esquemas da religião romana, ganhando ao “Deus dos cristãos”, mas não parece que Constantino era um cristão “nascido de novo”.
Como foi possível que os cristãos do século IV se afastassem da crença original de Jesus Cristo? Eles pensaram que Deus estava inaugurando uma espécie de nova era do ouro, durante a qual as perseguições tinham acabado e que, finalmente, podia-se viver nos braços do poder e da mundanidade. No entanto, no Novo Testamento, não havia nenhuma passagem que justificasse esta suposta era do ouro. Portanto, encontraram algumas passagens do Antigo Testamento que justificavam esta situação renovada. Em vez de avançar até o homem renascido, típico do Novo Testamento, retrocederam a alguns conceitos típicos do Antigo Testamento. Daí que se faça referência ao conceito de “híbrido constantiniano”. Neste híbrido, inventado por Constantino, tentaram adaptar alguns preceitos do Novo Testamento à moral e ao estilo de vida do Antigo Testamento. Metade do híbrido era o Estado e a outra metade era a Igreja. Foi uma espécie de retorno ao modelo do velho estado de Israel. Só que agora era maior, já que incluía o império romano. Em muitos pontos, o híbrido constantiniano se parecia ao Antigo Testamento. Por exemplo, no conceito de riqueza. Como no Antigo Testamento não há particulares exortações a não acumular riquezas, tampouco no híbrido existiram e, portanto, houve um distanciamento dos preceitos evangélicos, onde a riqueza não podia ser central na vida de uma pessoa. Os juramentos eram lícitos no Antigo Testamento e, portanto, voltaram a ser no híbrido enquanto que, no Novo Testamento, não era lícito jurar, já que uma pessoa devia ter honra.
A violência era completamente rejeitada no Novo Testamento. Inclusive, tinha que amar aos próprios inimigos. Os cristãos do híbrido voltaram, ao contrário, a uma moral típica do Antigo Testamento: “olho por olho, dente por dente”.
Já no século quarto tornou-se lícito responder com força as provocações e a afirmar com violência as próprias ideias. Naturalmente, no híbrido houve também coisas positivas: Constantino promulgou leis para ajudar as famílias pobres, condenou a imoralidade sexual e a bruxaria. Proibiu os cruéis combates de gladiadores, declarou ilegal a prostituição, opôs-se ao concubinato. No entanto, o único modo para castigar os comportamentos contrários à moral era com a força bruta. Portanto, decidiu que os castigos para comportamentos contrários à tradição sexual deviam ser efeituados com métodos terríveis: praticar a tortura, queimar vivas as pessoas ou verter chumbo fundido na garganta dos condenados.
Com o tempo, Constantino se converteu num governante cruel. Depois de ter vencido a Licínio utilizando, inclusive, tropas de cristãos, concedeu mantê-la com vida, mas depois de poucos meses o assassinou. Logo, vendo inimigos por todas as partes, assassinou seu filho Crispo e sua esposa Fausta. Nenhum bispo pediu que se arrependesse por esses fatos.
Durante 280 anos, o Cristianismo antigo não havia mudado, justamente porque estava protegido pelos quatro muros descritos ao princípio deste artigo. Mas agora o muro externo, o espírito ultraconservador da Igreja primitiva, estava ameaçado. Foi assim como os cristãos começaram a pensar que a mudança não podia ser sinônima de erro, já que talvez podia trazer melhoras. É como se os cristãos tivessem dito a si mesmos que Deus tinha mudado as regras. Vejamos, a tal propósito, um escrito de Eusébio (3):

“A todos os que consideravam estes fatos, devia-lhes parecer que uma fresca e nova era havia começado a aparecer e que uma luz, primeiro desconhecida, começava a surgir da escuridão até a raça humana. E todos deviam confessar que estas coisas eram obra de Deus, que havia dado a este pio imperador para contra-arrestar a multidão de ímpios”.

A Igreja já não equiparava a mudança ao erro, já que começava a pensar que o Cristianismo podia mudar para melhorar. Começava-se a pensar que talvez o Cristianismo apostólico fosse somente o início de novas e mais sublimes revelações. Com esse propósito, se lembra que os cristãos do século IV aplicavam à Igreja a profecia de Ageu (2, 9) sobre a reconstrução do templo (4):

“A glória posterior desta casa será maior que a primeira”

Em outro muro que tinha defendido a Igreja durante os primeiros três séculos era a separação do mundo. Pela primeira vez na história, ser cristão dava prestígio social e muitos cristãos foram promovidos a cargos públicos.
No passado, ser cristão pressupunha uma fé real e uma mudança de vida radical. No século IV, ser cristão indicava que uma pessoa provava um credo particular e participava em vários ritos cristãos como o batismo e a eucaristia. Porém, já não significava que esta pessoa tivesse realmente mudado de vida.
A Igreja começou a adotar os métodos do mundo. Por exemplo, essa mudança foi vista também no modo como os cristãos se opunham ao poder. Durante os primeiros três séculos, os cristãos, quando eram perseguidos, fugiam e, se eram capturados, não punham resistência.
Os cristãos do século IV, em troca, se eram vítimas de uma injustiça, de perseguição ou não tinham mais a mínima intenção de não colocar resistência e obviamente, nem sequer de temiam a tortura ou a morte.
Por exemplo, quando o filho de Constantino enviou um de seus generais a Constantinopla no intuito de substituir o bispo da Igreja, em vez de aceitar aquela decisão, a multidão composta de cristãos, pôs fogo na casa do general. Quando o general saiu para a rua, foi assassinado (5) (6).
No geral, a atitude dos cristãos e, especialmente, daqueles que tinham cargos de poder, tinha mudado. Em poucos anos, os perseguidos passaram a ser os perseguidores. Constantino pensava que teria sido melhor que não houvesse heresias, com o fim de determinar um modo a seguir.
Vejamos o pensamento de Constantino, transmitido por Eusébio de Cesareia (7):

Que sejam informados, através deste estatuto, os novacianos, os paulicianos, os montanistas e todos os que apoiem heresias através das próprias assembleias privadas… sabemos que suas ofensas são abomináveis e atrozes e que um só dia não bastaria para contá-las todas… como já não é possível tolerar seus erros terríveis, lhes advertimos que nenhum deles deverá reunir-se de agora em diante. Portanto ordenamos que seus lugares de reunião sejam clausurados. E está, portanto, proibido levar a cabo seus cultos e superstições e suas inúteis reuniões, não somente em público, mas também em lugares privados ou em qualquer outro lugar.

Tão somente uma década antes, ser cristão era um crime. Agora, o crime era ser herege. De fato, além do Cristianismo apostólico, tinham desenvolvido outras tendências que viam Jesus Cristo não como o Verbo encarnado, o Filho de Deus, mas somente como uma “ponte” para poder alcançar a Deus. Estas visões diferentes de Jesus Cristo, que não refletiam a crença original do século I, tinham sido confutadas a partir de Irineu no século II, mas nunca combatidas com a violência. Para Constantino, estas disputas sobre a verdadeira essência do Cristianismo eram uma ameaça para a estabilidade do império. Para governar fazia falta uma só fé, não importa que fosse um híbrido entre crenças cristãs originais, um parcial retorno ao Antigo Testamento (Agostinho de Hipona, no século sucessivo, avalizaria a guerra justa- ver nota (8)- e o sincretismo com religiões solares - culto ao Sol Invictus). Os cristãos heréticos, como no caso dos arianos, tinham que ser silenciados e combatidos em toda costa.
A controvérsia principal começou entre Alexandro, o bispo de Alexandria do Egito Ário, um presbítero de Alexandria. Ário, contradizendo as escrituras, sustentava que o Filho de Deus não podia ter a mesma natureza do Pai. Portanto, para Ário, o Filho de Deus não podia ser co-eterno com o Pai.
Constantino decidiu, portanto, que devia levar-se a cabo um concílio de bispos em Niceia (atual Turquia), com o fim de decidir de uma vez por todas qual era a crença cristã original e dar o status de doutrina.
O mesmo Constantino presidiu o Concílio, no qual participaram mais de 300 bispos do oriente e do ocidente. O mesmo Constantino propôs a redação de um “Credo” onde se indicava a crença cristã e a doutrina da consubstancialidade encerrada na palavra grega “homoousios”, termo que traduz “da mesma substância”. Esta decisão de declarar ao Pai e ao Filho da “mesma substância” concordava exatamente com as escrituras do Novo Testamento, ainda que o termo “homoousios”, se bem não aparece nas sagradas escrituras, foi incluído no “Credo Niceno”, ao qual foi dada uma importância máxima, quase comparável às escrituras. Com o Concílio de Niceia, portanto, se havia criado um precedente, no sentido que se havia “agregado” algo à crença original escrita no Novo Testamento. É como se tivesse aceitado que existe uma crença essencial, sem a qual não podemos salvar-nos, que não se expressa em modo específico na escritura. 
A maioria dos bispos sancionou a consubstancialidade do Pai com o Filho e a pré-existência do Filho (como se deduz do Evangelho de João). Os mais notáveis foram Alexandro de Alexandria, Eustácio de Antioquia, Atanásio, Marcelo de Ancira (Ankara). Cinco bispos, entre os quais Ário, que havia se negado assinar o Credo Niceno (9). 
O que importa é a atitude agressiva do imperador, que decretou:

Se encontrarmos algum tratado de Ário, que seja queimado, de maneira que não somente sua doutrina corrupta seja eliminada, mas que tampouco fique nenhuma recordação da mesma. Portanto, decreto que se alguém é surpreendido ocultando um livro de Ário e não o apresente às autoridades para queimá-lo, lhe dê a pena de morte. (10).

A esse ponto tinham chegado ao seguinte ponto: quem não aceitava o Credo Niceno e quem ocultava livros de Ário tinha que ser condenado à morte. Uma posição não precisamente evangélica.
Constantino, além disso, pensou que a Igreja devia ser organizada sob o modelo do império romano. Desse modo, segundo Constantino, seria mais forte e se evitariam cisões futuras. Portanto, a cada bispo se dava uma diocese (do grego: διοίκησις, unidade administrativa do império romano). 
Com o tempo, o poder dos bispos metropolitanos, ou seja, das cidades principais do império, cresceu notavelmente. Nenhum bispo novo podia ser nomeado sem a permissão do bispo metropolitano.
Resumindo, com o Concílio de Niceia pôs-se fim à independência das congregações individuais. De agora em diante, qualquer mudança ou acréscimo à doutrina, podia difundir-se rapidamente por todas as Igrejas. Na prática, havia sido estabelecida uma hierarquia piramidal, cujo topo estava a Igreja de Roma, enquanto antes, até 313 d.C., havia existido várias Igrejas, nenhuma, no entanto, sujeita às demais. De um só golpe caíram o terceiro e o quarto muros defensivos do Cristianismo antigo.
Imediatamente despois de Niceia houve um governo conservador. Era evidente que algo havia mudado, mas já a Igreja, em vez de revolucionar o mundo (Atos dos Apóstolos 17, 6) estava deixando-se absorver por ele. Os conservadores, que viam a mudança como um erro, tinham notado que no Credo Niceno haviam utilizado palavras que não estavam presentes nas escrituras, como “homoousios”. Um personagem importante deste período foi Atanásio, que foi bispo de Alexandria do Egito, de 328 a 373 d.C.
Foi justamente Anastásio que se opôs ao movimento conservador, o qual baseava sua crença mais sobre as escrituras que sobre o Credo. Aparentemente, Anastásio, defendendo o Credo, queria preservar a fé original dos primeiros cristãos apostólicos, mas logo o Credo se voltou tão importante como as escrituras, sendo, segundo Anastásio, inspirado por Deus.
Realmente, o propósito de Constantino, ou melhor, o de unificar a Igreja numa só crença e anular as disputas teológicas, falhou.
Foi justamente depois de Niceia quando se multiplicaram as divisões entre as diversas correntes cristãs. De fato, a controvérsia ariana não terminou em absoluto com o Concílio de Niceia. Um dos bispos arianos mais destacados, Eusébio de Nicomédia, que foi bispo de Constantinopla de 339 a 341 d.C., obteve um grande prestígio quando batizou  Constantino a ponto de morrer em 337 d.C. Seguiram vários concílios menores e disputas teológicas sobre a consubstancialidade do Pai e do Filho. Poucos anos depois, às disputas sobre a consubstancialidade do Pai com o Filho agregaram-se, também, as da natureza do Espírito Santo, cuja Divindade era negada pelo bispo Macedônio de Constantinopla (342-360 d.C.).
No ano 381 d.C. houve outro Concílio de bispos; esta vez em Constantinopla. Foi o imperador Teodósio quem o convocou em 381 d.C. com o objetivo de reunificar as diferentes controvérsias doutrinais que ameaçavam a Igreja e, portanto, indiretamente, ao império.
A principal decisão do Concílio de Constantinopla foi a proclamação do Credo Niceno-constantinopolitano. Ao Credo Niceno agregaram-se algumas frases (em negrita), entre as quais a mais significativa foi:

Creio no Espírito Santo, Senhor e doador da vida, que procede ao Pai e o Filho

Com essa frase, reiterando a Divindade do Filho e do Espírito Santo, condenava-se aos arianos e aos seguidores de Macedônio.
Além disso, ao Credo Niceno agregou-se a frase:

Encarnou-se no seio da Virgem Maria

Com a introdução do nome de Maria, se puseram as bases para sucessivas disputas teológicas sobre a natureza da mãe de Jesus Cristo, que lentamente abriram o caminho a novos e ulteriores dogmas, decretados logo no Concílio de Éfeso em 431 d.C.
Era o domínio da teologia. Porém, a teologia, ainda que tendo sua importância, ao voltar-se central, desvia o crente de uma vida de fé, caridade e esperança. Na prática, muitos cristãos davam aprovação a um Credo, mas em essência já não estavam dispostos a mudar suas vidas por Jesus Cristo. Na prática, lentamente se dava mais importância à teologia cristã que a uma vida cristã. No transcurso do século IV, as discussões teológicas eram cotidianas, mas desde então, a Igreja não tem visto um só ano totalmente livre de questões teológicas. Tão somente um século depois do Concílio de Niceia, já não era suficiente conhecer a Bíblia para poder ajudar uma pessoa a aproximar-se à mensagem de Jesus Cristo. Era necessário estudar os escritos dos padres da Igreja e os decretos dos diversos concílios. Na prática, já não era importante ter um conhecimento profundo da Bíblia, entretanto, era necessário saber o que a Igreja tinha decretado. Com o tempo, passaram a considerar a Bíblia como um livro perigoso. De fato, em 1229, no sínodo de Tolosa proibiu-se a laicos possuir a Bíblia.
Nesse momento teria sido necessário um predicador como Pedro ou como Paulo de Tarso para devolver a frescura própria da mensagem apostólica e, em troca, chegou um grande filósofo que, no entanto, estava a serviço do híbrido constantiniano, ajustando-se perfeitamente àquele tipo de arquitetura social: Agostinho de Hipona.

YURI LEVERATTO
Copyright 2016

Bibliografia:
Che parlino I primi cristiani, David Bercot
Il Regno che sconvolse il mondo, David Bercot
Storia ecclesiastica, Eusebio

Foto: o emperador Costantino.

Note:
1-Cipriano – On the Lapsed and Commodianus Instruction on Christian discipline: “E a questo punto sono indignato per la evidente follia di Stefano che si vanta del suo vescovato e afferma che ha la successione di Pietro, sui quali furono poste le fondamenta della Chiesa.
2-Eusebio, la vita di Costantino, 1, cap. 28
3-Eusebio, la vita di Costantino, 3, cap. 1
4-Eusebio, Storia ecclesiastica 10, 4, 36
5-Socrate scolastico, Storia della Chiesa, tomo 2, cap. 13
6-http://www.newadvent.org/fathers/26012.htm
7-Eusebio, Costantino, tomo 3, capitoli 64-65
8-Ecco una citazione di Agostino d’Ippona tratta dal suo scritto "Contro Fausto Manicheo" Libro 22, 74: "Cosa infatti si biasima nella guerra? Forse il fatto che muoiano quelli che sono destinati a morire, perché i destinati a vivere siano sottomessi nella pace? Obiettare questo è proprio dei paurosi, non dei religiosi. Il desiderio di nuocere, la crudeltà della vendetta, l'animo non placato e implacabile, la ferocia della ribellione, la brama di dominare e simili: è questo che a ragione si biasima nelle guerre. È soprattutto per punire a buon diritto simili cose che le guerre vengono intraprese dai buoni, per ordine di Dio o di qualche altro potere legittimo, contro la violenza di chi si oppone, quando essi vengono a trovarsi in una congiuntura delle umane vicende tale che la situazione stessa li costringe giustamente o a ordinare qualcosa di simile o ad eseguirlo". (http://www.augustinus.it/italiano/contro_fausto/index2.htm)
9-Socrate scolastico, Storia, tomo1, cap. 8
10-Socrate scolastico, Storia, cap. 9
11-Gibbon, il declino e la caduta dell’impero romano, 252

miércoles, 16 de marzo de 2016

A antiga disputa entre o cristianismo e o gnosticismo



Qual interesse existe em estudar o gnosticismo antigo, uma religião-filosofia que se opôs ao cristianismo faz uns 1900 anos? Pareceria uma tarefa de mero interesse histórico e, no entanto, tem também um interesse atual; refiro-me às mudanças de época que se estão levando a cabo em nossa sociedade.
Estudando e aprofundando nas antigas teses gnósticas, podemos entender melhor o gnosticismo moderno que está na base de correntes filosóficas como a Teosofia, a New Age, a Maçonaria e a globalização.
O gnosticismo moderno foi influenciado pela Teosofia a qual, por sua vez, absorveu elementos de religiões orientais como o hinduísmo.
Um dos fundamentos do hinduísmo, de fato, é que o Eu, “atman”, alma individual ou partícula de Deus, invade todo ser vivente e faz parte do “brahman”, ou melhor, da alma universal. Na base deste conceito está a possibilidade, para cada um de nós, de unir-se com a alma universal, ou seja, com “Deus”, através do “conhecimento” (a palavra gnosticismo deriva do grego “gnose”, conhecimento). É o conceito que se baseia a ioga, filosofia hindu que faz parte das tradições hinduístas.
Este conceito, no entanto, é oposto ao cristianismo. Segundo a fé cristã, de fato, nenhum ser humano tem “uma partícula de Deus em seu interior”, e a salvação se alcança através da humildade e não através do conhecimento.
Particularmente, a doutrina ensinada por Jesus Cristo afirma que, para salvar-se, o homem deve arrepender-se de seus pecados, confessá-los e crer em Jesus Cristo, ou seja, crer que seu sangue tirou o pecado do mundo.
Como vemos os dois conceitos são opostos. Inclusive, hoje em dia, muitos cristãos pensam que, depois da morte, sua alma se “unirá com Deus”, sem sequer parar para pensar que as duas crenças são opostas entre elas.
No entanto, se para o gnosticismo moderno está comprovada sua origem teosófica e sincrética, portanto oriental e hindu, no que diz respeito ao gnosticismo antigo, esta origem não está comprovada. Pensa-se, no entanto, que o gnosticismo antigo tem suas raízes nos cultos das religiões misteriosas, tanto babilônicas como egípcias. Uma das correntes mais antigas do gnosticismo antigo é o mandeísmo, baseado em um sistema de dualismo. De um lado, de fato, está um Deus “bom” e um mundo habitado por anjos; de outro, há um Deus “maligno” e um mundo habitado por demônios. No gnosticismo médio-oriental havia muitas outras correntes como, por exemplo, os barbelo-gnósticos, cujos textos de referência foram o Evangelho de Maria e o Apócrifo de João, que foram confutados por Irineu de Lyon. 
Uma das correntes gnósticas mais importantes foi a chamada gnose-helenística, que se desenvolveu em Alexandria do Egito a partir do início do II século da era cristã. Naquele período, de fato, a Boa Nova estava difundindo-se em todo o mundo mediterrâneo. O chamado “kerygma”, de fato, ou seja, a crença de que Jesus Cristo é o Unigênito Filho de Deus, o Verbo encarnado, que veio à terra para tirar o pecado do mundo, e que foi injustamente crucificado para logo ressurgir dentre os mortos no terceiro dia, estava consolidando-se na gente, especialmente nas zonas orientais do império.
A assídua obra evangélica de Paulo de Tarso tinha dado muitos frutos na Grécia. Em princípio, Paulo tinha sido acolhido com frialdade, especialmente em Atenas, já que a ressurreição do Senhor que ele predicava não convencia as mentes neoplatônicas dos sábios do Areópago. De fato, os eruditos gregos viam a morte como uma liberação da alma e do corpo; a ideia de uma ressurreição na carne parecia um regresso ao cativeiro do corpo. Logo, no entanto, os gregos começaram a valorizar as cartas de Paulo, e formaram algumas comunidades de cristãos em Éfeso, Corinto, Filipos, Olimpos, Colossas e Salônica. Enquanto os deuses do Olimpo eram frios e distantes, a fé cristã aquecia os corações, já que predicava que Jesus Cristo, o Verbo, se fez carne e tinha vindo entre os homens (Evangelho de João 1, 11) com o fim principal de tirar o pecado do mundo e, portanto, de salvar-nos, tornando-nos verdadeiramente livres.   
Ao mesmo tempo em que Paulo de Tarso cumpria sua ação evangelizadora, outros apóstolos e evangelistas divulgavam o “kerygma” no mundo. 
O apóstolo Pedro dirigiu-se a Roma, onde foi martirizado e teve seguidores. O evangelista Marcos dirigiu-se a Alexandria do Egito onde, depois de haver predicado o Evangelho, foi martirizado, mas teve sucessores. O evangelista João viveu por muito tempo em Éfeso e teve vários seguidores, entre os quais Policarpo de Esmirna e Inácio de Antioquia. O apóstolo André foi o primeiro bispo de Bizâncio, cujos sucessores foram Estácio e Onésimo. Os apóstolos Judas Tadeu e Bartolomeu divulgaram o Evangelho em Armênia, o apóstolo Tomás dirigiu-se, segundo a tradição, até a Índia. 
No entanto, enquanto a nova fé era difundida, enfrentava-se com outros cultos pré-existentes, as chamadas religiões misteriosas. Muitas pessoas ficaram fascinadas pela história de Jesus Cristo, mas como tinham nascido e crescido em um substrato cultural impregnado de cultos misteriosos e iniciáticos, começaram a dar uma própria interpretação do cristianismo, diferente da apostólica. Estas pessoas, portanto, consideraram o novo culto à luz do antigo. Não podiam negar a pessoa de Jesus Cristo, posto que fosse evidente sua existência histórica, e não podiam sequer negar sua figura imensa, já que reconheciam o valor de seus ensinamentos e de suas obras; viam que muitos estavam dispostos a morrer por ele, só por não negar seu nome. No entanto, não tinham a coragem de abraçar sequer o “kerygma”, ou seja, o fato de que Jesus Cristo tinha vindo para tirar o pecado do mundo, de que tinha sido assassinado e de que tinha ressurgido dentre os mortos no terceiro dia.
Essa gente acreditava que a salvação não se alcançava através do arrependimento dos próprios pecados e através da fé em Jesus Cristo, já que acreditavam que a salvação podia ser alcançada com a gnose, ou melhor, com o conhecimento. O gnosticismo tinha, portanto, uma característica iniciática não aberta a todos e uma concepção cristológica diversa já que, segundo os gnósticos, o Verbo não podia fazer-se carne, uma vez que se manifestou em espírito mostrando um aparente corpo material. Segue que o sofrimento de Jesus Cristo na cruz tinha sido um ato aparente, não tinha tirado “o pecado do mundo” e também a ressurreição tinha sido então um fato alegórico e aparente.
Esta crença, chamada “docetismo” (do grego dokein, parecer ou parecer a alguém), demostra ser falsa por várias razões. Primeiro que tudo, se Jesus tivesse tido somente um corpo espiritual e não real, como teria podido experimentar sentimentos e emoções, como pode chorar e como pode sentir sede e sofrer na cruz? Todos estes fatos estão transmitidos nos Evangelhos e nos outros livros neo-testamentários. Além disso, na Primeira Carta de João (4, 1-2), reafirma-se que Jesus Cristo veio com um corpo físico, na carne:

Amados, não creiais a todo o espírito, mas provai se os espíritos são de Deus, porque já muitos falsos profetas se têm levantado no mundo. Nisto conhecereis o Espírito de Deus: Todo o espírito que confessa que Jesus Cristo veio em carne é de Deus;

Além disso, se Jesus tivesse tido somente um corpo “aparentemente físico”, não teria podido mostrar suas feridas aos apóstolos logo da ressurreição. Vejamos, com tal propósito, algumas passagens do Evangelho de João (20, 26-28):

E oito dias depois estavam outra vez os seus discípulos dentro, e com eles Tomé. Chegou Jesus, estando as portas fechadas, e apresentou-se no meio, e disse: Paz seja convosco.
Depois disse a Tomé: Põe aqui o teu dedo, e vê as minhas mãos; e chega a tua mão, e põe-na no meu lado; e não sejas incrédulo, mas crente.
E Tomé respondeu, e disse-lhe: Senhor meu, e Deus meu!

Além disso, se os sofrimentos de Jesus e, portanto, sua morte tivessem sido aparentes, como teria podido Jesus declarar sua ressurreição depois de três dias? Como teria podido declarar que tinha vencido o pecado e a morte? Teria sido um impostor, porque teria mentido. Neste caso, os apóstolos mesmos, de terem sido honestos, o tinham desmascarado e, obviamente, não tinham divulgado a Boa Nova. 
Não obstante, se os apóstolos acreditavam na ressurreição de Jesus, era porque estavam seguros de sua morte. Se tivessem divulgado uma ressurreição que nunca tinha sucedido, sabendo que divulgavam algo falso, então teriam sido impostores. Mas, se tivessem sido impostores, não teriam caminhado ao martírio para afirmar sua predicação e seus escritos. (De fato, quase todos os autores dos livros do Novo Testamento morreram de martírios; refiro-me a Marcos, Mateus, Paulo, Pedro, Judas Tadeu, Santiago).
Vejamos, portanto, que é primeiro que tudo a lógica a que demostra a falsidade da hipótese docetista.
A falsa tendência docetista foi confutada por vários bispos e teólogos cristãos. 
Vejamos, a propósito, algumas passagens da Carta aos Tralianos (9, 1-2) de Inácio de Antioquia:

Sejais surdos, pois, quando alguém vos fale aparte de Jesus Cristo, que era da raça de Davi, que era o Filho de Maria, que verdadeiramente nasceu e comeu e bebeu e foi certamente perseguido baixo Pôncio Pilatos, foi verdadeiramente crucificado e morreu à vista dos que existem no céu e os que existem na terra e os que existem debaixo da terra; o qual, além disso, verdadeiramente ressuscitou dos mortos, havendo sido ressuscitado por seu Pai, o qual, da mesma maneira nos levantará a nós os que temos acreditado nele—seu Pai, digo, nos ressuscitará em Cristo Jesus, aparte do qual não temos verdadeira vida.

Para fechar o discurso sobre a corrente gnóstica do docetismo, recordemos que na crença cristã, o Verbo encarnado, ou seja, Jesus Cristo tinha que ter, obrigatoriamente, duas naturezas: verdadeiro Deus e verdadeiro homem.
Verdadeiro homem para poder sofrer como nós mesmos, demonstrando-nos que o maior amor é dar a vida pelos próprios amigos. Vejamos, a tal propósito, uma passagem do Evangelho de João (15, 13):

Ninguém tem maior amor do que este, de dar alguém a sua vida pelos seus amigos.

É verdadeiro Deus por poder “tirar o pecado do mundo” (Evangelho de João 1, 29) e, com a ressurreição, demostrar que venceu o pecado e a morte.

Voltemos agora ao gnosticismo cristão, que foi uma espécie de sincretismo entre conceitos gnósticos e o cristianismo.
Os gnósticos pensavam “poder elevar” o cristianismo de uma escala que eles consideravam “inferior” à escala sublime do conhecimento (gnose).
Com este fim, começaram a produzir uma notável quantidade de escritos que se podem distinguir em três categorias.
Primeiro que tudo foram relatos escritos anônimos que mostravam paralelismos com os livros canônicos do Novo Testamento. Tinham como objetivo apresentar doutrinas gnósticas através de supostas revelações de Jesus Cristo aos apóstolos.
Nesta primeira categoria estão os chamados Evangelhos Gnósticos, os Atos Apócrifos dos Apóstolos e algumas Cartas Apócrifas dos Apóstolos.
Os Evangelhos Gnósticos anônimos mais importantes são: a Pistis Sophia, uma exaltação do rol de Maria Magdalena, que seria a encarnação do Eón Sophia (séculos II-III); o Apócrifo de João, que transmite a concepção da tripartição dos homens entre terrenos, psíquicos e espirituais (final do século II); o Evangelho de Maria, que exalta o rol de Maria Madalena (metade do século II); o Evangelho de Tomás, que é uma recopilação de provérbios de Jesus, considerados em chave gnóstica (século II). Entre os Atos Apócrifos dos Apóstolos recordam-se os Atos de João, de Pedro, de André e de Paulo (final do século II), pertencentes ao ciclo leuciano, e os Atos de Tomás (século III), todos os textos com fortes influências gnósticas.
Há, além disso, numerosas cartas apócrifas de influências gnósticas, como a Carta dos Coríntios a Paulo (século II) e a Carta de Pedro a Felipe (século II).
Na segunda categoria há vários “Apocalipses Gnósticos”, como o Apocalipse de Paulo (final do século II – IV século) ou o de Pedro (final do século II- III século).
Na terceira categoria há vários escritos teológicos, éticos, dogmáticos, atribuídos a pensadores gnósticos como Valentino (100-165 d.C., Evangelho da Verdade, Evangelho segundo Felipe, Tratado sobre a Ressurreição), Basílides (ativo do 117 ao 138 d.C., Evangelho de Basílides), Marcião (85-160 d.C., Antítese, Canon Marcionita). 
Mas, qual era a cosmologia do gnosticismo cristão?
Na visão gnóstica-helenística, Deus, chamado também o Uno ou Mônada (do grego μονάς monas, "unidade" de μόνος monos, "uno", "só", "único"), tinha gerado 30 cópias de eones, compostos sempre por uma entidade masculina e uma entidade feminina. Esses eóns tinham formado o “pleroma”, ou a plenitude de Deus, portanto não devem ser vistos como distintos da divindade, senão como abstrações simbólicas da natureza divina. A transição do mundo imaterial ao espiritual tinha sido causada por uma imperfeição, um defeito ou um “pecado”, em um desses eóns.
Em muitas versões dos mitos gnósticos, e também segundo o estudioso alemão Albert Ehrhard, seria a entidade feminina Sophia a que tinha causado essa imperfeição, porque tinha querido ser igual a Mônada. Logo dessa confusão, Sophia, com seu temor e sua angústia, produziu ao demiurgo, que a sua vez criou a matéria e as almas. Porém, o demiurgo foi gerado de um erro, um defeito e é por isso que cria um mundo imperfeito, falaz, errôneo, onde dominam a dor e o mal. Na “Pistis Sophia”, o eón Cristo foi emanado por Deus para devolver a Sophia ao pleroma. O eón Sophia, mostrando-se na forma humana de Maria Madalena, tinha sido assim “reconduzido ao caminho correto” pelo eón Cristo, aparecido na forma do homem Jesus, que foi enviado por Deus à terra para proporcionar aos humanos a gnose necessária para poder abandonar o mundo físico e poder voltar ao mundo espiritual.
Nota-se de imediato que a cosmologia do gnosticismo-cristão deriva de uma estranha cópia da cosmologia bíblica. Sophia e seu erro ou “pecado” recordam o “pecado original” de Eva.
É como se os pensadores gnósticos tivessem se inspirado no “Gênesis” bíblico para logo construir uma cosmologia própria, que carece, no entanto, de originalidade.
Em geral, os escritos gnósticos refletem uma visão negativa da criação. Deus vétero testamentário (YHWH) seria, na visão gnóstica, justamente o demiurgo. Daí que, para os gnósticos, o mundo estaria corrompido e dominado pelo mal, porque, segundo eles, o demiurgo era imperfeito.
Porém, da leitura da Bíblia deduzimos claramente que Jesus Cristo, o Verbo encarnado, é Yahweh, ou seja, o Deus vétero testamentário. 
Vejamos algumas passagens para deixar claro esse ponto. Na seguinte passagem de João (8, 23-24), Jesus, atribuindo a si mesmo o nome com o qual Deus revelou-se a Moisés (“Eu sou”, em Êxodo 3, 14) se põe a par com Deus.
E também, nesta passagem do Evangelho de João (8, 58):

Disse-lhes Jesus: Em verdade, em verdade vos digo que antes que Abraão existisse, eu sou.

Vejamos um ponto dos Salmos (Salmos 33:6): “Pela palavra de Jehová foram feitos os céus e todo o exército pelo alento de sua boca”.

De modo que nos Salmos afirma-se que o Eterno (Deus) criou os céus.
Porém, no Evangelho de João (1, 3) afirma:

Todas as coisas foram feitas por ele, e sem ele nada do que foi feito se fez.

Com uma lógica simples se entende que Deus criou os céus (Salmos) e o Verbo criou cada coisa (João 1,3). Óbvio, porque o Verbo é Deus.

No Livro de Isaías está escrito (44, 6):

Assim diz Jehová, Rei de Israel, e seu Redentor, Jehová dos exércitos: Eu sou o primeiro, e eu sou o último e fora de mim não há Deus.

E no Apocalipse de João diz (1, 17-18):

E eu, quando o vi, caí a seus pés como morto; e ele pôs sobre mim a sua destra, dizendo-me: Não temas; Eu sou o primeiro e o último;
E o que vivo e fui morto, mas eis aqui estou vivo para todo o sempre. Amém. E tenho as chaves da morte e do inferno.

Deduz-se, portanto, que para o evangelista João, Jesus Cristo, o Primeiro e o Último, coincide perfeitamente com o Deus descrito por Isaías, também o Primeiro e o Último.
Outra frase importante com a qual Jesus declarou sua plena identidade e coincidência com YHWH é a seguinte, em resposta ao sumo-sacerdote, extraída do Evangelho de Marcos (14, 61-62):

Mas ele calou-se, e nada respondeu. O sumo sacerdote lhe tornou a perguntar, e disse-lhe: És tu o Cristo, Filho do Deus Bendito?
E Jesus disse-lhe: Eu o sou, e vereis o Filho do homem assentado à direita do poder de Deus, e vindo sobre as nuvens do céu.

Nessa passagem Jesus respondeu claramente, usando as palavras da visão de Daniel (7, 13-14).
De todas essas passagens e de outras da Bíblia, deduz-se claramente que os apóstolos predicaram que Jesus Cristo, Verbo encarnado, não era outra coisa que o mesmo idêntico Deus vétero testamentário, ou seja, YHWH. Os gnósticos, ao contrário, negando ao verdadeiro Jesus Cristo e aos apóstolos, que viveram com o Messias e que divulgaram sua mensagem até o martírio, repudiaram ao Deus do Antigo Testamento, reconhecendo-o em seu demiurgo.
No demiurgo gnóstico coexistiam três naturezas: material, psíquica, espiritual. E daí que para os gnósticos também os humanos distinguiam-se nessas três classes. Na soteriologia gnóstica valentiniana, a salvação não estava relacionada com o pecado e Cristo não era verdadeiro Deus e verdadeiro homem como na crença cristã, pois era somente um ser divino. Para Valentino, os seres humanos materiais (os pagãos) não se salvam, os psíquicos (cristãos e hebreus) poderão unir-se com Deus segundo seu comportamento durante sua vida terrena, somente, no entanto, quando Sophia seja uma com o eón Cristo. Somente os humanos espirituais, ou seja, os gnósticos poderão unir-se diretamente com Deus. De fato, na doutrina valentiniana, o mundo físico durará até que o último elemento espiritual que saia do demiurgo retorne ao pleroma para unir-se com Deus.
Na prática, na visão gnóstica, o mundo corrupto, derivado de um erro de Sophia, é como se fosse Deus petrificado. É o homem quem, com a gnose, anula o mundo terreno. Portanto, é o homem quem, com a gnose, “salva a Deus” e restabelece a plenitude do pleroma.
No cristianismo, ao contrário, é Deus quem, encarnando-se em Jesus Cristo, salva ao homem.
Primeiro que tudo, observamos que a visão gnóstica não foi uma fé original, mas uma adaptação de conceitos gnósticos aplicados ao cristianismo, em forte contraposição com o Antigo Testamento. Os gnósticos, vendo somente a negatividade do mundo terreno, ou seja, o mal, dor e o sofrimento, atribuíram a YHWH, quem identificavam com o demiurgo mau.
Jesus, por outro lado, não podia ser refutado porque, como já mencionei, foi um personagem histórico e muitos estavam dispostos a morrer por ele. Portanto, levaram a cabo um sincretismo, adaptando-o à sua crença.
O “Jesus gnóstico” que resultava, portanto, não era já o narrado pelos apóstolos, que foram quem viveu com o Salvador, já que era o inventado e idealizado pelos gnósticos. Aquele “Jesus gnóstico” não tinha sofrido na cruz, já que sua natureza genuinamente divina lhe impedia de sofrer e, portanto, tão pouco a Ressurreição tinha sentido, era uma alegoria. A importância da chegada de Jesus era somente e unicamente sua ação de “ponte” que podia levar a homem até a verdadeira gnose e, portanto, a Deus. Disso resulta um Jesus completamente falsificado e alheio aos textos neo-testamentários.
Também a escatologia cristã neo-testamentária é suprimida por completo. Está totalmente ausente a parusia do Senhor, e a ressurreição dos corpos e o juízo final são conceitos inexistentes.
Outra característica do gnosticismo é que os mestres iniciados eram superiores aos adeptos.
No cristianismo antigo, ao contrário, não havia hierarquia e todos tinham os mesmos direitos e deveres. Não existiam chefes, mas bispos (ἐπίσκοπος, supervisores). Como a crença cristã exige mudanças radicais não somente em palavras, mas também em fatos, os bispos que predicavam essa mudança de paradigma tinham que demostrar nos atos que eles estavam dispostos a deixar tudo por Jesus Cristo. Não somente tinham que demostrar que viviam de modo irrepreensível e aprazível, não somente tinham que abandonar suas propriedades materiais para doá-las à comunidade, vivendo e compartilhando seus bens, como tinham que estar dispostos a anteferir a Cristo inclusive a suas vidas. E isso foi o que fizeram: de fato, a maioria dos bispos ou dos sábios cristãos que viveram depois da morte de João, na chamada “idade patrística”, morreram martirizados, dando testemunho extremo (mártir significa testemunha em grego) de Jesus Cristo.
Refiro-me, por exemplo, a Clemente de Roma (morto em 100 d.C.), Inácio de Antioquia (35-107 d.C.), Policarpo de Esmirna (69-155 d.C.), Justino Mártir (100-168 d.C.), Irineu de Lyon (130-202 d.C.), Hipólito de Roma (170-235 d.C.), Orígenes (185-254 d.C.), Cipriano (210-258 d.C.), Metódio de Olimpo (250-311 d.C.). Sua principal força, então, foi a fé inquebrável em Cristo, demostrando com o martírio.
Os pensadores gnósticos, ao contrário, não estavam dispostos a morrer por sua fé. Os seguidores de Basílides e de Valentino repudiavam o martírio. De fato, diziam: “Confessar Deus com a morte é um suicídio” (1).
Os seguidores de Basílides acreditavam que os tormentos sofridos pelos mártires cristãos eram o justo castigo pelos pecados cometidos na vida anterior (indício de crenças na reencarnação). Há indícios, então, de que os seguidores de Marcião e Montano valorizam a ação dos martírios. Em geral, de todos os modos, deduz-se que entre os gnósticos, praticamente nenhum estava disposto a morrer para afirmar “o eón de Cristo”.
Estava, além disso, o conceito que está na base dos cultos iniciáticos, que estava na base do gnosticismo: segundo a Pistis Sophia, Jesus havia transmitido a seus seguidores um ensinamento “secreto” e “oculta”, especialmente despois do evento da ressurreição que, no gnosticismo, é uma alegoria.
Demostramos assim facilmente que os gnósticos predicavam um “Jesus gnóstico” que nunca existiu. Primeiro que tudo, os apóstolos e os autores das teses neo-testamentárias predicaram que o ensinamento de Jesus não foi nunca esotérico, ou seja, reservada a poucos, senão completamente pública, ou melhor, aberta a todos. A mensagem de Jesus Cristo no Novo Testamento estava dirigido não somente a seus seguidores, mas também e sobretudo a seus não seguidores, ou seja, aos pecadores, aos gentis (ver episódio da samaritana), aos soldados romanos (ver episódio do servo do centurião).
No ensinamento gnóstico, fruto de um sincretismo forçado, o ensinamento de Jesus estava reservado a poucos iniciados, enquanto que o verdadeiro e único Jesus Cristo ensinou abertamente a todos os que se declaravam dispostos a escutá-lo.
Vejamos, a tal propósito, a passagem do Evangelho de João (18, 19-21):

E o sumo sacerdote interrogou Jesus acerca dos seus discípulos e da sua doutrina.
Jesus lhe respondeu: Eu falei abertamente ao mundo; eu sempre ensinei na sinagoga e no templo, onde os judeus sempre se ajuntam, e nada disse em oculto.
Para que me perguntas a mim? Pergunta aos que ouviram o que é que lhes ensinei; eis que eles sabem o que eu lhes tenho dito.

Além disso, no cristianismo está o conceito de que os pobres de espírito (os que não se vangloriam de sua condição espiritual, já que são conscientes de não ter chegado ao Reino de Deus), podem ascender ao Reino se estão arrependidos dos próprios pecados e reconhecem que Jesus Cristo veio para tirar o pecado do mundo. Todos, então, podem ascender ao Reino de Deus. Também um rico, também uma pessoa que tenha poder terreno, se é humilde e se despoja de suas riquezas ou de sua presunção, pode ascender ao Reino.
Então, observamos que o cristianismo antigo e o gnosticismo não podiam estar de acordo, porque são contrários. Os gnósticos, portanto, não renunciaram à suas tradições misteriosas, já que adaptaram Jesus Cristo à sua tradição, tergiversando os conceitos básicos do Novo Testamento e, portanto, predicando um Jesus que não existiu jamais.
Qual foi a resposta às primeiras comunidades de cristãos ao culto sincrético do gnosticismo-helenístico?
Primeiro que tudo houve uma resposta eclesiástica. Nenhum dos gnósticos-helenísticos que predicavam mais que tudo em um ambiente alexandrino e romano foi nomeado bispo. O alexandrino Valentino foi inicialmente nomeado diácono em Roma, sob os bispos Igino e Aniceto. Porém, não foi nomeado bispo, portanto escolheu o caminho da predicação gnóstica independente e morreu em Chipre, possivelmente no ano 165.
Houve uma densa resposta teológica às teses sincréticas dos gnósticos. O principal escritor e teólogo anti-gnóstico foi Irineu de Lyon (130-202 d.C.), mas também Tertuliano (155-230 d.C.) e Hipólito de Roma (170-235 d.C.) escreveram no intento de defender a originalidade da fé cristã.
Irineu nasceu em Esmirna e foi discípulo de Policarpo. Durante a perseguição de Marco Aurélio, foi sacerdote na cidade de Lyon, cujo bispo era Potino. Após o regresso de uma viagem a Roma, deu-se conta de que Potino morreu após uma perseguição e foi nomeado segundo bispo de Lyon. Muitos de seus escritos tiveram o objetivo de demostrar o infundado e falso das doutrinas gnóstico-cristãs. Sua obra anti-gnóstica mais importante foi Adversus haereses ou Desmascarar e Refutar a falsamente chamada Ciência.
Nessa obra, Irineu confuta a Valentino e a seus predecessores, que remontam a Simon Mago, personagem descrito nos Atos dos Apóstolos (cap. 8). Irineu faz notar que simplesmente os textos gnósticos não fazem parte dos escritos apostólicos pertencentes ao cânone. Justo na segunda metade do século II, de fato, o cânone testamentário estava por tomar forma, como logo se provou com o descobrimento do fragmento muratoriano (2). Além disso, Irineu demostra que nem no Antigo nem no Novo Testamento há doutrinas gnósticas. Faz notar, além disso, que nenhum dos sucessores dos apóstolos ensina doutrinas gnósticas.
Irineu demostra, portanto, já ao final do século II, que o gnosticismo-helenístico não é outra coisa que um culto não original e não apostólico. Demostra que os gnósticos divulgaram um Jesus que não existiu nunca, que refletia somente sua tradição, mas que não tinha nada que ver com o verdadeiro Jesus Cristo, divulgado pelos apóstolos tanto oralmente como nos escritos canônicos do Novo Testamento.
Segundo o imperador Flávio Cláudio Juliano (331-363), existiam escolas valentianas na Ásia Menor até seus tempos. No século IV, quando o Cristianismo foi aceito e logo imposto como religião de Estado, o culto gnóstico-docético declinou e foi marginalizado em algumas zonas periféricas do império como, por exemplo, Arábia (3).
Certos conceitos gnósticos, no entanto, não se extinguiram, pois se transformaram e sobreviveram até e mais além da Idade Média, para logo renascer na época moderna através do pensamento de pessoas como o poeta William Blake, o maçom Albert Pike, a esotérica H. P. Blavatsky (fundadora da sociedade teosófica) e o psicanalista Carl Gustav Jung.

YURI LEVERATTO
Copyright 2015

miércoles, 20 de enero de 2016

A morte na cruz de Jesus Cristo


O fundamento da fé cristã é que Jesus Cristo, verdadeiro Deus e verdadeiro homem, morreu na cruz com o fim de tirar o pecado do mundo e no terceiro dia ressuscitou dos mortos, vencendo o pecado e a morte. A ressurreição foi um evento sobrenatural que não se pode provar cientificamente. Porém, é verdade que existem muitos indícios que corroboram este fato e, além disso, nenhuma teoria conseguiu provar que a ressurreição não seja verdade. 
A morte na cruz de Jesus Cristo é, no entanto, um evento histórico comprovado. Hoje em dia, não existe nenhum historiador sério do Novo Testamento que nega a morte na cruz de Jesus Cristo. Entretanto, de todas as maneiras, os islâmicos consideram que esse fato não aconteceu. Neste artigo, vamos provar que a crucificação e a morte na cruz de Jesus Cristo são fatos históricos e que, por isso, qualquer outra teoria que nega a morte na cruz de Jesus Cristo é contra a História e contra a lógica.
Primeiro que tudo existem as fontes cristãs e não cristãs sobre a morte na cruz de Jesus Cristo. As fontes cristãs estão formadas pelos livros do Novo Testamento, todos escritos no primeiro século (os mais antigos) e todos escritos por pessoas que viveram com Jesus, divulgaram o Evangelho e, além disso, decidiram colocar o nome de Cristo antes de suas próprias vidas: decidiram morrer como mártires para não negarem o nome do Messias. Refiro-me a Marcos, Mateus, Paulo de Tarso, Pedro, Judas Tadeu e Santiago.  
Em seguida, temos as fontes documentais não cristãs. Primeiro que tudo está a fonte documental de Cornélio Tácito, que escreve assim em seus anais (XV, 44):

“E assim Nero, para divertir esta voz e descarregar-se, deu por culpados dele e começou a castigar com estranhos gêneros de tormentos uns homens aborrecidos do vulgo por seus excessos, chamados comumente cristãos. O autor deste nome foi Cristo, o qual, imperando Tibério, tinha sido julgado por ordem de Pôncio Pilatos”.

Tácito, descreve os cristãos e confirma o que está escrito nos Evangelhos: Jesus Cristo viveu sob o império de Tibério (14-37 d.C.) e foi crucificado por Pôncio Pilatos. 
Depois, temos o livro “Antiguidades Judaicas” onde na passagem chamada Testimonium Flavianum, Flávio Josefo descreve a crucificação de Jesus e, além disso, sua ressurreição: 

“Por esse tempo apareceu Jesus, um homem sábio, se é que é correto chamá-lo homem, já que praticou milagres impactantes, um mestre para os homens que recebem a verdade com gozo, e atraía até Ele muitos judeus e muitos gentis. Era o Cristo. E quando Pilatos, frente à denúncia daqueles que são os principais entre nós, havia condenando-o à cruz, aqueles que o tinham amado primeiro não lhe abandonaram, já que apareceu vivo novamente no terceiro dia, havendo profetizado isso e outras tantas maravilhas sobre Ele os santos profetas. A tribo dos cristãos, chamados assim por Ele, não tem cessado de crescer até este dia”. 

Olhemos agora outra fonte histórica sobre a crucificação de Jesus, o Talmude da Babilônia, uma coleção de escritos rabínicos judeus compilada a partir de 70 d.C. À continuação, uma passagem:

“Durante a vigília da festa de Páscoa, Yeshua, o Nazareno, foi pendurado. Por quarenta dias posteriores a sua execução, um pregador foi anunciando: “Yeshua, o Nazareno, está a ponto de ser apedrejado porque tem praticado a magia, tem seduzido e tem desencaminhado Israel”.

Essa passagem não só é uma prova da existência mesma de Jesus, senão que explica, indiretamente, desde o ponto de vista dos judeus que não acreditavam nele, o motivo da sua crucificação. De fato, sustenta-se que praticou a “magia” e que “desencaminhou Israel”. De um lado, confirmam-se os milagres considerados como a “magia” de quem não acreditava; de outro, confirmam-se os Evangelhos, que descrevem por que Jesus foi enviado ao cadafalso, já que desde o ponto de vista dos judeus que não acreditavam, ele era um renegado, ou melhor, uma pessoa blasfema que não acreditava nas sagradas escrituras, já que se substitui no lugar delas.
Há outras fontes históricas sobre a crucificação de Jesus como, por exemplo, aquela de Luciano de Samostata (120-180 d.C.), em sua obra “Sobre a morte do Peregrino” (XI-XIII): 

“Como sabeis, os cristãos adoram um homem deste tempo, que criou seus inovadores ritos e que foi por isso crucificado…seu fundador deixou impresso neles a convicção de que todos são irmãos desde o momento em que se convertem e rejeitam os deuses da Grécia, para adorar, em lugar disso, o sábio crucificado e viver segundo seus preceitos.”

Luciano de Samostata, ainda que não fosse cristão e, além disso, sendo um crítico da fé cristã, confirma que (Cristo) foi crucificado.
Analisemos agora, desde um ponto de vista lógico, a posição islâmica, ou seja, que Jesus Cristo não morreu na cruz porque “foi substituído por outro”.
Se analisarmos todas as fontes cristãs, vemos que Cristo apresentou-se aos apóstolos e aos outros seguidores no terceiro dia depois da sua morte, afirmando sua Ressurreição exatamente como tinha anunciado. Porém, se Jesus Cristo não tivesse sido morto na cruz e depois tivesse se apresentado aos apóstolos mostrando que tinha ressuscitado, nesse caso teria sido um impostor, porque teria mentido. Nenhum dos apóstolos tinha pensado numa substituição de pessoas, óbvio, porque o apóstolo João, Maria, a mãe de Jesus e outras mulheres estavam presentes na crucificação e tinham a certeza absoluta de sua morte. 
Poderia ser que o homem crucificado não fosse Jesus? Impossível, porque Jesus Cristo foi facilmente individualizado em seu rosto e em seu físico quando foi preso. Depois, foi apresentado ao Sinédrio, portanto, conheciam muito bem seu rosto. Além disso, a lógica diz que se verdadeiramente outra pessoa tivesse sido enviada à cruz e não Jesus, por que essa pessoa, sabendo que estava sendo colocada no lugar de Jesus, não teria declarado? Ninguém vai em direção à morte feliz, sabendo que está no lugar de outro. 
Nesse ponto estamos seguros que o homem na cruz era Jesus Cristo. 
Analisemos agora a possibilidade que a crucificação não foi suficiente para matar Jesus Cristo. É praticamente impossível. A crucificação era a condenação mais cruel e segura utilizada durante o império romano. Além disso, muitas vezes e seguramente no caso de Jesus Cristo, a crucificação seguia severas flagelações que causavam fortes perdas de sangue. 
Vários médicos (1) já declararam que a morte de Jesus Cristo foi provocada por asfixia causada pela posição forçada que impede o tórax de respirar. Esses médicos confirmaram que, depois de sua morte e depois de estar morto por pelo menos cinco minutos, não teria sido possível “reanimá-lo”. Além disso, no Evangelho de João (19, 34), se descreve que um centurião perfurou a caixa torácica (e, portanto, o pulmão) de Jesus com uma lança. 
Jesus já estava morto e por isso não reagiu. Portanto, temos várias razões para afirmar que Jesus estava realmente morto quando seu corpo foi retirado da cruz.
A última hipótese que se pode contestar com a História e a lógica é a morte aparente. 
Se Jesus estivesse morto “aparentemente” e se tivesse despertado no terceiro dia, não teria podido remover a pedra sepulcral. Além disso, ainda admitindo que a pedra fosse removida por outros, como poderia o “Jesus que não morreu na cruz”, convencer seus seguidores de ter ressuscitado? Impossível, porque a ressurreição descrita pelos apóstolos (que depois preferiram ir à morte que negar Jesus Cristo) é uma ressurreição gloriosa, daquele que é verdadeiro Deus e verdadeiro homem, sem feridas (exceto as marcas dos pregos e da lança). Não era um Jesus “abatido e debilitado” aquele que se apresentou aos seus seguidores, mas um Jesus Cristo invencível, todo poderoso, aquele que tinha vencido o pecado e a morte: era o Verbo encarnado. Portanto, uma coisa seria uma improvável sobrevivência da morte aparente, outra coisa é a ressurreição!
Hoje em dia, a totalidade dos historiadores do Novo Testamento (com exceção de alguns historiadores islâmicos) não têm dúvidas que Jesus Cristo morreu na cruz (2) (3) (4).
Assim que está demostrado de maneira histórica que Jesus Cristo morreu realmente na cruz. As falsas teses que divulgam o contrário poderiam ser o resultado da divulgação de alguns evangelhos gnósticos que existiam no segundo e terceiro século da era cristã. Porém, nenhum daqueles gnósticos estava disposto a morrer para afirmar aquelas teses. Os apóstolos do primeiro século, no entanto, que tinham vivido com Jesus Cristo e o tinham conhecido em pessoa, testemunhavam sua morte e sua ressurreição com o martírio. 

YURI LEVERATTO
Copyright 2015

Foto: Diego Velazquez, Cristo Crucificado.
Bibliografia: LICONA, Michael. Podemos estar certos que Jesus morreu na cruz? Uma olhada na prática da crucificação.
Notas:
1-The Death of the Messiah, Volume 2 (New York: Doubleday, 1994), 1088ff.
2-John Dominic Crossan, Jesus: A Revolutionary Biography (San Francisco: HarperCollings, 1991), 145.
3-Gerd Lüdemann. The Resurrection of Christ (Amherst, NY: Prometheus, 2004), 50.
4-Michael Licona www.4truth.net

lunes, 14 de diciembre de 2015

O Cristianismo antigo: a idade patrística pré-nicena

 

O Cristianismo antigo começou com a Ressurreição de Jesus e difundiu-se de Jerusalém por todo o mundo antigo através da ação infatigável dos Apóstolos e dos demais seguidores de Cristo. Os documentos mais significativos que se descreve a idade apostólica, ou melhor, o período da Ressurreição até a morte de João, são os Atos dos Apóstolos, as Cartas de Paulo e as outras obras que formam o Novo Testamento. No entanto, existem outros documentos, como a primeira carta de Clemente de Roma, onde se descrevem alguns fatos da idade apostólica, por exemplo, o martírio de Pedro e a infatigável obra de evangelização de Paulo (1).
Durante o primeiro século d.C., os cristãos foram perseguidos duramente, já que não reconheciam a “divindade” do imperador e predicavam o Evangelho de Cristo, afirmando que somente a fé nele e o arrependimento dos próprios pecados levariam à salvação e, portanto, à vida eterna. Tudo isso estava em forte contradição com a religião e com a cultura romana, que via o ser humano como um simples animal desenvolvido e não como um ser sagrado, situado no centro do projeto divino.
As perseguições contra os cristãos começaram sob o mando do imperador Nero. O imperador Vespasiano, depois das guerras judaicas, ordenou buscar a todos os descendentes da estirpe de Davi. Logo, Domiciano voltou a perseguir os cristãos com inaudita ferocidade.
Depois da morte de João, o apóstolo de Jesus Cristo que viveu mais tempo, passado aproximadamente o ano 100 d.C. em Éfeso, não havia ninguém que tivesse conhecido o Salvador do mundo.
O Cristianismo, no entanto, a pesar das terríveis perseguições romanas, sobreviveu, inclusive difundiu-se “como fogo em bosque seco”.
Como foi possível?
Quem foram os sucessores dos Apóstolos e qual era seu estilo de vida?
Por que conseguiram aceitar a nova fé em Deus as massas de pessoas que até poucos anos reconheciam como divino o imperador ou adoravam ídolos?
Primeiro que tudo, temos que considerar que as igrejas cristãs que surgiram no século I e que logo se desenvolveram no século seguinte, não estavam organizadas em um modo hierárquico; na prática, não havia um “Papa” ou chefe da cristandade. Contrariamente ao que se possa pensar, o sucessor de Pedro, que se chamava Lino, não era o chefe da Igreja cristã, já que era somente o chefe da Igreja cristã de Roma.
Cada cidade tinha seu bispo: Alexandria do Egito, Éfeso, Antioquia, Jerusalem, Olimpo, Filipos, Corinto, Cartago etc.
A independência de cada congregação das demais tornava, então, impossível que qualquer ensinamento errôneo, ou seja, diferente da palavra do Senhor, e que qualquer novo dogma se estendesse a outras comunidades. Além disso, os bispos não tinham sido educados fora das comunidades onde professavam, pois tinham crescido dentro delas, eram conhecidos por todos e a todos deviam responder por suas ações.
Como a crença cristã exige mudanças radicais não somente em palavras, mas também em atos, os bispos que predicavam essa mudança de paradigma deviam demostrar com os atos que eles estavam dispostos antes que ninguém a deixar tudo por Jesus Cristo. Não somente deviam demostrar que viviam de forma irrepreensível e aprazível, como deviam abandonar suas propriedades materiais para doá-las à comunidade, compartindo os bens, tendo que estar dispostos a antepor a Cristo inclusive a suas vidas.
E foi isso que fizeram: de fato, a maioria dos bispos e dos sábios cristãos que viveram depois da morte de João, na chamada “idade patrística”, morreram martirizados, dando um testemunho extremo (mártir significa testemunho em grego) de Jesus Cristo. Refiro-me, por exemplo, a Clemente de Roma (morto no ano 100 d.C.), Inácio de Antioquía (35-107 d.C.), Policarpo de Esmirna (69-155 d.C.), Justino Mártir (100-168 d.C.), Ireneo de Lyon (130-202 d.C.), Hipólito de Roma (170-235 d.C.), Orígenes (185-254 d.C.), Cipriano (210-258 d.C.), Metódio de Olimpia (250-311 d.C.).
Sua principal força, então, foi a fé inquebrantável em Cristo e a demonstração com o martírio.
Sobre o processo de nominação de um novo bispo, analisemos um escrito de Cipriano (2):

Deve ser escolhido em presença da gente e deve demostrar que é digno e apropriado mediante juízo e testemunho público (…). Para uma ordenação apropriada, todos os supervisores vizinhos da mesma província devem reunir-se com a congregação. O supervisor deve ser escolhido em presença da congregação, já que eles conhecem sua vida e costumes.

E sobre a integridade e moralidade dos cristãos, leiamos una parte de um escrito de Inácio (3):

É necessário, portanto, não só ser chamado “cristão”, mas ser na realidade cristão (…). Se não estamos preparados para morrer da mesma maneira que Ele sofreu, sua vida não está em nós.

Outra característica dos primeiros cristãos era a chamada separação do mundo.
Vejamos a tal propósito as célebres passagens do Evangelho de João (15, 18-19):

Se o mundo os odeia, saibam que odiaram a mim antes que vocês. Se vocês fossem do mundo, o mundo amaria o que é seu; mas como não são do mundo, já que Eu os escolhi entre o mundo, o mundo os odeia.
De fato, os primeiros cristãos demostraram não estar interessados nas tentações do mundo. Não estavam interessados no dinheiro, nem no poder. Viviam no mundo e, no entanto, não faziam parte dele. Foi somente a partir do chamado híbrido constantiniano que as coisas mudaram. Nos 280 anos que vão justamente da Ressurreição ao edito de Milão, os cristãos viveram em contextos nem frívolos, nem mundanos, senão mais bem austeros. Não é que não foram felizes, que fique claro, já que sua alegria provinha da fé e não certamente das posses materiais ou do poder terreno. Vejamos a tal propósito, dois escritos de Hermas, irmão de Pio, bispo de Roma:

(4):
De fato, estes são os que têm fé, mas também têm as riquezas deste mundo. Quando vem a prova, negam ao Senhor devido a suas riquezas e negócios… Por conseguinte, aqueles que são ricos neste mundo não podem ser úteis ao Senhor a menos que se reduzam primeiro suas riquezas. Em seu caso, aprendam primeiro isto. Quando vocês eram ricos eram inúteis. Mas, agora, são úteis e aptos para a vida.

(5):
Abstenham-se de tanto negócio e evitem o pecado. Aqueles que estão ocupados com tantos negócios cometem também muitos pecados e seus assuntos de negócios fazem que se distraiam, em vez de servir ao Senhor.

Precisamente a separação dos prazeres mundanos, ou seja, do aparentar, do mostrar-se, do culto da posse, não fizeram mais que reforçar sua atitude em ajudar e amar ao seu próximo, fosse cristão ou não cristão.
Vejamos a tal propósito uma citação de Justino Mártir (6):

Nós, que dávamos valor a adquirir riqueza e posses mais que a qualquer outra coisa; agora levamos o que temos a um fundo comum e o compartilhamos com qualquer que o necessite. Odiávamos e nos destruíamos entre nós mesmos e nos negávamos a associar-nos com povos de outras raças ou países. Agora por Cristo, vivemos junto a essas pessoas e oramos por nossos inimigos.

Eis aqui como Clemente de Alexandria descrevia o bom cristão (7):

Empobrece-se a si mesmo por causa do amor de modo que está seguro que nunca passará por cima de um irmão necessitado, em especial se sabe que pode suportar a pobreza melhor que ele. Da mesma maneira considera a dor de outro como sua própria dor. E se sofre alguma dificuldade, não se queixe.

Dessas e outras citações dos textos patrióticos resulta, portanto, que os cristãos do segundo e do terceiro século dedicavam-se realmente ao próximo, não somente ao próximo cristão, que fique claro. Outra de suas características era o fato de que não costumavam levar a juízo um “irmão” seu, senão que tentavam dirimir as controvérsias de modo tranquilo, com diálogo e compreensão.
Seu espirito ultraconservador levava-os, além disso, a considerar que não devia ter nenhuma nova revelação depois dos textos do Novo Testamento. Qualquer possível mudança ou acréscimo aos textos sagrados era, portanto, vista como um grave erro.
Como podiam viver os primeiros cristãos dentro de sociedades, a romana e a grega, profundamente corruptas, tanto desde um ponto de vista moral como dos costumes sexuais?
Os cristãos encontravam-se, literalmente, nadando contra a corrente.
Primeiro que tudo, o fato mesmo de não fazer os sacrifícios rituais aos deuses pagãos ou de não queimar incenso em honra ao “gênio” do imperador, que era reconhecido como o “deus” protetor dos romanos, era já por si só uma situação que os expunha à morte. De fato, muitas perseguições contra os cristãos tiveram origem justamente no obstinado repúdio dos cristãos a submeter-se a rituais que, para eles, não tinham sentido.
Os primeiros cristãos estavam, no entanto, também em contraste com a cultura da época e não somente com a religião grega ou romana. Tomemos por exemplo o caso do aborto: na Roma imperial, era una prática comum e tolerada. A vida humana, de fato, não era considerada sagrada, não se via como o projeto de Deus que devia ser preservado a qualquer preço.
O ser humano era considerado somente um animal que tinha desenvolvido qualidades intelectuais particulares, mas não era visto num plano superior ao dos outros seres vivos. Portanto, o feto podia ser destruído sem problemas, exatamente como alguns escravos que eram arremessados na areia à mercê de bestas ferozes, somente por diversão das massas.
Os primeiros cristãos opunham-se tenazmente a tudo isso. A tal propósito, vejamos um escrito de Tertuliano (8):

No nosso caso, já que o assassinato está absolutamente proibido em qualquer de suas formas, nem sequer poderíamos destruir o feto no útero (…) deter um nascimento é simplesmente uma forma mais rápida de matar. Não importa se quitamos uma vida que nasce ou se destruímos uma vida que ainda não nasceu.

Os primeiros cristãos estavam, obviamente, contra a instituição da escravidão, já que no ensinamento de Cristo, todos os homens são livres e nenhum deve prevalecer ou dominar o outro.
Eis aqui uma citação de Lactâncio, que sanciona este conceito (9):

Ante os olhos de Deus, ninguém é escravo, ninguém é amo. Já que todos têm o mesmo Pai, somos por igual seus filhos. Ninguém é pobre ante os olhos de Deus exceto o que carece de justiça. Ninguém é rico exceto o que está cheio de virtudes.

Vejamos agora quais eram as crenças dos primeiros cristãos em relação ao batismo. Pensavam que o batismo purificaria os pecados de uma pessoa? Pensavam, quem sabe, que sem batismo uma criança seria condenada? Absolutamente. Para os primeiros cristãos, o batismo não era considerado um ritual mágico que podia salvar uma pessoa, a menos que estivesse acompanhado da fé em Jesus Cristo e do verdadeiro arrependimento dos próprios pecados. Em prática, o batismo atuado sem fé, não tinha nenhum valor. Portanto, sustentavam que as crianças não batizadas que morriam na infância podiam salvar-se, diferente do dogmático Agostinho de Hipona (354-430 d.C.).
Vejamos, com esse propósito, uma passagem de Justino Mártir, em sua obra “Diálogo com Trifão” (10):

Não há outra forma (de obter as promessas de Deus) que esta: conhecer a Cristo, ser banhado na fonte da que falava Isaías para a remissão dos pecados e, por último, viver uma vida sem pecado.

Que sustentavam os primeiros cristãos a propósito da salvação?
Segundo a maioria dos historiadores, entre os quais o estadunidense David Bercot, durante o cristianismo antigo, o bem, tanto na era apostólica como na era patrística, acreditava-se que a fé em Deus era absolutamente essencial para a salvação e que sem a graça de Deus, nenhum podia salvar-se.
No entanto, no curso dos séculos seguintes desenvolveram-se abundantes diatribes entre os que sustentavam a salvação pela fé e os que apoiavam a salvação através das obras. Segundo estas duas tendências, então, ou a salvação é um presente de Deus ou se consegue através de boas obras.
Estas polêmicas, no entanto, foram introduzidas pelo dogmático Agostinho de Hipona e logo por Martim Lutero, e não existiam nos tempos do cristianismo antigo.
Os cristãos dos primeiros três séculos tinham claro que somente através da fé absoluta pode-se obter a salvação. Seu raciocínio considerava, naturalmente, que uma fé sem obras não é verdadeira fé. Mas, vejamos algumas citações dos primeiros cristãos da idade patrística para tal propósito, Clemente de Roma por exemplo (11):

E nós, portanto, que por Sua vontade fomos chamados em Jesus Cristo, não somos justificados por nós mesmos. Nem por nossa própria sabedoria, nem entendimento, nem piedade, nem obras feitas em santidade de coração. Senão por essa fé, através da qual Deus todo poderoso tem justificado a todos os homens desde o princípio.

O mesmo Clemente, no entanto, exorta a cumprir boas obras (12):

Que faremos, ó irmãos? ¿Cessaremos de fazer o bem e descuidaremos a caridade? Nunca permita o senhor que isso suceda entre nós, pois com zelo e ardor nos esforcemos em cumprir qualquer boa obra.

Da mesma maneira, consideremos duas citações de Policarpo, o discípulo de João. Na primeira, transmite uma célebre passagem da Carta aos Efésios de Paulo (13):

Muitos desejam entrar na sua glória, sabendo que: “Pela graça vocês foram salvos, mediante a fé; isso não procede de vocês, pois é presente de Deus, não por obras, para que ninguém se gabe” (Efésios 2, 8-9).

Na segunda citação, no entanto, o mesmo Policarpo exorta a fazer obras de bem (14):

Aquele que se levantou entre os mortos também nos levantará, se fazemos sua vontade e seguimos seus mandamentos e amamos o que ele ama mantendo-nos longe de toda corrupção.

Agora vejamos o pensamento de Clemente de Alexandria, a respeito da salvação através da fé (15):

Abraão não foi justificado por suas obras, senão pela fé (Romanos 4, 3). Portanto, mesmo se realizam boas obras agora, não lhes aproveita depois da morte, se não têm fé.

O mesmo Clemente, no entanto, afirma (16):

Quem obtenha a Verdade e se distinga por suas boas obras ganhará o prêmio da vida eterna (…). Algumas pessoas entendem de forma aceitável como (Deus provê o poder necessário), mas ao dar-lhe pouca importância às obras que levam à salvação, não se preparam o suficiente para conseguir os objetos da sua esperança.

Nesta última passagem, Clemente confirma que “depois de ter reconhecido a Verdade”, ou seja, depois de ter afirmado a Verdade em Cristo, aquele que crê deve fazer boas obras para obter a vida eterna.
Dessas citações deduz-se, portanto, que os primeiros cristãos davam prioridade à fé em Cristo para alcançar a salvação. Para eles, não havia nenhuma diatribe entre fé e obras, justamente porque se a fé é verdadeira, deve necessariamente incluir boas obras.
De tudo isso, portanto, chegamos à conclusão de que o mundo grecorromano e a cultura dos primeiros cristãos, derivada obviamente de sua fé em Cristo, eram dois planetas opostos que irremediavelmente tinham que enfrentar-se. Um dos dois englobaria o outro. E assim foi de fato: o mundo antigo grecorromano desapareceu e foi transformado na civilização cristã, mesmo que, no período do híbrido constantiniano, tenha sido parcialmente diluída e corrompida.

YURI LEVERATTO
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A reprodução desse artigo pode ser feita sob as seguintes condições:
1. O texto debe ser reproduzido integralmente;
2. O título não pode ser alterado, nem partes do texto, nem suas fontes bibliográficas.
3. Que seja agregado visivelmente depois do título e ao final do artigo: obra de Yuri Leveratto.
Bibliografia: Bercot, David. Que falem os primeiros cristãos.

Notas:
(1) Há, além disso, outros testemunhos que descrevem o martírio de Paulo, quando estava baixo domínio do imperador Nero, como a Carta aos Romanos de Dionísio, bispo de Corinto. Eis aqui seu testemunho:
“Portanto, você, mediante sua urgente exortação, tem estabelecido muito estreitamente a semeadura de Pedro e Paulo em Roma e em Corinto, pois ambos plantaram a semente do Evangelho também em Corinto e juntos instruíram-nos, tal como em forma similar ensinaram no mesmo lugar da Itália e sofreram o martírio ao mesmo tempo.”
Ou como o testemunho de Gaio, que viveu em Roma nos tempos do bispo Ceferino. Ele, em um escrito contra Proclo, chefe da seita do montanismo, diz a propósito dos lugares onde foram postos os sagrados despojos dos apóstolos:
“Mas eu posso mostrar os troféus dos Apóstolos. Se pensam por bem ir ao Vaticano ou ao caminho de Óstia, acharão os troféus daqueles que fundaram esta Igreja".
Estes dois testemunhos foram extraídos da História Eclesiástica de Eusébio.
(2) Cipriano, Lettera alla congregazione della Spagna (epístola 67, cap. 4, 5)
(3) Ignazio, Lettera ai Magnesi, cap. 5
(4) Erma, Il pastore di Erma, tomo 1, vis.3, cap.6
(5) Erma, Il pastore di Erma, tomo 3, sim.4
(6) Giustino, prima apologia, cap.14
(7) Clemente di Alessandria, Miscellanea, tomo 7, cap. 12
(8) Tertulliano, Apologia, cap.9
(9) Lattanzio, Istituzioni divine, tomo 5, cap.15/16
(10) Giustino, Dialogo con Trifone, capitolo 44
(11) Prima Lettera di Clemente, cap. 32, 4
(12) Prima Lettera di Clemente, cap. 33, 1
(13) Policarpo, Lettera ai Filippesi, cap. 1
(14) Policarpo, Lettera ai Filippesi, cap. 2
(15) Clemente, Miscellanea, tomo 1, cap. 7
(16) Clemente, uomo ricco, cap. 1, 2